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Não hospitalizem a morte dos nossos velhos, por favor

Por Maya Santana
não está passando da hora de pensar sobre um País que terá muitos velhos?

não está passando da hora de pensar sobre um País que terá muitos velhos?

Déa Januzzi

Ela sempre gostou de dormir. Nunca teve problemas de insônia ou de usar artifícios para pegar no sono. Dormia a noite inteira, mas também nunca se lembrou dos sonhos no dia seguinte, por problemas do inconsciente que se negava a relembrar visitas a outros mundos, viagens espirituais a lugares desconhecidos. Já apelou até para o momento em que sonhando pensava em anotar em um caderno em branco ao lado da cama, bem acompanhado por uma caneta.

Ela fez psicanálise para filtrar sonhos, mas o pesadelo começou há sete anos, quando no meio da madrugada o telefone tocou para avisar sobre a morte da mãe, sozinha, em um leito de hospital, entubada. Hospitalizada por pouca coisa, alguns vômitos que ela não conseguia mais conter aos 91 anos, a mãe pediu que não a deixassem morrer sozinha, como se a morte chegasse na companhia de alguém.

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Durante muito tempo, ela foi despertada de madrugada, na mesma hora do telefonema. Ela permanecia acordada lembrando-se da tempestade que lavou todo o cemitério por dias. Será que era a mãe chorando por ter morrido sozinha no hospital? Sem dar a mão a uma das filhas, sem ser abraçada por um instante antes da morte, por não ter rezado o Terço da Libertação como sempre gostou, antes de dormir para sempre?A filha não sabe, mas ficou prisioneira das lembranças e dos desejos não atendidos da mãe.

Ela não sabe, mas como repórter, bem antes da morte da mãe, fez entrevistas sobre a infeliz ideia de hospitalizar a morte de pessoas velhas. Acompanhou os primeiros movimentos sobre cuidados paliativos, conheceu médicos humanos que não apoiavam os protocolos gelados dos hospitais, sem carinho ou a possibilidade de dar um gole de água para quem estava morrendo de sede. Viu as primeiras iniciativas sobre o Testamento Vital surgirem e até divulgou pessoas que já decretavam, em cartório, como queriam envelhecer e morrer, sem medidas extremas, ressuscitação ou tratamentos invasivos e desnecessários. Viu, com satisfação, o Conselho Federal de Medicina apoiar o Testamento Vital, e aprovar a decisão do paciente e de seus familiares sobre um fim de vida menos torturante.

Depois que a mãe morreu, ela acordava de madrugada, na mesma hora do telefonema, pensando que não conseguiu cumprir outro desejo dela – o de ser cremada em vez de sepultada. As irmãs foram contra, disseram que a cremação era contra a crença católica da mãe. Mas não era desejo dela? A mãe queria que jogassem as suas cinzas numa certa árvore do parque, onde caminhou com as amigas durante muito tempo.

A mãe foi sepultada ao contrário do desejo de ser cremada. Ela hoje pensa que deveria ter brigado mais, feito cumprir o desejo da mãe, mas não deu tempo para programar nada, porque a morte não espera planejamento. Nem hora para chegar. Exausta pelas mortes da família, ela não teve pulso como antes nem gritou, esperneou ou deu a última palavra como sempre fizera. Estava sem forças, sem coragem, atitudes que fugiram de sua vida depois da morte da mãe. Já sem pai, sem o irmão Luiz Carlos que morreu seis meses antes e que foi sepultado no Dia das Mães, ela estava despedaçada, como se tivessem arrancado, com um boticão, as suas raízes.

Ela estava sozinha para decidir assunto tão importante e polêmico. Lembra-se muito bem de ter pedido à equipe médica do hospital para não entubar a mãe. Sem coração e formado por frios protocolos médicos que nada têm a ver com o Brasil e os seus filhos, a médica disse à queima-roupa: “Você já viu alguém agonizando?” Ela, então, silenciou porque não tinha palavras para contradizer pessoas que se acham deuses da vida e da morte. Traduzindo, ela estava dizendo que a filha seria responsável pela morte em agonia da mãe.

