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Médico escreve carta comovente agradecendo David Bowie

Por Maya Santana

O lendário artista britânico morreu de câncer, no dia 10 de janeiro

O lendário artista britânico morreu de câncer, aos 69 anos, no dia 10 de janeiro

Em um blog da prestigiosa revista médica inglesa “BMJ”, um médico de cuidados paliativos do NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico), Mark Taubert, publicou uma comovente carta a David Bowie, morto na semana passada.

“No início daquela semana conversei com uma paciente do hospital que estava chegando ao fim da vida. Falamos de sua morte e sua música, David, e isso nos levou a conversar sobre várias questões profundas que nem sempre são fáceis de se discutir com alguém que encara sua própria morte próxima. Na realidade, sua história virou para nós um gancho para falar muito abertamente da morte”, escreveu Mark Taubert.

No texto, Taubert agradece ao artista pelos anos 80 (e os momentos de alegria proporcionados pelas músicas de Bowie) e também pelo último álbum, “Black Star”. “Sou médico de cuidados paliativos, e o que você fez no período que antecedeu sua morte teve um efeito profundo sobre mim e muitas das pessoas com quem eu trabalho. “Blackstar” está cheio de referências, pistas e alusões”, escreveu. “O vídeo de “Lazarus” é muito profundo, e muitas das cenas terão significados diferentes para cada um de nós; para mim, o vídeo fala em lidar com o passado quando você se vê diante da morte inevitável.”

Taubert também comenta as últimas imagens de Bowie que foram divulgadas. “Foi dito que as fotos suas que emergiram alguns dias após sua morte teriam sido de suas últimas semanas de vida. Não sei se é correto, mas tenho certeza que muitos de nós adoraríamos ficar tão bem em um terno elegante quanto você estava naquelas fotos. Você estava lindo, como sempre, contestando diretamente a imagem assustadora com a qual as últimas semanas de vida muitas vezes são associadas.”

Ele lançou seu último álbum dois dias antes de morrer

Ele lançou seu último álbum dois dias antes de morrer

Querido David,

Naqueles dias frios e cinzentos de janeiro de 2016, enquanto íamos pouco a pouco absorvendo a notícia de sua morte, muitos de nós continuamos a trabalhar como sempre. No início daquela semana conversei com uma paciente do hospital que estava chegando ao fim da vida. Falamos de sua morte e sua música, David, e isso nos levou a conversar sobre várias questões profundas que nem sempre são fáceis de se discutir com alguém que encara sua própria morte próxima. Na realidade, sua história virou para nós um gancho para falar muito abertamente da morte, algo que muitos médicos e enfermeiros têm dificuldade em introduzir numa conversa. Mas, antes de ir mais fundo no bate-papo com a paciente, quero lhe dizer algumas coisas. Espero que você não ache isso um tédio.

Obrigado pelos anos 80, quando seu álbum “ChangesOneBowie” nos proporcionou horas de alegria, especialmente durante uma viagem de ida e volta de Darmstadt a Colônia. Acho que meus amigos e eu sempre vamos associar “Diamond Dogs”, “Rebel Rebel”, “China Girl” e “Golden Years” àquele momento particular de nossas vidas. É desnecessário dizer que nos divertimos demais em Colônia.

Obrigado por Berlim, especialmente no começo, quando suas canções nos mostraram um pouco do pano de fundo musical do que estava acontecendo na Alemanha Oriental e Ocidental. Ainda tenho “Helden” em vinil e o ouvi novamente quando ouvi a notícia de sua morte (e você vai gostar de saber que “Helden” também fará parte do nosso próximo evento Analogue Music Club, no pub Pilot, em Penarth, este mês). Algumas pessoas podem associar David Hasselhoff à queda do Muro de Berlim e à reunificação da Alemanha, mas muitos alemães provavelmente gostariam que o tempo tivesse pegado um cigarro e o enfiado na boca de Hasselhoff naquela época, em vez de ouvir “I’ve been looking for freedom” interminavelmente no rádio. Para mim, a trilha sonora daquele momento na nossa história é “Heroes”.

Obrigado também em nome do meu amigo Ifan, que foi a um de seus shows em Cardiff. A irmã dele, Haf, estava na porta naquela noite, recebendo os ingressos, e ouvi um boato de que Ifan conseguiu entrar de graça (ele pede desculpas!). Você acenou para ele e o amigo dele do palco. Isso ficou na memória de Ifan para sempre.

https://youtu.be/kszLwBaC4Sw

Obrigado por “Lazarus” e “Blackstar”. Sou médico de cuidados paliativos, e o que você fez no período que antecedeu sua morte teve um efeito profundo sobre mim e muitas das pessoas com quem eu trabalho. “Blackstar” está cheio de referências, pistas e alusões. Como sempre, você não facilitou muito a interpretação, mas isso talvez não seja o principal. Sempre ouvi falar de como você foi meticuloso em vida. Para mim, o fato de sua morte tranquila em casa ter coincidido tão estreitamente com o lançamento do álbum, com sua mensagem de despedida, não deve ter sido coincidência. Tudo isso foi planejado cuidadosamente para ser uma obra de arte tendo a morte como tema. O vídeo de “Lazarus” é muito profundo, e muitas das cenas terão significados diferentes para cada um de nós; para mim, o vídeo fala em lidar com o passado quando você se vê diante da morte inevitável.

Sua morte em casa. Muitas pessoas com quem falo na minha vida profissional pensam que a morte acontece sobretudo em hospitais, em ambientes muito clínicos, mas eu suponho que você tenha optado por morrer em casa e tenha planejado isso detalhadamente. Esse é um dos objetivos nossos na medicina paliativa, e o fato de você tê-lo realizado talvez leve outras pessoas a enxergarem isso como uma opção que gostariam de realizar. Foi dito que as fotos suas que emergiram alguns dias após sua morte teriam sido de suas últimas semanas de vida. Não sei se é correto, mas tenho certeza que muitos de nós adoraríamos ficar tão bem em um terno elegante quanto você estava naquelas fotos. Você estava lindo, como sempre, contestando diretamente a imagem assustadora com a qual as últimas semanas de vida muitas vezes são associadas. Clique aqui para ler mais. (Fonte: Folha de São Paulo)

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