fbpx

Internaram a poeta que fez a revolução do autoconhecimento

Por Maya Santana
“Todos nós devemos um pouco a essa mensageira da paz e da harmonia - Célia Laborne - entre os seres vivos.”

“Todos nós devemos um pouco a essa mensageira da paz e da harmonia entre os seres vivos”

Déa Januzzi

Enquanto a geração baby-boomer, – da qual faço parte–hoje na faixa etária de 60/75 anos sonha com um envelhecimento ativo, quem sabe até revolucionário, com aldeias e vilas construídas no meio da natureza, à beira do mar, de um rio ou perto de uma cachoeira, os mais velhos, com 80, 90 e até 100 anos – da geração de nossos pais, tios(as) e avós sofrem com o abandono, a solidão e os percalços inevitáveis da idade.

Esta semana, fiquei sabendo que a colunista Célia Laborne, de 91 anos, sofreu, há alguns meses, uma queda no banheiro de sua casa. Levantou-se no meio da noite, calçada com meias, tropeçou no chinelo e caiu feio fraturando o fêmur além de ter machucado braços, pernas e ombro. Depois de uma cirurgia longa, Célia teve que se conformar em ir para uma dessas instituições de longa permanência, apesar de ter um confortável apartamento no Bairro de Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Só fiquei sabendo da notícia há poucos dias, quando o sobrinho de Célia me enviou uma mensagem via facebook. Conheci Célia Laborne quando ela trabalhava no mesmo jornal que eu. Colunista do Caderno Feminino & Masculino do jornal Estado de Minas, ela escrevia “Vida Integral”, com textos inspiradores sobre espiritualidade, meditação, ioga e física quântica. Elegante no trato com as pessoas e com os seus leitores, Célia passava pela redação como um anjo. Discreta, iluminada, era muito procurada pelas pessoas que se iniciavam no caminho da medicina complementar, antes considerada alternativa.

Célia tinha essa visão de que a medicina ortodoxa, convencional, não podia atender todas as demandas do mundo contemporâneo e globalizado. Ela divulgou a trilha da comida integral, dos grãos, dos legumes e frutas sem agrotóxicos, dos exercícios para corpo, mente e alma. Célia não só escreveu sobre a nova mentalidade da saúde, mas formou grupos de ioga e meditação. Apesar de ser de uma outra geração, ela sabia que a cura vinha de hábitos e vida saudáveis muito mais do que de uma caixa de medicamentos alopáticos. Ela divulgou a homeopatia, a antroposofia, a acupuntura. E tantos outros métodos de cura interior que faziam bem à saúde física. Foi a precursora da medicina chinesa, da filosofia oriental.

Um dia, como fiz também, Célia resolveu abandonar o jornal. Mas não parou de trabalhar. Escreveu livros, fez blog para divulgar poemas e caminhos. Afinal, desde menina fez natação, ganhou medalhas, leitores, adeptos, aplausos.

A inspiradora Célia Laborne

A inspiradora Célia Laborne

Ao saber da notícia de que ela estava internada numa Instituição de Longa Permanência, telefonei para Célia Laborne. E o que encontrei? Uma mulher triste, solitária, que só recebe visitas dos sobrinhos, que, segundo ela, “são ótimos, mas muito ocupados, têm trabalho, família e filhos”.

Perdida no meio de idosos de 80 a 100 anos que gritam a dor de envelhecer, Célia Laborne não sabe o que fazer. Levada com a roupa do corpo, desmaiada, para o centro cirúrgico de um hospital, não teve tempo de pegar as coisas de que mais gosta e precisa. Os originais dos seus livros, a bolsa de maquiagem, as roupas que sempre escolheu e lhe caíam tão bem.

Do outro lado da linha, Célia Laborne chora. E olha que ela cuidou não só de seus incontáveis leitores, mas dos pais até a morte deles, que ocorreu em casa, sem hospitalização e medidas invasivas e inúteis, como CTI, entubação, etc. Célia sente orgulho de ter cuidado dos pais até o fim. Mas hoje está só, internaram a poeta, a curadora, a jornalista. Internaram a mulher de 91 anos que fez a revolução do autoconhecimento. Não tinha outro jeito, eu sei.

Sem filhos e sem marido, Célia está fazendo fisioterapia para se recuperar da fratura no fêmur e das dores no ombro, mas ela reclama: “Onde estão todos que nem me visitam? Onde estão as pessoas que eu tanto ajudei? Será que a velhice nos empurra para o esquecimento e a invisibilidade? Onde estão todos que eu atendi?”

Célia Laborne está precisando de sabonetes, pois todos os que comprou foram usados pelas ocupantes provisórias do quarto com duas camas, um guarda-roupa e um banheiro. “Sai uma vem outra”, ela diz, para a alta rotatividade do quarto onde dorme. Ela precisa de uma touca de banho, de sua bolsa de maquiagem, pois aos 91 anos não quer parecer feia. “Sinto-me abandonada depois de tudo o que fiz, não quero doações, mas a permissão dos administradores para poder compras os produtos de que necessito, mas eles estão sempre ocupados. Eles pensam que a gente não está entendo nada, que a gente é velha, portanto, pode ser tratada de qualquer jeito”, confessa essa mulher especial, lúcida, ativa, que foi militante da prevenção da saúde, seja na alimentação, na prática da ioga e da meditação, na escrita e no jeito doce e acolhedor de tratar o outro.

