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Só uma coisa me irrita mais do que perguntarem a minha idade

Por Maya Santana
Cansei desses clichês da terceira idade: octogenárias pulando de paraquedas

Cansei desses clichês da terceira idade: octogenárias pulando de paraquedas

Não chego a discordar inteiramente de Denise Ribeiro, jornalista autora desse instigante texto. Mas confesso que sinto uma ponta de inveja de mulheres que já passaram muito dos 70 anos e continuam intrépidas: escalando montanhas, pulando de paraquedas, fazendo rapel em prédios, ganhando medalhas em concursos de natação. Mulheres que saem em busca de aventuras não muito associadas a pessoas mais velhas. Também não me importo quanto perguntam a minha idade.

Leia o texto:

Só tem uma coisa que me irrita mais do que perguntarem minha idade: é ver octogenárias pulando de paraquedas. Cansei desses clichês imagéticos da chamada terceira idade. O que pretendem com isso? Melhorar a autoestima dos idosos? Sinalizar que a velhice não é fim de linha? Que é tempo de ousar? Devo confessar que, para mim, essas tentativas são inócuas. Primeiro porque minha autoestima vai bem, obrigada, depois, porque não sou o tipo de pessoa alimentada por pretensões esportivas. Paraquedas? Nem aos 20 e nem agora, que já passei dos 50. Prefiro rever algum filme do Fellini.

Há outros clichês bonitinhos, mas também irritantes. Velhinhos e velhinhas supercool, com roupas originais, meio hipongas ou de grife, sempre em poses modernas, chapéus e badulaques nas ruas de Nova York. Esses ganham sempre muitos likes no facebook. Gosto de ver, tenho agudo senso estético, o belo e o subersivo me atraem. Mas o peso dessas imagens como inspiração? Dois gramas.

E o que me inspira? Conteúdos que me façam sonhar, que mostrem o lado bom das pessoas, que exibam um mundo mais humano, que ampliem meus horizontes extrassensoriais. Que me atualizem com sugestões criativas para empregar meu tempo livre. Fiquei empolgada em saber que posso trabalhar num hotel flutuante no canal do Panamá, ajudar a traduzir para o português o site de idiomas de um australiano na Grécia ou cuidar dos jardins (e desfrutar dos arredores medievais) de uma propriedade no interior da França. Você troca trabalho por comida e hospedagem. Isso é economia colaborativa.

Quero conteúdos que me conectem com essa tecnologia incrível e rápida demais pra eu acompanhar. Não me interessa saber se o Obama tem conta no Spotify. Meus amigos e eu queremos entender, por exemplo, como se faz para produzir e editar um vídeo e depois colocar ele no youTube.

A gente quer fazer parte dessa revolução digital, quer contar nossas histórias, experimentar nossos talentos em outras áreas, trocar ideia com gente de todas as idades, se integrar aos negócios sociais, ter lições de empreendedorismo. Queremos aprender a lidar com novas formas de trabalho e de remuneração. Saber como funciona esse tal de crowdsourcing, que é fruto da criatividade coletiva.

Aliás, contem com a gente para fermentar essa criatividade. Esse grupo de cinquenta, sessentões tem muito conhecimento acumulado para compartilhar. A gente só está meio perdido tentando encontrar as pontes e as portas que nos conduzam a essa rede colaborativa, onde nossos talentos sejam valorizados. Precisamos de conteúdos que nos habilitem para essa caminhada, que nos transformem em nodos dessa rede. Conteúdos que tragam ferramentas não só para a vida profissional, mas também para o autoconhecimento. Palestras, encontros, cursos que nos dêem suporte psicológico e espiritual.

E espiritual, claro, não está necessariamente relacionado a religião. Tem a ver com força pessoal, equilíbrio psíquico, serenidade para aceitar a circularidade do tempo, coragem para construir um novo modelo mental.

A crise existencial que o processo de amadurecimento traz é inerente ao ser humano. Segundo Jung, é na meia idade que nos sentimos mais aptos a reorientar nossa consciência espiritual e nossos paradigmas. Quem não quer aumentar a sintonia com os mais caros valores universais? Quem não quer ser digno, ético, paciente, atento, solidário, amoroso, altruísta? Quem não quer ser autônomo para ampliar seu universo de aspirações?

