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Zuenir Ventura: os fatos que nos mostram que envelhecemos

Por Maya Santana

Jornalista e escritor Zuenir Ventura completa 86 anos de vida em junho

Jornalista e escritor Zuenir Ventura completa 86 anos de vida em junho

Maya Santana, 50emais

Zuenir Ventura é aquele tipo de jornalista que não existe mais. Escreve ótimas crônicas semanais em O Globo, sobre temas que lhe vêm à cabeça. Aproveitou o carnaval para falar de envelhecimento, já que ele próprio passou dos 80 anos. Felizmente, bastante ativo. Física e intelectualmente. De vez em quando encontro com ele fazendo caminhada no calçadão de Ipanema/Leblon. Sempre que posso leio suas crônicas. Nesse texto, publicado nesta quarta feira de cinzas, ele fala daqueles fatos que nos convencem de vez que envelhecemos. Tudo com muito bom humor.

Leia:

Como não brinco o carnaval, brinquei de registrar alguns sinais que o passar do tempo, cada vez mais rápido, deixa na gente. São flagrantes da série sobre a descoberta da velhice. Ei-los:

— Você descobre que está ficando velho quando já é há muito tempo e acha que “está ficando”.

— Você percebe que está velho quando se lembra da época em que acompanhava desfiles de escola de samba em pé, na beira da pista, durante 14 horas seguidas, e hoje cochila vendo pela televisão já na primeira meia hora de transmissão.

— Você desconfia que seu gosto envelheceu quando acha “La la land” engraçadinho, mas meio chatinho, e quase todo mundo adora, inclusive Elio Gaspari.

— Você tem certeza de que sua opinião não vale mais nada quando se escandaliza com a violência selvagem dessas lutas de MMA, agora para mulheres também. Gostaria de saber o que as neofeministas acham desse empoderamento. São brigas ferozes que atraem milhares de pessoas aqui e lá fora para aplaudir rostos deformados por socos e pontapés, e para depois reclamar da “insuportável violência urbana no mundo moderno”.

— Você suspeita que está mais pra lá do que pra cá quando alguém, com certeza esperando o pior, te olha e, surpreso com o que está vendo, diz em tom de consolo: “Mas você está muito bem!”

— Você sabe que está démodé não só por usar essa palavra, mas também por não concordar com a visão dos mais jovens de que o Brasil está conservador e careta em termos de costumes, enquanto debatem e até mostram suas intimidades na internet e na televisão. Querem muito mais do que apenas discutir, por exemplo, quanto tempo o homem leva para uma segunda rodada na cama. Querem demonstração prática.

— Você se sente um objeto não identificado, quando nos acham estranhos porque nascemos antes do e-mail, do WhatsApp, do Facebook, do Twitter, da comida congelada, da penicilina, das fraldas descartáveis, da Gisele Bündchen, do cartão de crédito, da pílula, das canetas esferográficas, do radar, das máquinas de lavar pratos e das equipes econômicas, que nos consideram improdutivos.

— Em compensação, você acha que valeu a pena chegar à velhice ao ouvir seu neto Eric, de 4 anos, discorrer sobre a importância da “Lua no sistema sideral”. E assistir à sua irmã, Alice, de 7 anos, anunciar que está escrevendo um livro e, mesmo antes de terminá-lo, querer saber como faz “para entrar na Academia” — não a de ginástica, mas a Brasileira de Letras.

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3 Comentários

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Maura Eustáquia de Oliveira 4 de abril de 2017 - 08:46

Adorei sua crônica. Mais velha, emagreci 38kg e mudei totalmente meu “layout”. Meus ex-alunos, mais enrugados do que eu – ah! as vantagens da mulatice! (ainda não fiz mas quero fazer plástica no rosto), ficam espantados porque hoje tenho uma aparência mais “leve” e feliz do que antes, gorda, baixinha e de cabelo sempre amarrado num rabinho, curto, de cavalo. Dizem mesmo: “como vc está bem, conservada!” kkkk. Vivo uma fase muito boa da vida: calma, serena e cheia de desafios que gosto de enfrentar: dirigir pelas estradas, sem ninguém para dar palpite errado; férias na Europa, junto aos amigos que fui fazendo em minhas caminhadas; passeios no mato que amo demais e coisas do gênero. Tão bom!

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Maria José 3 de março de 2017 - 01:42

Magnífico texto, que deve ser lido várias vezes para uma reflexão ajudando adultos que não aceitam envelhecer.

Toda época é boa depende do nosso amadurecimento e aprendizado.

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Zuenir Ventura: os fatos que nos mostram que envelhecemos | JETSS – SITES & BLOGS 1 de março de 2017 - 22:27

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