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Os efeitos subversivos da aposentadoria

Por Maya Santana

Ana Cecília, autora desse delicioso texto, é psicanalista e escritora

Ana Cecília, autora desse delicioso texto, é psicanalista e escritora

Ana Cecília Carvalho*

Nunca imaginei que um dia eu quisesse me aposentar. Ao longo da minha vida acadêmica, toda vez que um colega se aposentava, eu ficava sem entender de onde vinha a alegria enorme que imediatamente tomava conta do seu rosto, ao ir embora da universidade. Durante muito tempo, acreditei que nada jamais poderia substituir o prazer do convívio com os alunos. Não podia imaginar que houvesse algo melhor do que ter o privilégio de acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, tanto daqueles em que logo se tornava visível o desejo de saber, como daqueles que, mais obstinados e difíceis, resistiam ao conhecimento. Era quase impossível imaginar o que aconteceria se eu perdesse aquela fonte inesgotável de renovação e crescimento pessoal, que é uma sala de aula. Aposentar, para mim, significava desaparecer da memória de todos, perder a importância. Em outras palavras, era algo que poderia ser pior do que morrer.

A decisão de assinar o termo da minha aposentadoria veio junto com uma série de mudanças na minha vida pessoal, a mais importante delas sendo a necessidade cada vez maior de estar livre para passar, todos os anos, um tempo fora do Brasil, na cidade de Austin, Texas, nos Estados Unidos. O problema na minha lista de atividades e compromissos é que o envolvimento com os semestres acadêmicos figurava em primeiro lugar no quesito “impedimentos para viagem de longa duração”. Já a minha atividade no consultório, como psicanalista, essa permitia um esquema muito mais flexível de trabalho.

No início de 2009, tendo cumprido as exigências formais para a aposentadoria (idade e tempo de contribuição), eu tinha, então, duas opções: restringir o tempo das minhas viagens ao tempo da duração das férias (o que eu já havia tentado, no início dessas viagens), ou me aposentar da universidade e ficar livre para viajar.

A decisão para me aposentar começou a ser tomada durante uma conversa com meu marido, ao pé da lareira, numa casa de amigos queridos em Potomac, no Estado de Maryland, perto de Washington, diante de uma bandeja de crostini e uma taça de kirroyal. Semanas depois, de volta a Austin, após ter ido a um show inesquecível de blues no Antone’s, eu estava pronta para assinar o termo da aposentadoria assim que eu chegasse no Brasil.

O que mudou na minha vida, com essa decisão? Tudo. Para melhor. Agora eu sabia de onde vinha a alegria estampada no rosto dos meus colegas quando deixavam a atividade acadêmica. Ela vinha do tempo livre para fazerem o que bem entendessem enquanto ainda tinham saúde e disposição.

Contudo, antes de começar a saborear essa liberdade, tive de enfrentar alguns fantasmas: entre eles, o da culpa, que aparecia sempre de manhã, assim que eu me levantava (não mais às 6 ou 7 horas, como sempre fiz durante anos, mas, digamos, um pouco depois das 8). Vendo que eu não me levantava correndo para me aprontar e nem saía afobada para dirigir até o campus, e que, em vez disso, folheava calmamente o jornal enquanto tomava o meu café da manhã, a culpa passou a me perseguir: “Como você tem coragem de ficar assim, na maior calma, tomando o seu café, em vez de fazer alguma coisa útil? Comece a escrever um artigo, faça uma resenha, escreva um livro!”

Pior era o dia do pagamento da aposentadoria – apesar do valor modesto – quando, na saída do banco, a voz da culpa vociferava no meu ouvido: “Não se envergonha de receber pagamento para não fazer nada?!”

A cada um desses ataques, eu procurava me defender lembrando a mim mesma que eu não era uma delinquente e que, na verdade, tinha trabalhado e cumprido todas as minhas obrigações durante mais de trinta anos. Usei até um argumento pesado: falei para esse superego de voz tonitroante que, no Brasil, nenhum prisioneiro jamais fica 30 anos na prisão cumprindo pena, diferente do que acontece com os trabalhadores, obrigados a trabalhar, muitas vezes, por muito mais tempo.

Esse período de auto-acusações felizmente passou. E, para dizer a verdade, passou depressa, dando lugar a dias de leveza e alegria. Comecei a me sentir livre e, o mais importante, merecedora dessa liberdade. Finalmente podia fazer o que bem entendesse, fazer meus próprios horários, ler e escrever o que quisesse, sem me preocupar com prazos, expectativas, demandas.

A descoberta do que estava por vir me pegou de surpresa. Um dia meu marido precisou de uma referência bibliográfica perdida nas estantes da nossa biblioteca. Foi quando me dei conta de que, na verdade, o que se perdera não era um livro de psicanálise, mas o meu interesse por ela. Percebi que há meses eu nem entrava naquela sala, antes apelidada pelos meus filhos como “Central Ana de Produções”. Ele olhou para mim e, conhecedor profundo da minha alma, viu o olhar de tédio com que localizei o livro na estante. Discreto como sempre, ele não disse nada na hora.