Quero evoluir espiritualmente, abrir mão de cobranças, de preconceitos, de lamentações, de traumas do passado. Quero consumir com consciência, abrir mão do supérfluo, inclusive nos relacionamentos. Quero ouvir com qualidade meu interlocutor, desligar o botão do julgamento, ser tolerante com meus erros e mais generosa com as fraquezas alheias. Quero entender as similaridades entre a cabala e o xamanismo, entre meditação e mindfulness.

Quero cuidar e ser cuidada, quero olhar o meio ambiente com a sabedoria dos ciclos. Quero me comprometer com projetos de transformação social, com pessoas empenhadas em tornar nossa comunidade humana mais…..humana. Tenham elas 16, 45 ou 80 anos. Mas quero fazer isso ativamente, de maneira engajada, um dia após o outro. Com foco no que é possível fazer agora.

Portanto, senhores anunciantes, acordem: estamos experimentando a revolução da longevidade. Essa nova geração de idosos tem muita vida pela frente e está apostando numa longevidade sustentável.

Está se reinventando para tirar proveito dos próximos 20 anos. Já sabemos que caminhar faz bem, que fritura aumenta o colesterol, que há velhinhos surfistas. Invistam sua verba em anúncios, programas, portais inteligentes. Que nos tratem como pessoas ávidas por informação qualificada; despertas, curiosas, prontas a compartilhar tudo o que fizeram e viveram e aptas a desbravar esse mundo maravilhoso que se renova diariamente.

Denise Ribeiro é jornalista e mediadora de conflitos, gosta de política e cinema, de conversas de botequim, de gente bem humorada e de comunicação não-violenta (embora precise treinar muito ainda esse quesito). Só não muda definitivamente para Salvador por causa dos netos.

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33 Comentários

Nenez 31 de julho de 2018 - 21:13

Adoooooreeeeeeiii!!!! É a minha cara! Algumas coisas mudam:vivo falando a minha idade sem ninguém perguntar, faço o que quero, gosto e não ando ligando para o que os outros pensam.Vivo cada dia de uma vez,feliz e realizada sem pensar no tempo que tenho pela frente.Em tempo,tenho 72 anos…..

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Dalila 3 de junho de 2018 - 23:54

Denise, pior são as fotos e artigos dizendo que “ o/a idoso/a continua com a libido a mil!” Quem falou que nós queremos sexo? Queremos carinho, companhia ( para andarmos de mãos dadas) e, quando muito, alguem que aqueça nossos pés na cama. Aliás, há um filme com Jane Fonda e Robert Redford a respeito, que fala sobre isso. Tenho 78 anos e estou bem, saudavel, e, até bonitona. Gostaria de ter um companheiro ? Sim . Inteligente, educado, alegre, generoso, como era o que partiu. Acho que era o único da espécie.

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Bernadete 9 de dezembro de 2017 - 18:44

Excelente texto!!! Concordo plenamente com a escritora.

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Lela castro 13 de novembro de 2017 - 22:03

Concordo com muita coisa principalmente esta história babaca de melhor idade pra enganar os bestas. Fisicamente, melhor idade porra nenhuma, embora eu aparente uns 13 a menos como me dizem, mas a saúde já começa a “faiar”, estou em plena atividade no lazer, viagens, mas o cansaço já bate à porta, trabalho físico só com minhas duas pequenas netas mas não muito. Prefiro curti-las sem esforço físico, apenas beijos abraços, xeros, xamegos… e ler escrever meus poemas e reflexões, curtir meus pensamentos constantes intensos, pretensos, bons e ruins. Preocupe-me ostensivamente com as dores e injustiças, descobri que nada posso fazer, mas amenizo o peso de alguns, um grão de areia nas galáxias. Já vivo tanto sofrimento e muitas coisas boas, E até mesmo a morte não me assusta. Apenas não quero reviver a experiência de ver partir algum dos meus. Ou seja, estou viva, mas não me iludo quanto ao fim Ah! tem mais uma coisa, não quero sofrer nenhum tipo de dor, física e/ou emocional/psíquica e o escambau.

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Mana 4 de novembro de 2017 - 23:17

Achei que só eu me irritava com velhinhas saltando de paraquedas. Sempre achei uma inutilidade. Gostei do artigo. Raramente se vê resaltando as vantagens da maturidade demosntrando coisas produtivas que fazem diferença para uma sociedade melhor.As cabeças pensantes, o voluntariado em beneficio dos outros, a literatura madura, e muitas habilidades ficam escondidas. Dá mais ibop dancinhas e comportamengos de risco dos idosos. Aos 70 e pronta para contnuar útil sem desprezar o que me faz feliz.

