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De repente, voltei ao tempo em que era doida com papagaios (pipas)

Por Maya Santana

BN8GKC Young Girl having fun flying a multicoloured kite in the English countryside. Silhouette

Impossível não me lembrar dos papagaios que eu tentei fazer na infância

Elisa Santana –

Moro numa rua íngreme de uma Belo Horizonte que nasceu entre montanhas e cresceu entre ladeiras. Ela termina em uma bifurcação em T, no pé de uma mata que sobe um morrinho e, no alto, circunda um quase invisível aglomerado de poucas casas. Às vezes, acordo de manhã e percebo que de lá me vem sinal de um mundo quase bucólico, que me é extremamente agradável. Do alto, vem o canto de galos pela manhã. Como bons galos, costumam cantar na madrugada. Um dia, ouvi um vizinho contando, incomodado, que não dormira com um deles cantando várias vezes durante a noite. Ele, sem dó, mirou um laser, fazendo-o parar de cantar. Detestei ouvir aquilo. Achei a atitude e a conversa ruins.

Lá também moravam galinhas D’Angola, que costumavam alçar voo lá de cima e pousarem, loucas, nas janelas dos prédios próximos. Os vizinhos ficavam doidos. Então, as pobres sumiram. Alguém reclamou, claro.

No alto também acontece outro tipo de música. Se hoje a gente ouve tocando nas ruas o Rap, Funk, Hip hop, lá o tempo é outro. Descem cantando Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra… As músicas da década de 60 tomam conta e, às vezes, fico aqui rindo e me lembrando do tempo do vinil nas “radiolas”, de minha mãe e minha vó ouvindo rádio e comentando as letras. Elas adoravam Altemar.

De lá, vez por outra, também descem papagaios de papel que costumam ficar presos na árvore de frente da minha casa. Sempre que vejo um penso em como foi que a linha arrebentou e ele foi parar ali.

Pois não é que outro dia, chegando em casa à tardinha, encontro um destes papagaios pendurado na minha janela? Agarrado numa das bandas de vidro, ele balançava mais para dentro que para fora, querendo entrar. Subi em uma cadeira e consegui pegá-lo. Imediatamente fui para a janela e, agarrando no restinho de linha que sobrara, coloquei-o para ganhar os ares. Logo o papagaio mostrou a que veio. Se tivesse mais linha teria subido rápido aos céus. Fiquei lá uns bons minutos admirando a beleza e leveza com que ele dançava e conversava com o vento. Impossível não me lembrar dos papagaios que eu tentei fazer na infância. Todos de papel celofane colorido comprado na loja de Dadá, lindos. Mas nenhum subiu.

Eu tinha um vizinho chamado Osvaldo que fazia papagaio como ninguém. Ele tinha a manha. Sabia tamanho e peso das varetas. Nunca usava grude – mistura de farinha de mandioca e água – demais para colar as rabiolas e sabia fazer cerol. Era um gatuno de papagaio nos ares. Desaforadamente, ele adorava exibir as habilidades que nem eu, nem meu irmão tínhamos. E o que era pior, os papagaios dele eram de jornal. Como podia? Eu pensava.

Demorou para que eu entendesse que usava excesso de grude para colar as folhas, que as minhas varetas e rabiolas tornavam os papagaios pesados. Quando achei que entendi a arte de fazer um que voasse ao vento e ganhasse as alturas, já era mocinha e tinha perdido o interesse por eles.

Quando recolhi o papagaio na janela, voltei para um tempo em eu era louca por papagaios. De repente, o vento ficou mais forte. Ameaçou chover. O papagaio ia pra lá e pra cá no ar. Fiquei com medo de perdê-lo. Recolhi -o e me sentei no sofá admirando-o. Ele ali, sem cor nenhuma, tão bem feito, de pedaços de plásticos transparentes tão bem colados. Voava que era uma beleza.

Sim, era de plástico, mas, para minha surpresa, feito de saquinhos de um plástico bem fininho, usados nos sacolões para ensacar frutas e legumes. Uma obra de arte vinda de material tão simples. Pensei que os meninos que moravam naquele alto sabiam das coisas. Acharam uma maneira bonita de transformar lixo em brinquedo dos bons.

Já faz uma semana que o papagaio está morando em cima do móvel em minha sala. Ele e eu estamos esperando Nina, a neta da minha vizinha que mora no interior, para fazer uma surpresa: ele, com certeza, louco para, levado pelas mãos dela, voar ao vento e, se possível, ganhar o céu.

Eu, doida para ver a cara que ela vai fazer quando vir o papagaio. Do jeito que é esperta e curiosa, Nina vai adorar.

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3 Comentários

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Márcio 3 de março de 2016 - 17:06

Mais outra crônica… linda, Lisa!
Um grande abraço para você.

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lisa santana 5 de março de 2016 - 22:27

Beijos Marcinho.

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Cássia Lisieux Costa Figueiredo 1 de março de 2016 - 12:14

Lindo texto. Gostaria de ler mais coisas dessa escritora.

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