Só mais tarde, enquanto eu folheava uma revista gastronômica, ele trouxe o assunto à tona, mas de um modo que, entre respeitoso e instigante, me fez ver que eu estava livre também para encontrar uma outra área de interesse. Ele falou: “Analisar e cozinhar, é só começar.”

Tive de admitir que ele tocou em um ponto importante com essa observação. Mas mesmo assim reagi, meio brava, projetando nele (puro cacoete de psicanalista) as minhas autocensuras: “O que você quer dizer com isso? Será que não tenho o direito de ficar à toa?”

Recusando a posição de censor que eu, por um minuto, o havia obrigado a assumir, ele respondeu: “Quem disse que gostar de cozinhar é o mesmo que ficar à toa? Não é. Eu adoraria cozinhar, se tivesse a sua capacidade para criar o que você cria na cozinha. Estou apenas dizendo que talvez você deva olhar com mais consideração para uma atividade que sempre lhe deu muito prazer.”

Antes que me viesse alguma coisa na cabeça para responder àquele argumento misto de elogio e desafio, ele perguntou, resolvendo o meu problema: “Será que sobrou algum pedaço daquela torta de maçã que você fez ontem?”
Bem, querido leitor, ele tinha razão. A aposentadoria permite que se tome distância em relação a uma identidade profissional construída por anos a fio. Ao escrever este texto, subverto a minha, para mostrar que o caminho da psicologia para a cozinha não é um retrocesso, mas um ato de amor.

*Ana Cecília Carvalho é autora, entre outros, de “O livro neurótico de receitas” (Editora Ophicina de Arte&Prosa), no qual essa crônica foi publicada originalmente, entre outros.

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21 Comentários

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Catarina Gonçalves 16 de julho de 2016 - 01:30

Não quero que meu texto seja publicado.
Obrigada

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ANA CECÍLIA NOGUEIRA 14 de julho de 2016 - 08:18

Oi xará. Adorei seu texto!!! Trabalhei como secretária de escola por 20 anos e fiz muitas aposentadorias. Acompanhei a dor e alegria daquelas professoras e funcionários todos. Quando chegou a minha vez, eu já não era mais secretaria, mas professora. Aposentei por tempo e sem a idade, perdendo valor. E, exatamente como planejei, continuei na educação após passar num concurso, agora como Diretora de uma escola de Educação Infantil. O salário na educação realmente não permite grandes realizações. Importante é a sua mensagem que aposentadoria não significa mente improdutiva, ou “inativa” como somos chamados.

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Jacqueline Niehues 12 de julho de 2016 - 23:53

Adorei o texto!! Reflexão super válida, já que estou muito próxima de minha decisão já tomada, me aposentar!! Difícil sim, mas importante!! Novo momento, novas histórias, mais tempo pra cuidarmos de nós mesmas e poder realizar o que for mais importante para o momento!! Adorei poder refletir , lendo tantas histórias parecidas!!

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Silvia Azevedo 12 de julho de 2016 - 19:15

Adoro ler sobre o assunto, mesmo depois de dois anos de aposentada, ainda estou me acostumando com a mudança de vida. É tudo muito novo e diferente para mim. Senti um estranhamento estando mais em casa. Ás vezes bate uma saudade do meu trabalho, daquela rotina louca. Eu tinha muitos medos, mas resolvi enfrentá-los. Decidir se aposentar não é fácil, porque a gente sempre perde e não só financeiramente. Percebi que a gente fica um pouco invisível, você não faz mais parte daquele grupo, ser aposentado não tem glamour, não tem o status daquele profissional que você foi. Tudo muda. Ah, mas é tão bom ser dona do seu próprio tempo, ter calma para fazer as coisas, é uma delicia e a gente merece, depois de mais de trinta anos de labuta. Estou encantada pela ideia de poder fazer o que quiser, cheia de projetos, porque existe vida depois da aposentadoria sim!

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Lisa Santana 12 de julho de 2016 - 16:41

Adorei o texto pelo simples fato de que ele me direciona para frase: “nada acaba aqui”. Em outros tempos, aposentadoria seria sinônimo de fim da linha. Hoje, só sinal de que outra (s) pode(m) estar começando. E se não, nestes tempos loucos, ficar à toa também é bom…rs… Viva o tempo livre para o que der e vier!!!

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Marina r. alonso 12 de julho de 2016 - 11:46

Excelente texto, já passei do tempo de me aposentar justamente por todos os receios que passam na nossa cabeça. Porém agora tomei a decisão e seu argumentos me ajudou ….. obrigado vou curtir as coisas que eu gosto de fazer e não tenho tempo

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Claudete 12 de julho de 2016 - 08:15

Bem, adorei a publicação, estou com ,30 anos de trabalho também, e hoje já estou pensando em parar e fazer as coisas que deixei de fazer, por que não tinha tempo, meu tempo foi estudar , fazer uma carreira, cuidar dos filhos. Hoje aos 50 anos vou começar novamente. Porém de uma forma diferente muita mais prazerosa.

