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Perto dos 60, lições que vou aprendendo ao cultivar meu jardim

Por Maya Santana

 Maíra de Freitas, 59 anos, é especialista em bioética

Maíra de Freitas, 59 anos, é especialista em bioética

Déa Januzzi

Hoje, vou abrir espaço para uma leitora muito especial. Ela tem um grupo na internet com o nome “Tenda Vermelha” que me chamou atenção. Comecei a ler os textos de Maíra de Freitas. Grudei os olhos e o coração. Li e me emocionei. Ela escreve, eu leio.Eu escrevo, ela lê.Daí nasceu uma amizade literária, poética. Depois fui presenteada com o livro dela sobre o Timor-Leste, onde morou por um tempo, “para tentar enxergar o outro da forma mais bela que se pode ver, na pureza de um olhar sem interesse, entendendo que são as diferenças que nos fazem mais fortes”.

Degustei o livro, aprendi com Maíra, chorei, morri de rir. Tem horas que ela escreve e me identifico tanto com o texto que parece que é meu. Tem horas que eu escrevo e ela acha que o texto é dela. Maíra escreve como se estivesse apaixonada, em fogo. Solta labaredas no texto, e eu me incendeio quando leio Maíra. Por isso, hoje, vou compartilhar com vocês um dos textos dela, que também está chegando aos 60 anos. Saboreiem!

Comecei meu jardim

Perto dos sessenta começo um jardim.
Ou, melhor, um pomar.
Preferi, com o avanço da idade, plantar primeiramente árvores frutíferas por saber que demoram algum tempo a frutificar.
Pé de jabuticaba, amora, uva, laranja e limão…
Sonho antigo ,comer uma fruta colhida em casa, agora começa a se tornar realidade.
Os pés tão miúdos ainda, me fazem pensar de repente se estarei por aqui quando os frutos chegarem.

A primeira lição que aprendo ao cultivar meu pomar é que a natureza não queima etapas. Não dá saltos. Não improvisa.
A natureza tem ritmo. Tem ciclos. Está em harmonia.
Comparando-me a ela percebo como estou acelerada, querendo tudo pra ontem.
Nem adianta. Nada vai ser do meu jeito, nada vai ser no meu tempo.

Lições que estou aprendendo ao cultivar meu jardim, ao cultivar meu pomar.

Há algum tempo, da varanda de minha casa observava a mangueira vizinha generosamente ofertando frutos o ano inteiro.
Fartura, doação. .A natureza entrega, oferece.
Hoje com a construção de prédios não tenho mais a paisagem de antes.
Muros de concreto ocupam o lugar das árvores, dos canteiros.
Talvez por isso se fez tão urgente em mim o desejo de semear…
Olho o pé de limão já grandinho e vejo folhas novas crescendo em todos os galhos…
Mas como, já brotaram?
Estavam ali ontem?
Nem percebi.
Constato com certa tristeza que a maior parte do tempo estou no piloto automático.
Quero mudanças. Quero estações.
Quero brotar. Quero renascer.
Quero estar mais presente.
Quero estar mais atenta.
Quero florescer…

Preciso ter mais paciência para também compor um jardim.
Preciso ter mais cuidado,
mais atenção. Mais doação.
Preciso me dedicar.
Estercar. Retirar folhas velhas. Proteger das pragas.
Preciso dar um pouco de mim se quiser mesmo colher frutos um dia…
Se quiser de verdade um quintal com flores.
Preciso conter meu ritmo, desacelerar, acalmar.
Preciso cultivar o amor, semear a compaixão.
Preciso me enternecer.

Meu pomar me ensina.
Meu pomar me encanta quando acolhe borboletas, antes tão sumidas do quintal.
Azuis, amarelas, brancas, alaranjadas.
Imagino as árvores já grandes pendendo frutos, escondendo pássaros, abrigando ninhos,ovos, filhotes.
Imagino um deles se equilibrando nos galhos querendo voar.
Vai, não vai, coragem…
Já foi.

Imagino sombra, cadeira de balanço, leitura, cochilo.
Imagino amigos, quitutesno forno, café quentinho, aconchego.
Imagino histórias contadas por jovens, contadas por velhos.
Imagino portão aberto.
Pessoas gritando:
Ô de casa, posso entrar?

Meu pomar abriga meus sonhos, dá ânimo, esperança e uma vontade danada de viver.

