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A rotina de Yara, 90, na Casa da Zita: “bom humor é essencial”

Por Maya Santana

A Casa da Zita abriga principalmente ex-pregadas domésticas

Alegria na Casa da Zita, que abriga principalmente ex-pregadas domésticas

Déa Januzzi

Ela adora andar. É praticamente uma andarilha. Anda para fazer compras, para ir ao restaurante, na casa de amigos. Anda principalmente para buscar inspiração. Quando tudo parece envolto em brumas, ela anda, dá voltas no quarteirão para clarear o coração e os pensamentos. Sempre foi assim. Quando estava trabalhando na redação de um jornal mineiro, sentia a ordem expressa: “Vá andar”. E lá ia, em busca de algo que estava faltando naquele momento.
Andava, andava e quando voltava, o texto nascia, crescia e tomava rumo na página em branco do computador. Foi assim que ela pensou nos verdadeiros andarilhos das estradas e propôs segui-los para uma reportagem. Encontrou vários deles, com a casca grossa da pele surrada pelo sol, os pés grossos de andar, dormir e acordar ao relento, com sacos de farrapos. A reportagem saiu com o título “Viagem sem volta”.

Ela não parou de andar, mesmo depois de largar o trabalho formal. Anda até hoje. Certo dia, estava andando lá pelos lados da Igreja da Boa Viagem, quando se deparou com uma casa, onde se lia na placa: Casa da Zita, obra beneficiente. Tocou a campanhia – e pediu para conhecer a instituição de longa permanência, que abriga ex- empregadas domésticas. Ficou sabendo que Santa Zita é a padroeira das domésticas. E qual não foi a sua surpresa ao encontrar na casa Yara Coelho de Sant’Anna, de 90 anos, de tradicional família mineira.

Há 11 anos, quando acabou de completar 79, sem filhos, ela tomou a decisão de procurar um lugar para morar. Achou e se adaptou perfeitamente na Casa da Zita, obra beneficiente da Igreja da Boa Viagem. Ao contrário do que se pode imaginar, Yara nunca foi empregada doméstica. Tem recursos próprios, fundou, em Teófilo Otoni, Região Nordeste de Minas, a “Escola Pequeno Príncipe”, que hoje é dirigida por seus sobrinhos netos. E que vai muito bem, por sinal, pois é um dos estabelecimentos educacionais mais respeitados da cidade em que viveu por muitos anos. Hoje, a escola tem 1.000 alunos e passou da educação infantil à quarta-série até o pré-vestibular.

Yara não tem nenhuma dificuldade financeira e precisou enfrentar o protesto de sua família, por ter tomado atitude tão radical. Ex-professora de matemática, Yara é uma intelectual, mas não queria dar trabalho para ninguém no entardecer da vida. “Acho que as pessoas têm preconceito contra esse tipo de moradia, mas eu não. Gosto de estar aqui”.

Dá para entender a postura da mestra Yara. Quem vai visitá-la na Casa da Zita é muito bem recebido por todos. Com 28 moradoras, das quais 20 são ex-empregadas domésticas e oito pensionistas, o lar está instalado no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de BH. Yara tem um quarto confortável, com televisão, telefone fixo e celular, computador, tablet, livros, quadros com fotos de toda a família, uma pequena cozinha com pia, geladeira e microondas. Um banheiro pequeno, mas agradável. Equipado com barras de segurança para a hora do banho, tapete antiderrapante e um assento mais alto para o vaso sanitário que permite o uso sem o incômodo de fazer muito esforço para usá-lo, no caso de doenças como artrose.

No quarto, ela tem tudo de que precisa, inclusive, alimentos complementares, caso sentir fome à noite, quando todos dormem. Mas a rotina de Yara é a mesma de todas. Levanta às 7h, para estar pronta e tomar o café da manhã junto com as outras, às 7h15m. Olha que ela gosta da comida. Tem café, leite e pão à vontade. Ela complementa com queijos e frutas. O almoço é às 11h30m, com arroz, feijão, carne, ovo, salada, um legume e sobremesa. “É a alimentação que sempre tive na minha casa, não acho inferior a nenhuma outra”, diz ela, com alegria e bom humor.

Depois do almoço, ela volta para o seu aposento, onde descansa, faz crochê, lê, faz palavras cruzadas, consulta os e-mails, responde às ligações telefônicas. Gosta muito de jogar no tablet e atualmente está terminando um livro sobre Dom Hélder Câmara, já falecido, o arcebispo de Olinda e Recife que fez uma verdadeira revolução na Igreja Católica.

Se Yara sente solidão? Não dá tempo, pois adora fazer versos e paródias e ajudar no que for preciso no lar de idosos. Todos os dias, ela reserva 20 minutos para ler trechos da Bíblia para uma das moradoras da instituição que ficou cega. A ex-doméstica Rosa, de 102 anos, ficou cega e um dia se lamentou com Yara que sentia muita falta de ler a Bíblia. Yara se emocionou e não deixa de fazer a leitura sagrada para a companheira.

Os irmãos de Yara também não a deixam sozinha. “Sempre vem um deles para me buscar e passear, inclusive, passo todo fim de semana na casa do Nestor Sant’Anna, o irmão mais novo, de 70 anos. É muito bom, porque jogo baralho, como muito bem, faço caminhadas e a gente brinca e ri muito, porque bom humor é essencial, você não acha?”

Yara faz questão de dizer que se dá bem com todas as moradoras da casa e com as coordenadoras, que fazem parte da congregação das Irmãs Gracianas. Tanto que a família dela, os amigos, as moradoras e as religiosas se juntaram no dia 21 março de 2015 para fazer uma festa-surpresa, quando ela completou 90 anos. “Foi lindo, teve missa, discurso, festa, muita alegria no salão de festas da igreja. Fizeram até um jornal comemorativo, com depoimentos de todos sobre a minha pessoa”, conta ela.

Envelhecer? Yara acha que não é bom, porque as possibilidades vão diminuindo. “Antes, eu era muito ativa, mas agora estou um tanto quanto preguiçosa”. Mas quem a vê andando pela Casa da Zita nem percebe que ela teve uma trombose na perna, por causa de uma embolia pulmonar. A verdade é que ela se cuida muito e recebe o tratamento de que necessita no lar dos idosos, que tem médico duas vezes por semana, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista – uma equipe multidisciplinar para atender a todas as moradoras.

Yara, que já viajou pelo mundo, conhece Chile, Argentina, Estados Unidos, Peru e México, gosta de viver e não tem medo da morte, mas confessa. “Tenho pavor da invalidez, de ficar dependente de outras pessoas.”

Ela se despede, vai pensando na grata surpresa que foi conhecer Yara e as santas zitas, envoltas no manto protetor das Irmãs Gracianas.

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