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Quero, aberta e secretamente, que a morte não chegue nunca

Por Maya Santana

primavera ensolarada que entra pela minha janela de vidro, vaza as cortinas leves e me dá bom dia

primavera ensolarada que entra pela minha janela de vidro, vaza as cortinas leves e me dá bom dia

Elisa Santana

O Sol de primavera entra pela janela da frente do meu apartamento. Assentada em um sofá de frente para ela, contemplo a luz, enquanto um leve vento passa entre as folhas dos bambus plantados por mim, na minha jardineira. Adoro a flexibilidade deles. Momento simples, necessário e de tanta vida. Luxo só. Neste instante, sem nenhuma razão aparente, contraponho o jorro de vida abundante à idéia de morte e me vejo num turbilhão de sentimentos, memórias, perguntas. Por que é que temos tanto medo das duas – vida e morte -, se ambas são inerentes, complementares e inevitáveis aos seres vivos? Não é isso que somos? Assim como animais e plantas, Seres vivos?

No meu caso, o desejo de compreender a morte chegou antes de eu entender a vida. Nunca mais saiu de mim. Eu tinha só 4 anos quando perdi minha irmã e primeira amiga. Aos 3 anos, ela morreu de encefalite. Eu era só uma criancinha, mas me lembro muito bem do impacto da perda, principalmente na vida do meu pai, da minha mãe e como consequência, na minha. A morte dela, mais que minha compreensão da falta, da tristeza da perda, me trouxe minha primeira pulsão de morte: queria morrer para que minha mãe chorasse igualzinho por mim. Naquele instante, eu era mesmo só uma criança de 4 anos, com sentimento de abandono, no meio de 11 irmãos.

A partir daí, a morte se fez presente muitas outras vezes em minha vida. Aos seis, perdi a minha avó paterna e uma amiga, filha de uma vizinha, também criança, em um acidente trágico. Me lembro de ter ficado abaladíssima. Cheguei a acordar algumas vezes gritando, ao sonhar com ela. Depois perdi amigos de escola. Neste tempo, a morte que mais me abalou foi de minha colega de carteira. Naquela época, idos de 1965, eu tinha 8 anos e as carteiras escolares eram feitas para acomodar dois alunos. Sentava comigo uma menina linda, de apelido Sãozinha. Me recordo bem de seus olhos grandes e doces, dos cabelos curtinhos pretos e cacheados. Nós trocávamos a merenda, brincávamos juntas no recreio… Saímos de férias em julho e quando voltei, o assento ao meu lado estava vazio. Sãozinha havia adoecido e morrido durante as férias, vítima de surto de meningite. Caí num misto de tristeza e medo por um bom tempo, aliado ao sentimento de perda – mais uma.

Na adolescência e fase adulta a saga continuou. Perdi amigos inestimáveis aos 11, aos 15, 19, 22, 25, 30, 34, 36 anos…E por aí afora. Em meio a todas estas perdas e tristezas foi crescendo em mim a necessidade de entender a morte, a quem sempre dei corpo e nome e, como a todo mundo, sempre me causou pavor. Até hoje, por não compreendê-la, partilho com o grande Ariano Suassuna a crença que o homem não foi feito para morrer.

Mas morre, não é assim? Morreram fisicamente já há alguns anos o meu pai, meu irmão mais velho, minha mãe e tantas pessoas inesquecíveis. Outras morrerão, inclusive eu. Às vezes, pensar na morte me traz pânico, pois nós do ocidente encaramos muito mal o fim da vida. Tento, sempre que posso, transformá-la em pulsão de vida: Tento cuidar de mim mesma, das coisas, da minha relação com minha filha,dos meus irmãos, com as pessoas, escrevo, canto, faço teatro, troco conhecimento com meus alunos em sala de aula…Enfim, me movo, acreditando que só morre quem vive.

Quero, aberta e secretamente, que a morte não chegue nunca. Na realidade, torço para que ela, se chegar um dia (risos), me encontre lúcida, de olhos abertos, andando e falando, para que conversando, ela possa ir me distraindo até chegar ao infinito. Para onde, dizem, a viagem é longa e desconhecida. Se possível, gostaria de ir rindo e ser recebida pelos meus num céu em festa, que não custa querer.

Enquanto isso, aos quase 60 anos, sentada de maneira zen no sofá da minha sala, diante de árvores e plantas, admiro a primavera ensolarada que entra pela minha janela de vidro, vaza as cortinas leves e me dá bom dia!

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7 Comentários

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luzia Werneck 20 de outubro de 2016 - 15:15

Belo e encantador…
A morte vem com reticências e sem vírgulas – apita na curva -mas não espera ninguém!
Não sei como ela me encontrará- espero que na hora eu esteja viva!
Beijo,minha amiga de tantas vidas e idas.

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Lisa Santana 20 de outubro de 2016 - 21:41

Beijos, Luzia.

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ana 20 de outubro de 2016 - 11:21

querida Lisa, que grande poetiza vc é!

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Lisa Santana 20 de outubro de 2016 - 21:40

Ana querida, obrigada muito. Bjs.

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Márcio 20 de outubro de 2016 - 01:36

Tão doce!

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Lisa Santana 20 de outubro de 2016 - 21:38

Bjs Marcinho.

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Quero, aberta e secretamente, que a morte não chegue nunca | JETSS – SITES & BLOGS 19 de outubro de 2016 - 21:24

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