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Em tom de desabafo

Por Maya Santana

"Escrever era um jeito de exorcizar o demônio"

“Escrever era um jeito de exorcizar o demônio”

Déa Januzzi

Sabe aquela sensação de não ser mais você mesma? De estar no papel de uma outra personagem? Nem imaginava que ser uma aposentada com 61 anos no mercado de jornalismo mineiro era o mesmo que decretar uma sentença de morte. Só aparecem migalhas, mas quando ela saiu do jornal, tinha um projeto de trabalho e de vida. Ela decidiu deixar o mercado formal de jornalismo pa…ra se dedicar a outros sonhos.

Depois de 38,5 anos na redação de um grande jornal, ela negociou a saída da empresa. Não se programou, pois não tinha a mínima intenção de parar de trabalhar, de se aposentar da vida. Queria mais tempo para ela mesma e para os seus novos projetos, todos deixados para trás com horários anti-sociais e plantões de fins de semana, feriados, dias santos, natais e carnavais.

As pessoas, no entanto, continuam dizendo que lêem suas crônicas num jornal que ela não escreve há mais de um ano. Continuam elogiando o texto, a sensibilidade dela que já está com os braços pra trás e amarrado. Ela não sabe o que dizer para os leitores que até hoje dizem dos inúmeros recortes que guardaram.

Ela não tinha a mínima intenção de parar de trabalhar, porque serviço doméstico nunca foi seu forte. Ela não serve de exemplo para ninguém que chegou aos 61. Bebe vinho todos os dias, sob o olhar vigilante do filho, que não esconde o desapontamento com a mãe que nem dona de casa consegue ser. Se ela tem que arrumar a casa não consegue cozinhar nem lavar e passar. Se decide ir para a cozinha, tem que ser um ou dois pratos no máximo. Não sabe passar roupa nem gosta de lavar. Briga até com a máquina de lavar. Afinal, ela escolheu fazer jornalismo na década de 1970, em plena época da ditadura. Será por que? Será que toda história de vida dela tem que ser jogada debaixo do tapete como se fosse vergonha ter escrito e acompanhado todos os grandes acontecimentos dos últimos 40 anos?

Ela acha que ficou invisível, transparente, pois não guardou dinheiro, não tem casa própria, não se preocupou com o futuro, que por incrível que pareça chegou, se estendendo como areia movediça sob os seus pés. Ela tenta se mover, mas cada vez mais é puxada para o fundo do poço. Será que no fundo do poço tem mais fundo? Ou tem mola para jogá-la de volta pra cima? Ela confessa que está perdida, pois escrever era uma espécie de redenção, de terapia, um jeito de exorcizar os seus demônios, de espantar os seus fantasmas. Sem escrever, ela virou uma espécie de morta-viva. Será que ela vai ter que se reinventar? Virar professora, jardineira ou artesã.

Será que ela vai ficar assim uivando para a Lua, em vez de aproveitar os raios de luz?

Déa Januzzi é uma premiada jornalista e escritora. Trabalhou durante quatro décadas para o jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte.

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5 Comentários

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Pablo Morais 2 de outubro de 2014 - 10:11

O mundo é muito pequeno, tão pequeno que até as pedras se encontram! Seu momento vai chegar. Em um país sem cultura cheio de achismos e pelo seu curriculum é melhor ser morta-viva do que um vivo-morto. Anime-se, uive bastante para a Lua, pois são teus os primeiros raios da manhã. Felicidades.

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Rachel Mattos 23 de janeiro de 2014 - 23:33

Sim, vai ter que se reinventar, senhora jornalista.
Aliás, foi isto que a gente passou toda a vida fazendo, não foi? Quando jovem, cheia de energia e vontade, esta geração que tem hoje em torno de 60/70 anos, teve jogo de cintura para trabalhar em veículos de comunicação que eram a imagem perfeita de tudo que muitos de nós, profissionais da época abominavamos. Mas a gente se reinventou todo dia, para publicar no dia seguinte (ou no mesmo dia, no caso do pessoal de rádio e tv). E, parece que acabamos vencendo. A gente se reinventou por décadas. Aprendeu as novas tecnologias, as novas filosofias, psicologias e otras cositas mas.
Agora vem o desafio maior: se reinventar aos mais de 60 anos de idade, num tempo em que ter 60 anos não é ser velho/a, numa sociedade que envelhece rapidamente. Mas que ainda não aprendeu que quem tem 60 anos não está no fim da vida.
Não é fácil ter que se reinventar todo dia numa sociedade que ainda não acordou para coisas básicas como qualidade de vida, dignidade, respeito humano, bem estar, sabedoria enfim.
Mas, esta jornalista, escritora, cronista, que tantos leitores soube conquistar, vai ter que se reinventar, como sempre o fez, com a experiência que adquiriu em décadas. E, pode ter certeza que vai se reinventar de uma forma que ela (você) própria vai se surpreender. É como uma missão – abrir trilhas e picadas a machado e facão – em tempos de envelhecimento de uma sociedade que tem um pé no mais avançado da tecnologia, o outro na idade média e a cabeça na idade da pedra.
Minha homenagem, meu abraço a esta jornalista brilhante que o Estado de Minas teve por tantas décadas – e a quem tanto deve – e Minas Gerais, tenho certeza, não perdeu, nem perderá tão cedo, pois os novos leitores (assim como os bons leitores de sempre) estão carentes de quem tem conteúdo a dar e análises, críticas bem embasadas a fazer, como Déa Januzzi tem feito ao longo de 4 décadas.

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lisa santana 22 de janeiro de 2014 - 00:05

Déa, querida, a vida é quase sempre dura. Principalmente se você, mulher num país que cultua a juventude, já passou dos 50. É, matamos um leão por dia.Às vezes o mesmo que só fingia desmaiar. Mas tbém é exatamente o que mata que pode nos fortalecer., não é mesmo? Tomar consciência já é grande passo, e isto você está fazendo. Aos poucos, você que é vigorosa na sensibilidade, na amorosidade, no ajuntamento de letras e palavras descobrirá, de novo, as “armas de Jorge” e como toda boa guerreira voltará ao campo de batalha. Cuide-se garota. Força, luz e coragem!
Bjos.

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Déa Januzzi 20 de janeiro de 2014 - 22:37

Maya, obrigada pela força e pelas palavras de Nenez, mas já que fizemos a revolução das mulheres, agora temos que fazer a dos velhos, porque o tsunami vem aí. Em 2050 serão mais velhos do que jovens, né minha amiga. E como diz a minha mestra e amiga Magui, “jardineira você já é. Jardina poesia, jardina corações,jardina alegria das pessoas e agora vai jardinar vc com fe e confiança na vida.”

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nenez 20 de janeiro de 2014 - 20:53

A vida continua Déa. Levanta e vai, porque muitos outros caminhos te esperam . E você é muito capaz para saber escolher o melhor e que te leva mais longe!

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