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Maria Bethânia: Só me resta o palco. Vou lá e grito feito doida

Por Maya Santana

Maria Bethânia, 72, está lançando DVD, parte das celebrações dos 50 anos de carreira

Maria Bethânia, 72, está lançando DVD, parte das celebrações dos 50 anos de carreira

Nesta relativamente curta entrevista, feita por Leonardo Lichote para O Globo, Maria Bethânia mostra por que, depois de tantos anos na estrada, continua tão admirada e respeitada, nao só como artista, mas como brasileira lúcida, que pensa e sente o Brasil com a alma. Bethânia fala de seus rituais, do processo de criação, de influências e de política: “Temos uma natureza diferente da desses brancos europeus e americanos. Somos outra cor. E vejo a gente querendo imitar o ruim. Ah, me deprimo demais (…). Tô morta de pena do Brasil”, comenta ela, prestes a lançar novo DVD.

Leia:

Qual é a importância do ritual?

Acho que me equilibra. Sou muito livre, solta, e é bom ter uma sequência de atitudes a tomar, ter hora para cada coisa… Isso me dá um norte. Chegar três horas antes é imprescindível para mim. Desde a hora em que saio de casa, a maneira como rezo, olho o tempo, vejo as pessoas, aquilo já vai me vestindo para a cena. Ninguém nunca me mandou nem ensinou. Achei um modo de me separar da rua. Não gosto de usar em cena o que uso na rua. Nada que me traga a rua. Quero só aquela caixa preta, que é a plateia, e está ótimo para mim. É meu paraíso.

Como você reage quando, por algum motivo, um ritual é quebrado?

Sou disciplinada e me organizo pra que tudo dê certinho. Mas a vida existe pra isso. Às vezes não é aquele ambiente que eu quero, às vezes não consegui fazer minhas etapas no meu tempo de relaxamento. As coisas acontecem, mas eu tenho que acatar, respeitar, não volto atrás não. Não vou fazer de novo. Já passou. Às vezes a rua entra, invade, os aborrecimentos caseiros, tudo. Ninguém morre pra cantar, né? Pelo contrário. Tem que cantar vivo.

No DVD, aparece também um pequeno camarim montado ao lado do palco.

Os camarins, principalmente no Brasil, nunca são no andar da apresentação. Há muita escada, fios, passa-se por baixo, por cima, uma aventurazinha. E, quando se tem que passar por isso antes de entrar em cena, o diafragma vai embora. Tenho que parar, rezo, gosto de rezar, faço uma respiração e fico pronta para a hora de entrar. Aquele pequeno camarim é onde me troco no intervalo. Porque não daria tempo de fazer o percurso até o camarim, o trânsito engarrafado (risos).

Veja que lindo vídeo:

Você tem rituais para criar?

O mais importante é o ócio. Ficar soltinha para filtrar o bom, o mau, o médio. Anoto o que vem à cabeça. Música, pensamento, livro, conversa, uma planta que vi, um problema que tenho que resolver. Vou anotando. Isso tudo faz parte para mim do que vou inventar. Tenho milhares de cadernos. E me perco, lógico. O Waly (Salomão) dizia: “Você é igual a mim, risca, escreve, anota tudo”. É uma imundície. Mas é um modo de organizar.

O que anda criando?

Estou levantando repertório para o próximo disco. A alguns compositores peço, para outros digo: “Tô começando a fazer, se tiver algo…”. Eles perguntam: “Já tem ideia?”. Digo: “Não, vocês é que vão me dar”. Neste momento estou com ideia nenhuma e com todas as ideias. Porque agora espero o que eles vão me dizer. Como intérprete, eles é que me passam os recados, o que está quente neles, vivo, precisando ser falado. Aí vem política, amor, dor, degradação, paraíso, vem tudo. E vai me ajudando. Adoro este momento, mas ultimamente tem sido mais difícil ter tempo para o ócio. Lembro quando fiz “Mar de Sophia”. Cheguei a Salvador, acordei muito cedo, sentei na varanda, em cima do mar, peguei um papel. Quero fazer alguma coisa sobre água, Dona Sophia (a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen), eu estava com os livros dela. Peguei o papel e fiz os dois discos, escolhi praticamente todos os poetas que queria ali. Parece que fiquei estudando, mas só sentei ali para olhar distraída.

