fbpx

A geração que ganhou 20 anos de ditadura

Por Maya Santana

General Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente-militar

General Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente-militar

Hoje, primeiro de abril, completa exatos 50 anos do golpe militar que mergulhou o Brasil em 21 anos de ditatura -1964/1985 -, criando regime encabeçado pelos generais que depuseram o presidente João Goulart, em 1964. Para a antropóloga Rosiska Darcy de Oliveira, “o regime de 64 não só foi corrupto como sequestrou, com o terror instalado nas escolas, a formação de crianças e jovens”.

Leia o artigo “Elogio da Democracia”:

Há meio século uma geração ganhou de presente de 20 anos uma ditadura que a marcaria pela vida inteira com a memória da prisão, da tortura e do exílio. Aos mortos, só agora uma comissão presta a homenagem póstuma da verdade.

O golpe de 64, a pretexto de combater a corrupção e a ameaça comunista que supostamente pairava sobre o país, acabou com a democracia. O regime que se instalou não só foi corrupto como sequestrou com o terror instalado nas escolas a formação de crianças e jovens. Tentou inutilmente calar os artistas.

Liberdade, “essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, é como o ar, cujo valor só se percebe quando se é sufocado. Descobrimos o valor da democracia quando ela foi abolida. Os anos de chumbo produziram um clamor nacional pelo restabelecimento do regime democrático e já lá vão 30 anos das jornadas em verde e amarelo das Diretas Já. De lá para cá, três perseguidos pela ditadura chegaram à Presidência. A estabilização da moeda, as políticas de inclusão social e a irrestrita liberdade de opinião mudaram o país para melhor.

Foram 21 anos de regime militar, de 1964 a 1985

Foram 21 anos de regime militar, de 1964 a 1985

Mas a democracia exige uma reinvenção permanente. Neste momento inspira cuidados. As ameaças que pesam sobre nós são a generalização da corrupção e a banalização da violência, que têm uma raiz comum: o abismo entre o apodrecimento do sistema político e as expectativas cada vez maiores e mais definidas da sociedade.

A noção clássica de democracia pressupõe eleições, pluralidade de partidos, alternância no governo, equilíbrio entre poderes. Nada disso nos falta. O paradoxo é a coexistência de eleições majoritárias legítimas com um sistema político desmoralizado e uma sociedade dinâmica que faz ouvir sua voz.

O ideal da democracia representativa não se encarna nos desmandos de parlamentares, o que a coloca em risco, vítima não de ideias revolucionárias que envelheceram já no século passado, e sim de surtos de violência que, a múltiplos pretextos, se alastram. A esfera política, que mediava e representava os interesses conflitantes da população junto ao Estado, se desfez no ácido de seu próprio cinismo. O escárnio face à população desqualificou-a como interlocutora. Se não, como explicar a violência que frequentemente explode e incendeia uma rua qualquer do Brasil?

A banalização da violência eclode desvinculada dos grandes números que não acusam uma crise social aguda. Há baixo desemprego, indicadores de aumento de renda e de bem-estar material nas camadas mais pobres, redução constante, ainda que lenta, das desigualdades de todo tipo, sociais, raciais, de gênero, regionais. Há liberdade de imprensa e de opinião.

A crise social não está nos grandes números, está no sentimento das pessoas. A democracia que se quer não se esgota em eleições. Uma parte significativa da população defende valores — repudia a corrupção, que associa justamente a tudo o que lhe falta, quer ser respeitada e ter a liberdade de escolher sua vida e vivê-la em paz — e não encontra onde ancorar essas aspirações. Há um voto órfão que ninguém sabe, nas próximas eleições, para onde irá. Se for. Clique aqui para ler mais.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

4 × um =