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Velhice: temos de dar início a uma espetacular mudança cultural

Por Maya Santana

Cabe a essa nova maioria, que serão os idosos, , reformar o poder

Cabe a essa nova maioria, que serão os idosos, , reformar o poder

Déa Januzzi

A impressão é de que ela cresceu livre de preconceitos. Nunca foi refém de pré-julgamentos, gosta de pessoas, da diferença, do avesso das coisas. Escolheu a carreira de repórter justamente para ajudar outras pessoas, para escrever histórias de vida. Será que é só impressão? Pois outro dia teve que se reavaliar.

No supermercado encontrou a síndica do prédio onde mora. Ela estava com a filha, de 18 anos. Graças à síndica ganhou uma carona para aliviar o peso de suas compras. Tudo ia muito bem, até que chegaram ao prédio. No elevador, aconteceu. Ela quis elogiar a filha da síndica, como um gesto de agradecimento, de gentileza. Então, disse: “Sua filha está linda, parece com você”. A síndica respondeu: “Ela é mais bonita, não é?” Em vez de responder. “As duas são bonitas”, sabe o que saiu da sua boca? Cobras e lagartos de dar medo. “É por que ela é mais jovem”, disse. Dá para acreditar?.Depois dessa observação, o chão do elevador sumiu. Por que não ficou calada, se não tinha algo melhor a dizer?O elevador parou lentamente no andar onde a síndica e a filha moram. As duas se despediram e desceram.

Ela seguiu sozinha ruminando a bobagem que acabara de dizer, se detestando. Logo ela que sabe sobre o envelhecimento populacional. Logo ela que tem projetos sobre o envelhecimento ativo, que escreve há tempos sobre o ritual de envelhecer da mãe dela e agora sobre o próprio. Logo ela que prefere ser chamada de velha do que de idosa ou qualquer outro termo pejorativo como melhor idade, terceira idade. Como um comentário desses foi sair assim, de repente?

Sem ter o que dizer, deixou escapar que a filha da síndica era mais bonita justamente por ser jovem. Pode uma coisa dessas? O preconceito saiu naturalmente, sem esforço, como se tivesse registrado em algum lugar da cultura – deslizou da sua boca. Aos 63 anos, ela tirou lá do fundo do baú dopreconceito uma frase desastrosa.

Teve vontade de voltar, de ligar para a síndica, de mandar um e-mail, mas o preconceito já havia escapado, “sem querer”, ”sem ver”, “semsentir”. O arrepio pelo que dissera percorreu o sangue, gelou as veias e foi aportar no coração. A ideia de que velho é feio, é inútil, é repulsivo,écaquético, é um traste, vem de longe, quando as pessoas morriam antes dos 40 e já eram consideradas caducas. Palavras que foram eliminadas com a conquista da longevidade, de um envelhecimento ativo, de 30, 40 anos a mais no calendário da vida, mas que continuam em algum lugar do inconsciente, marcada a ferro e fogo, como se fosse uma tatuagem.

Num país que não reconhece os cabelos brancos, que não sabe que muito em breve serão mais velhos do que jovens, que prega a juventude eterna, é preciso redobrar os sentidos, os esforços para tecer uma nova imagem da velhice.

Se ela que se considera revolucionária, que tem planos para envelhecer, deixou escapar tamanha insanidade, imagine quem nem sabe que o País está envelhecendo. É preciso acordar para este novo cenário demográfico que se desenha.

Não tem volta, mas não demore: você ainda não sabe, mas você será um deles, e como diz Frank Schirrmacher, no livro “A revolução dos idosos”, você também será convocado. “É frequente escutar as pessoas contando como foram sacudidas de repente pela velhice. Sem acreditar, abrimos os olhos, como se não tivéssemos sido advertidos durante anos, e subitamente, constatamos que estamos velhos. E o mesmo acontecerá com a sociedade. A lógica inabalável do calendário nos diz que a ameaça cresce para todos nós com o passar de cada aniversário. E, mesmo assim, fingimos que não é o nosso tempo que está se escoando”, escreveu Frank, que diz ainda: “Unam-se e não se deixem abater, pois vocês estão do lado dos idosos. Todos nós temos ainda a grande missão de nossa vida pela frente. Estaremos, talvez, mais fracos do que agora, mas seremos a maioria”.

E faz uma advertência: “A sociedade atual terá uma chance de se rejuvenescer por meio da imagem do seu próprio idoso, e, não como muitos creem, pela nova imagem de sua juventude. A sociedade tem de criar imagens opostas, nas artes, na vida e na ciência. Cabe a essa nova maioria, que serão os idosos, reformar o poder, os mercados e as opiniões. Temos de dar início a uma espetacular mudança cultural”.

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1 Comentários

Elza Cataldo 13 de março de 2016 - 09:33

Obrigada, Déa, mais um texto cheio de alertas e informações importantes. Cheio de lucidez.

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