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Uma cidade que convive sem preconceito com seus nanicos

Por Maya Santana

Maria das Piabas, de , apenas 90 cm, de mãos dadas com as irmãs, ambas com pouco mais de 1m40cm

Maria das Piabas, de , apenas 90 cm, de mãos dadas com as irmãs, ambas com pouco mais de 1m40cm

O que me encantou neste artigo sobre a cidade sergipana de Itabaianinha, onde muitos dos habitantes são de estatura bem pequena, nanicos, é o fato deles não sofrerem qualquer tipo de discriminação dos outros moradores do lugar. Vivem livremente. Fazem parte da população local, convivem perfeitamente integrados, como se pertencessem à própria paisagem da cidade. A reportagem abaixo, de Raquel Seco, do El País, mostra um pouco da chamada “Cidade dos Anões” – uma parcela de seus residentes não ultrapassa 1m45cm de altura.

Leia:

Aninha, 86 anos, 1,15m, é a única anã da família

Aninha, 86 anos, 1,15m, é a única anã da família

– Gostaria de ter crescido mais?

– Para quê?

– Não sei. Alguma vantagem?

Maria Juvencia de Melo, 'Marianinha', 65 anos, 1,20m. Trabalhou na roça até os 62 anos. Hoje borda, pinta, faz almofadas

Maria Juvencia de Melo, ‘Marianinha’, 65 anos, 1,20m. Trabalhou na roça até os 62 anos. Hoje borda, pinta, faz almofadas

Depois de pensar por alguns segundos, Maria Juvêncio de Melo, a Marinha, responde que ser alta pode ter lá suas vantagens.

– É bom ser grande, porque a gente chega a muitos lugares.

Não é uma reflexão existencial: refere-se às prateleiras altas, às mesas, às cadeiras.

Mariinha senta-se no sofá da sala e seus pés balançam um pouco acima do chão.

Beatriz Nascimento da Cruz, 75 anos, e seu irmão Joao Nascimento da Cruz, 71 anos. Beatriz tem o Mercado Popular de Itabaianinha

Beatriz Nascimento da Cruz, 75 anos, e seu irmão Joao Nascimento da Cruz, 71 anos. Beatriz tem o Mercado Popular de Itabaianinha

Ela tem 65 anos e mede 1,20 metro. Sua casa fica em uma rua tranquila de Itabaianinha, uma cidade de 40.000 habitantes no interior de Sergipe. Conhecida há gerações como “a cidade dos anões”, ali nasce uma quantidade incomum de moradores que não crescem acima de 1,45m. Nessa estatura, segundo os médicos, está a linha divisória entre o nanismo e o crescimento normal. Mas ser pequeno em Itabaianinha não é, afinal, tão estranho. Se no Brasil existe, em média, um anão para cada 10.000 habitantes, aqui são 25 vezes mais.

uarez da cruz, 52 anos 1,30m, com amigos.

uarez da cruz, 52 anos 1,30m, com amigos.

Não há um censo oficial, mas o número de moradores anões é estimado entre 70 e 100. Quem ficar tempo suficiente na praça principal verá passar o vendedor de tomates de menos de um metro e meio, um agricultor baixinho, aposentado, que todos os dias às 5h30 da manhã vai verificar o extrato do banco, ou Marinha, sempre de vestido e caminhando a passinhos curtos.

Toinho, Ze Miudo, Aderaldo, Clecio, Kinha, Luan e Cuca, a selecão de anões de Itabaianinha.

Toinho, Ze Miudo, Aderaldo, Clecio, Kinha, Luan e Cuca, a selecão de anões de Itabaianinha.

A acondroplasia, forma mais comum de nanismo (hereditária ou por mutação genética) produz troncos longos e extremidades anormalmente curtas. Muitos moradores de Itabaianinha têm corpos proporcionais, só que em escala menor. Sofrem outra rara alteração genética que afeta o receptor do hormônio do crescimento. É transmitida de pais para filhos, mas alguns portadores não a desenvolvem. A endogamia fez o fenômeno crescer exponencialmente: muitos anões, aparentados em maior ou menor medida, vêm de famílias de uma zona rural que costumava estar isolada, Carretéis.

Aldileide Francisaca De Santana, 36 anos, 1,25m. Aldileide nunca tirou fotos, está foi a primeira vez que deixou que a fotografassem

Aldileide Francisaca De Santana, 36 anos, 1,25m. Aldileide nunca tirou fotos, está foi a primeira vez que deixou que a fotografassem

Cheilane, a bisneta de Mariinha, tem sete anos e a mesma altura da bisavó. A casa onde Marinha vive não é pequena, mas as duas encaixam perfeitamente, enquanto quem vem de fora tem a sensação de ser muito grande, muito brusco. Até a voz desafina, porque Marinha fala com o tom delicado e agudo da maioria dos anões. A cadeira de plástico parece ter sido feita para crianças e a pia é um pouco mais baixa que o normal. Mas os armários, a cama e a geladeira são do tamanho padrão e, para alcançar algumas coisas, Marinha precisa recorrer ao banquinho.

Valerio Melo Fonseca, 65 anos, 1,2m. Era lavrador e jogava futebol. Hoje ele é aposentado e apaixonado por seu carro Fiat Uno, o adaptou para poder dirigir. Aqui com as amigas Mariana e Joseane

Valerio Melo Fonseca, 65 anos, 1,2m. Era lavrador e jogava futebol. Hoje ele é aposentado e apaixonado por seu carro Fiat Uno, o adaptou para poder dirigir. Aqui com as amigas Mariana e Joseane

Os anões da cidade têm a mesma expectativa de vida dos demais moradores. Vivem cercados de mitos, como o de que a falta do hormônio de crescimento prolonga a vida. Há cinco anos, cientistas da universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, vieram fazer uma pesquisa em Itabaianinha e acabaram descartando a possibilidade de a mutação ser uma fonte de juventude. Os anões não sofrem problemas especiais de saúde, exceto por certa tendência a colesterol alto e obesidade. Clique aqui para ler mais.

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