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Regina Sales 3 de novembro de 2017 - 09:36

Eu penso q nós, idosos de hoje, estamos em uma fase muito apropriada ao tempo fisico e tecnológico. Mais ousados que os nossos avós! Gosto de viajar, de praia, tomar uma cervejinha ou um vinho, ouvir musica e assistir a Netflix. Não gosto de programas voltados para a terceira idade, não tenho paciência. Tenho 67 anos, e estou na melhor fase da minha vida.

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Tercia Soares Sharpe 28 de outubro de 2017 - 14:22

Excelente! Parabéns!

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Shirley G. Torres 1 de novembro de 2016 - 00:13

Voce tem toda razáo…
Tenho 61 anos e náo estou nem ai pra minha idade….
Me sinto muito mais seletiva, e alto confiante.

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Sandra de Valderrama 31 de outubro de 2016 - 14:16

Excelente texto!!!

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rosemary fritsch brum 3 de maio de 2016 - 20:23

Abri para comentar uma irritação e acabei lendo esse artigo. Excelente. a irritação é por conta do perfil apresentado: modelos certamente vestindo roupas caras, em ambientes excelentes e magras, cuidadas, maquiadas. A ideia até pode ser um estímulo a uma vaidade saudável, articulada, etc. mas irreal, se pensamos bem. O projeto 50 ou mais deveria ser um estímulo para além de apenas um certo império do gosto, muito ocidental, branco, ao meu ver. Fico por aqui, concordo plenamente com vc, Denise Ribeiro.

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Cecília Tavares 3 de maio de 2016 - 08:57

Idade? Mera formalidade. O que as pessoas escolhem para suas vidas, não me traz irritação. A melhor forma de viver é usufruindo da liberdade conquistada e respeito ao próximo.

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Bel Galvão 2 de maio de 2016 - 23:00

Perfeito! Me vi neste seu texto. Grata!

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marisa 2 de maio de 2016 - 14:52

maravilhoso artigo , perfeito !!!!

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Elizabeth Tadiello 1 de maio de 2016 - 17:28

Muito bom! Texto elucidativo, inteligente. Quanto ao que penso de toda essa parafernália da “boa idade” é o seguinte: “Tenho 62 anos de idade, sou aposentada, divorciada e vivo com minha mãe de 87 anos, cuja memória se vai a cada dia. A sua cuidadora sou eu. Porém, sou cuidadora à minha maneira, nada de regras e tals, faço o que quero, quando quero … “as vezes me dá nos nervos rs”,a paciência se esgota e pronto, sinto que vou explodir, mas não explodo, até hoje não rs. Quando leio sobre o tema em questão, retiro o que me agrada e me adiciona, o resto jogo no lixo e pronto. Agora, no momento, saio pouco, pois, não confio em deixá-la sozinha e também, não posso contar com pessoas da família, elas tem seus problemas, trabalham fora e mais. Então, só resta EU. Por tal, assumi um modo de vida que é particularmente somente meu. Com certeza seria criticada por muitos caso me assistissem no dia a dia, mas não estou nem aí .. É assim e basta! Querem saber? Sou feliz assim, e faço questão de crescer a cada episódio vivenciado. Amo ler, adoro filosofia, me faz pensar e repensar meu próprio pensamento … Como diria alguém que já não me recordo do nome: “Algo dentro de mim, pensa”, que seja. Assim vou levando a minha “boa idade”, fazendo, ou não fazendo, o que quero, o que não quero … Prá frente é que se anda! Boa Tarde, a todos!!!

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Solange 9 de maio de 2016 - 05:43

Que lindo! Passei e passo por isso. Parabéns!

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Andréa Carvalho 1 de maio de 2016 - 17:20

Estou com 51 e só agora começo a entender que a meia idade está indo embora e um novo e muito mais exigente ciclo se aproxima! Minha mãe, com quem tenho convivido cada vez mais e tem 82, tem sido um exemplo de velhinha que não pula de para-quedas mas sabe, ainda, discernir suas mudanças e o que melhor lhe convém nessa fase! Então, uma pergunta que tem insistido em me acompanhar nos últimos dias é: o que quero ser quando envelhecer? O que posso ser aos 60? O que fazer para prosseguir de verdade, considerando tudo o que está posto neste artigo e tudo o mais?! Sim, tenho tido medos e dúvidas, mas também muita esperança! Não tendo como parar, sigo em frente! Bjs e obrigada pelo (s) artigo(s)!

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Lilian 1 de maio de 2016 - 16:53

Muito bom texto!!