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sonia regina patti bellucci 12 de julho de 2016 - 07:34

Bom texto! Acho justo depois de tantos anos de trabalho possamos requerer aposentadoria, aliás mais que justo! Livres de horários, nós os fazemos, podemos dedicar mais tempo às pessoas que amamos, passeios, viagens, novas amizades por que não? leitura, até o luxo da preguiça, agora não … + tarde!
O prazer de poder testar novos pratos, errar, aceitar, ser elogiada (ou não) faz parte! Afinal a maior parte de sua vida você trabalhou, com regras, horários! O tempo agora é de reconstruir! liberdade!

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Denise Fernandes Martins 12 de julho de 2016 - 06:49

Texto lindo, sensível , que retrata com delicadeza esse momento pré-aposentadoria pelo qual todos nós passamos. Parabéns !
Também estou em dúvida, pois já poderia ter me aposentado , mas sempre fica aquela “culpa” pois achamos que ainda podemos ficar mais…
Esse texto me faz refletir se não está na hora de seguir outros caminhos…

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Sofia Campos 22 de fevereiro de 2016 - 22:48

Faz tempo que tenho o desejo, não de aposento-adoria, mas de alforria. Ou seja, ser dona do meu próprio tempo. Já completei o tempo de contribuição, mas não tenho idade. No entanto, já estou aprendendo alguns dos fazeres que irão compor o livre-fazer: fotografia e jardinagem. Estudando, sem pressa, sem prova, sem prazos. Culpa? Sei não. Acho que se sentir, vai passar rapidinho.
Fazer nada é muita coisa! Que bom que você descobriu esse prazer!

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dirce maria da silva 21 de fevereiro de 2016 - 16:28

Amei esse texto!

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Cristiane Bassi 21 de fevereiro de 2016 - 15:15

Que texto maravilhoso! Sou Psicóloga e amo cozinhar, estou num período sabático e me aposentarei em outubro próximo. Seu texto veio como um presente para mim que passei por todas as fases citadas e hoje só quero poder ter saúde para desfrutar dos meus sonhos, adiados por tantos anos, reduzindo o peso de tantos anos de cobranças e culpas. Obrigada, grande beijo e felicidades!

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Leila ferreira 21 de fevereiro de 2016 - 05:23

Otimo texto. Sair do mundo velho pra entrar em novos mundos!!!

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Nonata Torres 20 de fevereiro de 2016 - 20:12

Estou prestes a me aposentar e não vejo a hora de poder dormir sem preocupação de acordar cedo e cumprir horário, de fazer as comidas gostosas que adoro e arrumar as malas para viajar sem data marcada para voltar.
Abraços.

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Rosa Maria Junqueira Scicchitano 20 de fevereiro de 2016 - 10:26

Que lindo!! e me faz pensar… me ajuda a pensar…Em 2017 eu me aposento (por idade)… Esse ano comecei a dar aula na Universidade, já com olhar de saudade e de despedida… Vou continuar a trabalhar no Consultório (sou psicopedagoga), ter mais tempo para ler, pintar minhas porcelanas, viajar, encontrar os amigos… Mas mesmo assim… sinto que ainda tenho um sentimento de perda… Vou pensar… abraços

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margarete 19 de fevereiro de 2016 - 21:37

Aposentei a um mês e nunca imaginei que seria tão difícil tomar esta decisão.O texto me ajudou muito a entender meus sentimentos e tranquilizou me pois é inevitável sentir uma pontinha de culpa….

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Cida Perez 19 de fevereiro de 2016 - 21:24

Também gostei muito do texto. Estou quase me aposentando e penso exatamente assim, que devo me aposentar enquanto estou com saúde para curtir a liberdade do tempo.

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Maria José 19 de fevereiro de 2016 - 20:00

Ana Cecília,

Adorei o texto, muito sensível e verdadeiro.
Estou passando por essa fase também e me identifiquei muito com o seu texto.

Obrigada.

Bjos

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maria aparecida grasso 19 de fevereiro de 2016 - 17:19

Amei o texto! Li e reli, me deliciando com suas palavras e esperando ansiosamente para que chegue o final do ano e aí, eu também possa me aposentar, para começar a andar sem pressa….

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Maria Marta 19 de fevereiro de 2016 - 16:45

Querida Ana Cecília…

Ameiiiiiiiiiii seu texto. Parece que você escreveu sentada no sofá da minha sala de estar. Estou passando por esse processo de acusação por estar aposentada e começar a fazer bolos e tortas. Obrigada de coração.

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Fernanda Moretzsohn 19 de fevereiro de 2016 - 16:43

Excelente texto. Realmente essa culpa pie não
estar “produzindo” était torturante. A pergunta típica que te fazem qdo vc diz que vai se aposentar é ” e daí , o que vc vai fazer”- eu pretendo fazer uma malinha enxuta e cair no mundo!

Parabéns pelo seu blog! Textos de alto nível…

Bj

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