fbpx

Ao invés de soltar o espírito, preferem prender passarinho

Por Maya Santana

Passarinho, seja ele qual for, foi feito para viver livre na natureza

Passarinho, seja ele qual for, foi feito para viver livre na natureza

Elisa Santana –

Numa manhã, abri a Janela do meu quarto e quase morri ao deparar com um passarinho preso numa gaiola no apartamento do prédio ao lado. Primeiro que, pra mim, passarinho na gaiola é o fim. Segundo, que era um tico-tico , que nem é passarinho cantador. Só pia. Incansavelmente, ia de um lado para o outro naquele espaço exíguo, num movimento contínuo e cansativo, à procura de uma fresta que o levasse para longe dali. Era triste ficar olhando. Desesperador.

A visão, imediatamente, me levou lá para longe no tempo e no espaço. Pousei menina de 9 anos no corredor de entrada da minha casa, onde meu pai criava e colecionava, com orgulho, passarinhos de várias espécies e cores: Bicudos, Curiós, Pintassilgos, Azulões, canários Belgas, Patativas do Campo, Patativas do Brejo, Pássaros Frade…num sem fim de gaiolas.

Eu, menina, me encantava com a delicadeza e o canto de cada um. Era comum, pela manhã, meu pai, em meio àquela orquestra de cantos, postar-se diante deles e ficar tempos olhando e fazendo observações com amigos, que também não eram raros lá em casa para a apreciação dos bichinhos. Meu pai não admitia passarinho chinfrim na gaiola. Dizia que o melhor deles era o canto e completava “passarinho que só pia, colocar na gaiola pra quê?”

E era verdade. Só quem entende de passarinho compreenderia esta pergunta, numa época em que não era comum sofrer por causa de passarinho na gaiola. E em se tratando de canto, os Azulões, Curiós e Bicudos eram reis e raros. Meu pai tinha o maior xodó e cuidados. Sempre vigiava se estavam bem alimentados. Era severíssimo quanto ao bem estar das avezinhas presas. Era comum dar bronca nos meus irmãos, donos da obrigação de cuidar, por causa de um cocho de água esquecido sujo, pelo pouco alpiste nas vasilhas, pelo jiló esquecido de colocar. Até que chegou a minha vez de ser a tratadora deles.

Que tristeza a tarefa! Eu e meu irmão mais novo gastávamos um tempão, toda manhã, cuidando de mais de trinta gaiolas. Nós dois loucos para brincarmos, mas antes tínhamos que cumprir com as obrigações do dia. Levantávamos cedinho para varrer terreiro, buscar leite e tratar dos passarinhos. Era um horror para nós e para os passarinhos. Pobrezinhos, quase sempre os cochos d’água estavam com lodo por serem mal lavados, faltava comida para alguns deles e eu passei a nem achá-los tão lindos mais. A minha mãe é que vivia atrás de nós dizendo: tratem destes passarinhos direito, senão vocês vão ver com seu pai!

Não deu outra. Um dia, estávamos brincando quando ela chegou esbaforida falando – vocês deixaram um curió de seu pai morrer de fome, corram lá e coloquem comida porque quando ele vir, vai morrer de tristeza e acabar com vocês! Foi um alvoroço.

Mas Aquela não foi a primeira nem última vez que um passarinho morreria a míngua.. Aos poucos meu pai, diante de tanta perda, que ele não entendia, mas desconfiava, também foi perdendo o gosto e deu todos eles para vizinhos e amigos. Fui me acostumando, com tristeza, a ficar sem ouvir a cantoria deles logo pela manhã e, com o tempo, cresceu em mim o horror de ver passarinho preso na gaiola. Passei a achar injusto não estarem livres.

Foi essa ideia que naquela manhã me fez sentir pavor ao ver o tico-tico preso na gaiola. Pra quê? Nada justifica pegar um passarinho que é solto na natureza e prender. Quanto mais um Tico-tico. Ele não tem “qualidades”: não é vistoso, não canta bonito… E eu pensei comigo: tem gente, parece, com consciência ou não, que precisa espelhar sua dor. Ao invés de soltar a imaginação, o espírito, prefere prender passarinho.

Elisa Santana, 58, é professora de Teatro na PUC-Minas, autora do livro de poesias “Os Peixinhos do Meu Pano de Prato” e lançou em 2015 o seu primeiro CD, Soneto 88.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

4 × quatro =

6 Comentários

Avatar
--- 5 de agosto de 2019 - 16:55

porém, não devemos incluir espécies como periquitos e calopsitas, que são domésticas. durante anos foram selecionadas em suas caracteristicas fisicas e comportamento para o ambiente domestico, como caes, gatos, cavalos, galinhas… elas dependem de nós. um dia caiu uma calopsita no meu prédio. exausta, sedenta, faminta, com sintomas neurologicos por insolação. não consegui salvá-la. por isso, essas especies merecem nosso cuidado e amor. abandoná-las e o mesmo que matá-las, assim como o abandono de caes, gatos, etc.

Responder
Avatar
MaGrace Simão 31 de outubro de 2016 - 14:58

Que todas as pessoas pudessem ter a mesma consciência sua! Hoje, minha funcionária veio me dizer que os passarinhos estavam comendo as goiabas do pé lá no fundo de casa. Eu só comentei: Deixe que se alimentem à vontade. Não sei reconhecer pássaros, mas isso não me impede de sentir que todos eles e demais animais deveriam continuar em suas moradias originais.

Responder
Elza Cataldo
Elza Cataldo 23 de janeiro de 2016 - 13:41

Adorei, Lisa, vamos soltar a imaginação e o espírito e os passarinhos!

Responder
Avatar
bruno santana carvalho 23 de janeiro de 2016 - 12:52

Parabéns minha tia…….

Responder
Avatar
bruno santana carvalho 23 de janeiro de 2016 - 12:51

Lindo !!!!!!!!!!

Responder
Avatar
Ana 23 de janeiro de 2016 - 10:13

Belíssimo texto, Lisa. Parabéns!!!

Responder