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cecilia maria bastos jorge 1 de maio de 2016 - 15:50

Gostei. Encontrei palavras que traduzem e expressam o que sinto e quero fazer. Massss… … como?

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Regina 1 de maio de 2016 - 10:20

Adoraria escrever tão bem.
O texto é lindo, faz refletir porque retrata o meu momento.
Não me importo de dizer a minha idade mas acho indelicada a pergunta e pior quando depois vem o “Não parece”.
Obrigada

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sonia regina patti bellucci 1 de maio de 2016 - 08:10

Perfeito texto! muitos clichês com relação a maturidade, sou contra também, somos consequência de escolhas que fizemos e fazemos ainda, portanto, escolho o bom humor, a informação, conversa com amigos, cuidar do fisico sim, alimentar-se bem, passear, viajar quando possível, ouvir o outro, observar o que está ao nosso redor, tudo dentro do “meu limite” não preciso que digam como pensar a essa altura dos meus 65 anos! estou sempre aprendendo coisas novas, aberta…

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Tania Regina Artmann 1 de maio de 2016 - 07:44

Fazemos melhor por que já fizemos muito.
Criamos melhor por que a vida exigiu muito. Somos a soma das experiências. A divisão da paciência. A subtração do supérfluo. A multiplicação da criatividade. Não queremos inclusão por que sempre fomos desassossegados da inércia, eternamente amantes da vida.

Parabéns por seu texto. Muito inspirador.

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Maysa Ribeiro 25 de outubro de 2017 - 10:31

“Criamos melhor porque a vida exigiu muito.” Achei perfeito, Tânia!

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Maria Salete 1 de maio de 2016 - 02:12

Perfeito o texto, acho um desperdício não aproveitar a capacidade intelectual, o saber adquirido ao longo dos anos porque se chegou a idade fatídica de 60 anos. É inegável que a capacidade física diminui, mas o engajamento em atividades desafiadoras, em projetos criativos e produtivos com certeza trazem uma nova forma de realização pessoal. Não deveria causar admiração nem espanto, nem os que se dispõem a escalar montanhas, se tem fôlego para isso nem os que se dispõem a atividades que requeiram saber e conhecimento ou habilidade manual , seja o que for. É uma forma sutil de preconceito achar que com as rugas e manchas na pele vem a incapacidade de realizar, viver e pensar.

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Maria de Lourdes Kamada 1 de maio de 2016 - 01:41

Texto inteligente pois é realmente dessas coisas que precisamos para que possamos viver com mais qualidade não quantidade sem insentivo…parabens…

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Lúcia Chaves 24 de abril de 2016 - 19:54

Excelente!

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Marlene 24 de abril de 2016 - 19:54

Concordo plenamente. É um bom texto para refletir o valor desta fase de vida. A grande diferença entre o ter e o ser. O consumismo exacerbado. O conhecer as pessoas, ouvi-las e saber tolerar em um grau elevado, antes não distinguido.

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Josenalva Modesto de Souza 24 de abril de 2016 - 19:49

Adorei este artigo, eu penso exatamente assim.

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Valéria 9 de maio de 2016 - 16:12

Tia buena jjjj es un piropo en español!…. Expresate de una forma muy real es exactamente lo que necesitamos que se cambie la manera de ver lo que pasan del 5.0! Me encantó! Besitos

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HelioJr58 21 de abril de 2016 - 22:07

Perfeito.

Responder
lisa santana 19 de abril de 2016 - 22:52

Achei ótimo o artigo. Hoje mesmo, pela manhã, pensei que ao chegar aos 58, estou deixando cada vez mais de lado o ter e aprofundando no ser. E este artigo vem de encontro a esta busca. Muito bom.

Responder
Ana 19 de abril de 2016 - 10:17

Denise, o que é uma mediadora de conflitos?

Responder
Ana Sarmento 9 de dezembro de 2017 - 10:03

Mediar conflitos é estreitar o diálogo perdido entre as partes, é praticar a empatia, a comunicação não violenta. É possibilitar às partes refletirem sobre a motivação do conflito, conduzindo assim a ressignificação desse conflito! É auxiliar as partes a encontrarem juntas a solução do conflito!

Responder
Margarida de Souza Ferraz 18 de abril de 2016 - 15:36

Perguntar minha idade não me irrita,não me constrange …Deixo minha data de nascimento nas pgs que compartilho,sem nenhum problema. E só faço o que gosto,claro,dentro das minhas possibilidades.

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