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Nossos maiores amores talvez sejam aqueles que inventamos

Por Maya Santana

O jornalista e contista mineiro Murilo Rubião (1916-1991)

Jornalista e contista mineiro Murilo Rubião (1916-1991): amor inventado

Elisa Santana –

Tenho amigos de todas as idades. Apesar de ultimamente andar encontrando amizades antigas, acho que não tem tempo para se conhecer e deixar novas pessoas entrarem na vida da gente. Foi com uma nova e bem-vinda amizade que tive um encontro delicioso. Num daqueles momentos de luxo e descanso das labutas cotidianas, de frente de um saborosíssimo espumante, demos de fazer considerações sobre ideias e sobre a vida.

As conversas acabaram girando em torno de nós mesmas, das nossas experiências vividas… E foi neste rumo de prosa que passamos a falar de amores. Particularmente dos platônicos e dos inventados. Enquanto ela me contava os dela, me lembrei que o meu primeiro amor platônico aconteceu aos 8 anos, quando, voltando da escola, inventei de mudar meu percurso para casa.

Passei pela “Rua de Trás” e me deparei com um menino lindo, sentado na porta de casa, com um cocar feito de penas de galinha e palha de bananeira na cabeça. Usava uma faquinha para fazer um arco e flecha, que levaria para a escola no outro dia, “Dia do Índio”. Fiquei ali parada, quieta, sem que ele ao menos me notasse, sentindo uma coisa muito grande no coração para uma menina daquela idade. Eu me lembro que passei o resto do ano “errando de rua” só para ver se via aquele amor, que nunca soube o quanto o meu dia se iluminava quando meus olhos de menina caiam sobre ele.

Amor platônico eu tive vários, afinal o tempo de escola é cheio deles. Até hoje, há homens que admiro e admirei, por quem nutro uma espécie de amor platônico. Aposto que junto comigo muitas outras mulheres sentem o mesmo. Elenco alguns, vivos: Chico Buarque, Sebastião Salgado… e outros que, infelizmente, já se foram: Rubem Alves, Saramago, Ariano Suassuna, Eduardo Galeano… Falando desse último, quase saímos aos tapas para ver a quem ele pertencia mais.

Ela ganhou. Contou-me que, dirigindo um documentário com a participação dele, pedia que se posicionasse de várias formas em frente às câmeras, ao que prontamente ele atendia, sem reclamar de nada. Ao final, deu à ela um exemplar de um dos seus livros. Escreveu na dedicatória: “Para Elza, do seu soldado, Eduardo Galeano”. Quase morri de inveja.

Mas amor inventado, inventado mesmo, eu até agora tive dois. O primeiro foi o escritor argentino Jorge Luiz Borges. Na faculdade, em um dos meus estudos literários, conheci o “realismo fantástico” através da literatura Borgeana. Foi aí que me apaixonei. E quando me dei conta, num deleite “trânsico”, havia lido quase toda a sua obra.

Já me vi morta de ciúmes de Maria Kodama, a secretária que tinha o costume de ler para ele – Borges foi ficando cego ao longo da vida – e que mais tarde tornou-se sua mulher. No meu amor inventado, passávamos, eu e ele, longas tardes andando a esmo pelas ruas de Buenos Aires. Eu lia para ele contos das 1001 noites, que sabia ter sido a inspiração da sua literatura. Vivia enlevada. Criei um mundo à parte. Não sei como o amor acabou. Um dia, me dei conta que não pensava mais em Borges como meu amor e sim como um dos maiores escritores latino-americano do realismo mágico.

Meu segundo amor inventado eu quase toquei: foi o escritor Murilo Rubião. Conheci-o por causa da adaptação de uma de suas fantásticas obras para o teatro. Tivemos alguns encontros, com conversas inesquecíveis. Eu me lembro que ele um dia perguntou baixinho: Você já leu o conto “Elisa”? Fiquei sem graça ao ter que dizer não. Prometi que leria e que nos encontraríamos para trocar “impressões”. Uma conversa que nunca houve.

Murilo, aos 74 anos, estava gravemente doente. Depois do nosso último encontro, passou a me evitar e, pouco depois, faleceu. Quando soube, me vesti de preto e fui ao velório. Ali, me dei conta do sentimento que nutria por ele. Fiquei olhando no caixão aquele homem que, morto, remoçara horrores devido aos líquidos retidos no corpo. Eu me deparei com um “moço novo”, mas que jazia sem vida.

Fiquei com a impressão de que nasci tarde. Sozinha, me recolhi atrás de uma coroa de flores e chorei convulsivamente. Saí de lá com a sensação de ter ficado viúva, sem sequer ter me casado.

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4 Comentários

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Ana 9 de fevereiro de 2016 - 11:30

Lisa, vc é demais!

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Lisa Santana 9 de fevereiro de 2016 - 20:13

Ei, querida Ana. Somos todos. Bjs, bjs

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Elza Cataldo
Elza Cataldo 9 de fevereiro de 2016 - 08:33

Adorei, Lisa, o encontro em que evocamos nossos amores platônicos e não platônicos. E adorei também sua narrativa. Obrigada pela amizade recente, mas já tão essencial.

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Lisa Santana 9 de fevereiro de 2016 - 20:15

Sou eu quem agradeço, Elza. Adoro sua alegria, tão próxima. Bjs.

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