Sem palavras para responder alguém que pensa assim e não pode ajudar para que a morte seja mais suave e menos cruel do que num hospital, onde a família só tem acesso a alguns minutos, e mesmo assim com revezamento entre filhos.

Ok. Não dá mais para mudar o que não pode ser mudado. Mas não está passando da hora de pensar sobre um País que terá muitos velhos? De mudar esse cenário? “Com base nas projeções dos resultados do Censo 2000, o Brasil será o sexto país mais envelhecido do mundo em 2025”, informa Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e autora do livro “Os Novos Idosos Brasileiros”.

No Brasil de hoje, são considerados idosos jovens aqueles que têm entre 60 e 70 anos de idade;medianamente idosos entre 70 e 80; e muito idosos acima de 80. “A população com mais de 80 anos cresce mais que o conjunto geral de idosos”.

Não tive o privilégio de registrar os desejos de minha mãe em cartório. Ela morreu com 91 anos, depois de ter cinco filhos que não puderam cumprir o que ela queria. Aos 63, já disse verbalmente ao filho e amigos que não quer medidas torturantes quando não houver mais chance de vida. Ela vai providenciar o seu Testamento Vital e torcer para que os médicos que escolheu para cuidarem da sua saúde em vida continuem humanos.

Ela nunca quis médicos que nem olham para o paciente, que fazem consultas rápidas, meteóricas e entopem os pacientes de remédios. Da sua parte escolheu um cardiologista que além de ser médico é músico, toca flauta transversal e escreve. É desse tipo de médico que os velhos do Brasil precisam.

Mas ela ainda acorda no meio da noite, em pânico – e pede: “Não hospitalizem a morte dos velhos, por favor.”

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5 Comentários

Bethania Barros 16 de fevereiro de 2016 - 20:43

Tenho pensado muito na hospitalização da velhice e seu texto nos instiga a refletir sobre este assunto tão atual e polêmico. Um livro que gostei bastante sobre o assunto foi “Mortais” de Atul Gwande.

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nenez rick 15 de fevereiro de 2016 - 15:49

Muito bom! Faz pensar…

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ana cecilia 15 de fevereiro de 2016 - 00:06

Dea querida, acabei de ler o seu belo texto, que tocou profundamente o meu coração. Como sempre, tudo que você escreve revela a luz da sua inteligência, da sua clareza, da sua imensa humanidade e capacidade de compaixão.
Quando meu pai estava morrendo, quando já não havia mais nada para fazer, minhas irmãs e eu decidimos proporcionar a ele uma passagem tranquila, no ambiente que ele tanto amava, naquela casa na Pampulha que ele construiu com as próprias mãos e que você conheceu. A ideia de submetê-lo aos procedimentos invasivos e, àquela altura, também inúteis, que são oferecidos numa UTI, em um hospital, era impensável. Tivemos a sorte de contar com o apoio de um medico extremamente sensível e ético, que esteve o tempo todo ao nosso lado.
Infelizmente uma decisão assim não é para todos. Ela só se aplica àqueles que, deixando de lado as próprias defesas, conseguem tolerar a dor inominável que é ver partir aqueles que amamos e, assim, tornam-se capazes de dar a eles o carinho da presença que eles precisam no último momento.
Com o carinho e admiração da sua velha amiga,
Ana

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Marisa Sanabria 14 de fevereiro de 2016 - 20:23

Querida adorei teu texto, como você não estive perto da minha mãe, tinha acabado de sair do CTI e ela morreu sem minha presença, ma pude fazer todas suas outras vontades e isso me dá hoje mais conforto, enfim acredito que em algum lugar nossas mães escutam nossas reflexões.

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Cássia Lisieux Costa Figueiredo 14 de fevereiro de 2016 - 14:42

Excelente! Aprendi muito lendo o texto. Não conhecia a possibilidade de fazer um testamento vital. Gostaria de ler mais sobre o que são os tratamentos paliativos.

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