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O que Virginia Woolf escreveu ao marido, antes de se suicidar

Por Maya Santana

Virginia Woolf morreu afogada no Rio Ouse, aos 57 anos

Virginia Woolf morreu afogada no Rio Ouse, aos 57 anos

Maya Santana, 50emais

Eu não diria que é uma carta, mas algo um pouco maior do que um bilhete, o que a escritora inglesa Virginia Woolf deixou escrito para o marido, Leonard, naquele março de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, antes de encher os bolsos do casaco de pedras e adentrar o Rio Ouse, no sudoeste da Grâ-Bretanha – dois meses depois de haver completado 57 anos. No final de março, completa 76 anos da morte inesperada desse gênio literário, atormentado por seus próprios fantasmas a tal ponto que desistiu de continuar vivendo. Toda vez que terminava um livro – sua escrita era complexa -, era como se o esforço do profundo mergulho em sua alma a deixasse ôca, inteiramente vazia. Vinha, então, a aflição das vozes que escutava, o tormento de penetrar num mundo de sombras. A depressão sem saída. Virginia Woolf enlouquecia. Dessa vez, não suportou os indícios de que estava novamente adoecendo. Seu corpo foi encontrado somente três semanas mais tarde, em 18 de abril de 1941, por um grupo de crianças.

Leia o bilhete que escreveu ao marido em 28 de março de 1941:

A escritora com o marido, Leonard, seu grande esteio

A escritora com o marido, Leonard, seu grande esteio

Querido:
Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.

Você me deu a maior felicidade possível. Você foi em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim você poderá trabalhar. E vai, eu sei. Como vê, nem isto consigo escrever direito. Não consigo ler.

O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Você foi inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.

Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém teria sido você. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.

Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.

V.”

O texto original, em inglês:

“Dearest,

I feel certain I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier till this terrible disease came. I can’t fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that – everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer.

I don’t think two people could have been happier than we have been.

V.”

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8 Comentários

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Edna Crepaldi 2 de junho de 2017 - 06:04

Grande Virgínia. Parabéns pela matéria e pela impecável e objetiva tradução, absolutamente destituida de exageros e anglicismos. Right on, sister!

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Maria Leopoldina 1 de junho de 2017 - 11:19

Traduzir Virginia Woolf, mesmo que se trate de um bilhete, com tantos erros de concordância pronominal é lamentável.

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Gracinha Garcia 14 de março de 2017 - 20:58

Uma doença maldita e pouco acreditada na sociedade.
Nem toda família ou amigos entendem já que o exterior muitas vezes está ótimo, mas poucos querem ouvir o que vai na alma.
E aos pouco vai minando as forças do ser humano chegando ao suicídio, infelizmente.
Muita fé em Deus e ocupar a mente o máximo q puder .
Entendo perfeitamente toda fala dela.
Triste…

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Liane 12 de março de 2017 - 23:56

A maior escritora de todos os tempos. Inesquecivel poetisa, cronista do invisivel. Eterna Virginia Woolf.

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MaGrace Simão 6 de março de 2017 - 16:01

Até em sua morte ela foi Virginia Woolf!

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Nenez 5 de março de 2017 - 12:08

Nossa, que triste! Naoi sabia

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Antonio f reis 4 de março de 2017 - 00:35

Forte!!!!!!!

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O que Virginia Woolf escreveu ao marido, antes de se suicidar | JETSS – SITES & BLOGS 3 de março de 2017 - 08:43

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