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16 Comentários

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Alda Andrade 21 de julho de 2018 - 00:18

Parabéns, Maíra! Esse seu pomar me encanta!
Parabéns, Déa, por compartilhar seu espaço com essa pessoa tão sensível!

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MaGrace Simão 20 de julho de 2018 - 16:02

Lindo o texto, com uma pontinha de uma boa inveja. A casa em que moro tem muito verde na frente, mas sem flores. Ontem decidi pedir ao meu jardineiro que plante meu amor de infância, o Gira Sol. No meu livro sobre mitologia grega conta como ele surgiu. Eu mesma não tenho como cuidar: depois do meu HIV o coquetel provocou-me neuropatia periférica, que acrescido de todo o álcool que eu ingeria, levou-me para a cama há 20 anos. Mas diariamente dou uma viajada por ele, mesmo sem flores, AINDA!

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Josana 27 de maio de 2017 - 07:01

Lindo texto. Eu comecei a cultivar plantas.
E é o mesmo cuidado, ansiedade pra ver brotar as flores.
Tenho orquídeas e flor de Maio. Fico em sites, procurando saber como cuidar, quantas vezes tenho que regar. Agora aos 5.2.

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Rosa Ribeiro 12 de agosto de 2016 - 21:26

Já desacelerei faz tempo…
Morei num sítio por 12 anos e realmente o convivio com a arte de plantar, cuidar, colher, fazer vidros de pimentas e potes de geléias nos faz compartilhar a sabedoria da vida, da natureza…
Cuidei dos meus velhinhos e o privilégio dessa convivência foi o maior presente de Deus! Agora retorno pra cidade, ajudar a cuidar dos netos, iniciar um novo ciclo…
Texto maravilhoso da Maira! Me vi nele! Obrigada, querida!

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Carmem Sylvia Dias Lemos 8 de agosto de 2016 - 23:28

Simplesmente feminino ou fecundo !!!
Sábio e profundo.
Grata por compartilhar sua sabedoria!!!

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Rejane Vargas 4 de agosto de 2016 - 13:33

Eu também estou asim acelerada quero tudo para ontem. Adoro plantar. também tenho meu pé de laranjinha e quando vejo o pé cheio de flores para dar laranjinha vejo que o tempo de ter mais calma chegou. É a natureza batendo palmas por mais um ciclo de vida chegando .

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Maria Conceição Torres Maroni 31 de julho de 2016 - 12:18

Eu também cultivo uma pequena horta caseira.
Sei bem como é conter a ansiedade em ver os frutos.
A cada praga que aparece ,quero desistir.
Na manha seguinte vejo uma folhinha nova
Esperança, volto a plantar.

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Dora 31 de julho de 2016 - 12:12

Nos meus 55 anos me imaginei tantas vezes em uma casinha branca e muito verde ao redor…dps de tantos anos percorridos, tantas ilusões, tantos acertos e erros também…esse poema hj me fez refletir que estou no caminho certo…amar mais a minha presença.

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Solange aRodrigues 31 de julho de 2016 - 09:11

Gratidão infinita suas palaras Maíra me animam e me acolhe nestes tempos depois do 50.

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Déa Januzzi 30 de julho de 2016 - 20:13

Maíra é uma poeta, dessas que dão um nó na garganta quando escreve, com toda a delicadeza e toda a dor de ser humana e mulher. Parabéns, Maíra. Foi muito bom te descobrir.

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Maira 30 de julho de 2016 - 22:24

Prazer ter você como incentivadora . Uma honra…

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Maria Cunha 30 de julho de 2016 - 19:36

Como me encontrei aí no seu poema, no seu pomar, no seu momento ……..ah! Que delícia chegar aqui, que delicia ….depois de correr atrás de folhas ao vento, de andar por caminhos incertos que para mim pareciam certos, enfim cheguei, e quero ficar, e quero parar, observar, sentir, curtir, principalmente a minha companhia, ah!!!!! Como isso é bom!!!!!

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Maira 30 de julho de 2016 - 19:59

Que lindo…bjs

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Lisa Santana 31 de julho de 2016 - 20:27

Tem razão Déa, Maíra me parece uma mulher generosa e cheia devida, como os textos dela. Que linda!

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Maria isabel 30 de julho de 2016 - 19:27

Adorei este texto muito me disse !!!

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Vanessa 30 de julho de 2016 - 19:27

Também preciso desacelerar, preciso colher com mais carinho às benesses que a vida tem me dado.
Obrigada por me fazer ver isso.

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