Agora você está completamente mergulhada nesse novo disco?

Não, porque tem esse lançamento do DVD, depois vou para a Bahia participar de um show de Margareth (Menezes). No dia 9 recebo o título (de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia). Como muda essa data… A faculdade foi ocupada, desocuparam. Farei uma leitura no dia 14. Depois, mesmo que queiram e que inventem, não vai dar. É Natal, período que fico em branco. Minha mãe morreu num Natal, não me serve não. Festejo o nascimento do Menino Deus todos os dias, prefiro. E também não sou muito de réveillon, essa gincana não me encanta. Então espero em Deus que a maluquice comece a invadir com mais força depois disso. Mas tenho recebido músicas lindas.

Nas canções “Mortal loucura” e “Era pra ser” (lançadas neste ano como singles, para trilhas de novelas), você trabalha com músicos mais jovens.

Sabe como foi “Mortal loucura”? Ouvi o disco da Elza (Soares). Fiquei louca. Falei para (José Miguel) Wisnik (a canção é um poema de Gregório de Matos musicado por ele): “Faz com os meninos que trabalharam com a Elza”. Fiquei muito impressionada com o trabalho deles. Elza não vou nem falar, sou perdida por ela. Com Gregório, tinha que ser uma moda de viola doida. E “Era pra ser”, canção linda da Adriana (Calcanhotto), ela disse que queria guitarra ou violão. Eu me lembrei de Pedro Sá. Depois, entrou Moreno (Veloso).

Pensa em trabalhar com músicos mais jovens no próximo disco?

Ainda não estou nessa parte. Mas que vou mexer, vou.

No DVD, há a informação que o Desfile das Campeãs da Mangueira foi exatamente 50 anos depois de sua estreia no “Opinião”. Como você vê essas pontas se encontrando?

Pois é, Kati (Almeida Braga, dona da Biscoito Fino) me falou. Isso é uma coisa mágica. É lindo ter acontecido assim. E tem uma coisa bonita. Desde que terminou o desfile, toda vez que eu tenho um aborrecimento sério, ou tristeza, vem baixinho: “Quem me chamou, Mangueira…”. (trecho do samba-enredo da escola). Aí abre, porque tem uma felicidade tão grande nisso… Algo que nunca alcancei, que vou alcançar talvez noutro patamar. Toda vez, se entristecer, se doer, aquilo vem assim. E aí eu sei que é maior do que tudo que senti, que vi, que vivi.

Você está prestes a receber um título de Doutora da Universidade da Bahia. Na Bienal de São Paulo, você lembrou que foi educada em escola pública. Como vê a forma que a educação vem sendo tratada pelo governo Michel Temer?

A primeira coisa que o governo fez foi tirar dinheiro da educação e da saúde. Aliás, todos fazem. Bota em obra, em avião, bota no… ia dizer um palavrão, mas não fica bom para uma senhora. Mas só vejo piorar. Ao mesmo tempo, existem sinais deslumbrantes, como uma escola no Piauí, embaixo de uma árvore, com os meninos entre os melhores de matemática do mundo inteiro. Como sempre, a vida floresce. Mas a educação no Brasil é desastrosa. Clique aqui para ler mais.

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3 Comentários

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Márcio 8 de dezembro de 2016 - 03:22 Responder
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deborah 5 de dezembro de 2016 - 23:14

Voz poderosa!

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Maria Bethânia: Só me resta o palco. Vou lá e grito feito doida | JETSS – SITES & BLOGS 5 de dezembro de 2016 - 18:22

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