Célia Laborne está só, fora da vitrine da mídia, dos aplausos fugazes, dos elogios, do sucesso. Célia Laborne se encantou com o meu telefonema, abriu o coração – e do lado de cá da linha telefônica, senti que ela abria os braços para mim. Do lado de cá, Célia, abraço você, com a mesma delicadeza, com a poesia que nos uniu como mulheres e jornalistas, com a mesma sensibilidade. Prometo te visitar em breve com uma caixa de sabonetes, com uma touca de banho e com o coração carregado de emoção, para te dar um abraço e a esperança de que a velhice não seja um peso, mas uma bênção. Até mais!!!

Depoimento de Maria Helena Andrés, uma das artistas mais respeitadas do Brasil e do mundo sobre Célia Laborne:

“Célia foi cronista de vários periódicos da cidade de Belo Horizonte e sua coluna ficou conhecida por intermédio do jornal “Estado de Minas”, onde ocupava o espaço denominado Vida Integral. Célia foi a primeira e quase única jornalista que divulgou as filosofias orientais e as técnicas de meditação, relaxamento e a importância da respiração. Seus seguidores são múltiplos, e sua mensagem transpôs as fronteiras de Minas, para alcançar outros espaços mais amplos. Atravessou os mares, foi bem recebida em Portugal, na Europa e nos Estados Unidos. Em Florianópolis, eles se transformaram em vídeo, através da iniciativa de um seguidor.
A mensagem de Célia é poética e espiritual, e penetra num espaço pouco explorado pelos poetas modernistas. Situa-se numa linha bem própria, estudando mestres de ioga tais como Vivekananda, o primeiro a introduzir a ioga no mundo ocidental. Sua mensagem é ecumênica, abrange religiões, filosofia e as ciências mais modernas como a física quântica. Ela partiu do estudo mais denso para os mais sutis.
Seu universo está situado em níveis mais altos de consciência, naquele espaço onde a palavra toca a alma das pessoas para ajudá-las a transcender o cotidiano.
O cotidiano é importante, mas existe um espaço além, onde muitas vezes a palavra não consegue penetrar. Os textos de Célia nos conduzem para esse espaço além do noticiário dos jornais. Célia éjornalista e poeta, e continua divulgando suas mensagens no blog Vida em Plenitude. Ali a palavra é o toque mágico que nos conduz ao infinito, para uma dimensão transcendente, além da Terra. Todos nós devemos um pouco a essa mensageira da paz e da harmonia entre os seres vivos.”

close

Inscreva-se para receber conteúdo incrível em sua caixa de entrada, todas as semanas

Prometemos que nunca enviaremos spam! Leia nossa Política de privacidade para mais detalhes.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





6 Comentários

Elza Cataldo 18 de abril de 2016 - 09:51

Déa, a Maya me revelou que crônica como esta sua, e tantas outras, fazem com que toda a dedicação e o carinho que ela despeja sobre o blog ganhem sentido para ela. Sua crônica nos fez conhecer e visitar Célia Laborne, essa figura tão essencial em um mundo com poucas essências. Nosso agradecimento para as três.

Responder
José Carlos Santana 17 de abril de 2016 - 21:54

Fiquei triste ao saber que uma mulher que ajudou a iluminar a cabeça dos mineiros -ela primeiro no Diário de Minas e, mais tarde, no Estado de Minas, onde Ana Marina já ajudava a abrir a cabeça dos leitores, vive hoje longe do cantinho gostoso que dividiu com os pais e do qual tem tanto orgulho. Ela foi uma das minhas protetoras no arquivo de fotografias do DM, por onde passei antes de cair nas graças de Flávio Márcio e virar jornalista. Vou vê-la. Vamos vê-la?

Responder
Maria Teresa Motta 17 de abril de 2016 - 18:30

Segui sua coluna, sempre que assinei o Estado de Minas, e isso durou muito tempo… Fui sua fã e sigo sendo. Espero que você tenha forças para passar este momento difícil. Receba meus sabonetes virtuais, minha maquiagem, e muito, muito, cheiro bom e muito axé! beijos.

Responder
Marisa Sanabria 16 de abril de 2016 - 22:50

É triste e nos faz refletir….Sei que é ela, fui sua leitora em vários momentos, o envelhecimento é também um abismo sem garantias sobre tudo quando vamos chegar aos 90 ou 100 anos, um desafio , e não sempre nossa dedicação garante um final feliz….

Responder
Carmem Lucia Messias Silva. 16 de abril de 2016 - 19:58

Que pena qie pessoas.tão especiais passem por isso! Não conheço o trabalho dela, mas ler este texto sobre ela me tocou profundamente. Que Deus cuide dela… e certamente, cuidará.

Responder
Olga Maria Hubbe Pacheco 16 de abril de 2016 - 19:45

Chorei. Não por ser a Célia essa pessoa especialíssima descrita aqui, com tanta propriedade.Chorei por todos os velhos e velhas que são esquecidos nessas instituições. Já vi muitos. isso os leva a morte mais rápida.
è muito triste a solidão. Principalmente por não poder mais fazer as coisas de que gosta, comprar aquilo que lhes dá bem estar e alegria.
Célia: meu beijo pra VC. Se pudesse ia visitá-la, mas sou de Santa Catarina.
Mas vou pensar positivo para que seus desejos sejam satisfeitos e que VC tenha uma rápida recuperação, para viver com alegria até o fim de seus dias.

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais