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Aulas de balé clássico atraem gente que já chegou aos 80 anos

Por Maya Santana

A dupla tem mais de 80 anos

Experiência. Hélio Haus e a professora Tânia Fonseca, no Centro de Movimento Deborah Colker – Guito Moreto / Agência O Globo

Maya Santana, 50emais

Você gosta de dançar? Mesmo que a resposta seja negativa, preste atenção às histórias fantásticas de pessoas com 50, 60, 70, 80 anos que optaram pela dança como forma de se divertir e, ao mesmo tempo, cuidar da saúde do corpo e da alma. No caso aqui, a dança escolhida é o balé clássico, normalmente associado a dançarinos jovens. Mas isso, como tudo mais nestes nossos tempos, mudou. Um número cada vez maior de pessoas maduras está se voltando para o balé. Sabe por quê? De acordo com a professora Tânia Fonseca, “o balé define o corpo, fortalece a musculatura, trabalha o sistema respiratório, a coordenação motora e o equilíbrio. E ainda retarda o envelhecimento.” Não é preciso dizer mais nada.

Leia o artigo de Josy Fischberg, do portal G1:

A postura impecável e o corpo longilíneo de Hélio Haus dão a impressão de que ele passou a vida toda naquela sala de balé — ou pelo menos uma boa parte dela. A posição em que se encontra reforça ainda mais essa sensação. Com a perna direita levantada sobre a barra, Hélio deita o corpo sobre ela e encosta a cabeça no joelho. Fotógrafo e repórter ficam atônitos com a flexibilidade. A professora, muito tranquila, sorri: “Ele vem se esforçando bastante nas aulas para chegar a esse resultado”.

A cena toda ganha outra dimensão quando se leva em conta que Hélio tem 80 anos. E que sua primeira aula de balé foi aos 75.

— Quando eu era mais jovem, não gostava de futebol. Preferia dar a bola aos amigos e dizer: “Faz quantos gols quiser”. Quem consegue ficar feliz com a tristeza do adversário? — indaga-se. — Com o balé, ao contrário, sempre foi só encantamento. Não havia vencedores ou vencidos. E ainda tinha a música clássica… Fui desenvolvendo a paixão por essa dança ao longo da vida e guardei isso comigo.

Hélio passou anos admirando grandes bailarinas como Tamara Toumanova, Maya Plisetskaya, Maria Tallchief. Sempre que uma delas vinha ao Brasil, dava um jeito de estar no Teatro Municipal. Seu desejo era conseguir fazer os movimentos que via no palco.

— Fiz judô, fiz ginástica… Fui pelas beiradas. Achei que agora, nessa fase da vida, seria uma boa hora de tentar o balé. Assim que comecei, percebi logo que era o que queria — explica.

As alunas de Maria Luisa Noronha, do Ballet Dalal Achcar - Guito Moreto / Agência O Globo

As alunas de Maria Luisa Noronha, do Ballet Dalal Achcar – Guito Moreto / Agência O Globo

O aposentado é um dos 135 alunos matriculados nas aulas de balé clássico adulto no Centro de Movimento Deborah Colker — a maioria com mais de 30 anos, todos não profissionais. O mesmo se repete em outras academias ou escolas de dança pela cidade: se tem uma turma de balé para adultos, ela está cheia. São pessoas que fizeram a dança na infância ou na adolescência e que por motivos diversos se viram obrigadas a abandonar, mas sempre cultivaram o desejo de voltar. Ou que sonharam a vida toda em usar sapatilhas e dar piruetas, mas não tiveram recursos financeiros ou incentivo dos pais.

Tânia Fonseca, a professora que sorri enquanto Hélio se alonga, enumera os benefícios da atividade.

— A primeira pergunta que muitos fazem ao chegar aqui é: “Vou emagrecer?”. Eu digo que depende. Se você fizer uma aula e for comer uma lasanha, acredito que não — ri. — Brincadeiras à parte, é importante dizer que o balé define o corpo, fortalece a musculatura, trabalha o sistema respiratório, a coordenação motora e o equilíbrio. E ainda retarda o envelhecimento.

Aos 54 anos, a economista e professora universitária Lucia Helena Salgado faz aulas todos os dias da semana. Quem a vê de perto jura que ela tem pelo menos dez anos a menos.

— Desde o ano passado, comecei a organizar minha vida também em função da dança. Como dou aulas, arrumo a grade para que tenha as manhãs livres só para o balé. Depois, fico até mais tarde na faculdade

Mestre. Jean Marie Dubrul em sua aula de balé clássico na Sauer Danças

Mestre. Jean Marie Dubrul em sua aula de balé clássico na Sauer Danças

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Há quem se arrisque a dar os primeiros pliés na fase adulta sem nunca ter feito uma aula na vida. Lucia faz parte do grupo que praticou balé até a juventude e, de repente, se viu obrigado a parar.

— Eu tinha uns 20 anos e percebi que não me tornaria uma profissional. Comecei a trabalhar num ritmo intenso e acabei optando por largar. Era uma época em que a gente não encontrava aulas assim para adultos, como hoje. Passei 15 dias chorando todas as noites. Descobrir que, décadas depois, eu poderia voltar foi mágico.

A aula começa e os nomes em francês vão se amontoando uns sobre os outros. Fazendo gestos rápidos com as mãos, para explicar resumidamente os passos que os alunos deverão fazer na barra, o professor Jean Marie Dubrul solta palavras complicadas para quem é leigo no assunto: battement tendu, jeté, rond de jambe… Tudo sempre em francês, claro. Um segundo antes de soltar o som, no entanto, é ao português que ele recorre: “Divirtam-se!”. O jeito brincalhão e a postura fazem de Jean Marie mais um no mundo do balé que, ao dizer sua idade, deixa o interlocutor sem fala. São 76 anos, sendo 45 dedicados a ensinar a dança.

O francês atrai uma legião de admiradores ao espaço de arte Sauer Danças, no Jardim Botânico. São pelo menos 50 alunos adultos, entre anônimos e famosos, que se dividem entre suas aulas de alongamento e balé clássico. Por ali já estiveram Alinne Moraes, Leticia Spiller e Cris Vianna:

— Acredito que quem procura o balé já nessa fase adulta não quer malhação em academia com barulho infernal. Sabe aqueles espaços em que não há sequer controle sobre a música que está tocando? Que tocam qualquer coisa? Aqui é o contrário disso. As pessoas buscam algo que lhes dê estrutura, não só para o corpo, mas musicalmente também. Encontram no balé.

Atenta às palavras de Jean Marie está a jornalista Vera Gertel, de 79 anos. Ela começou as aulas de clássico há três anos e diz que não escolheria outro professor que não o francês, a quem chama de mestre. No primeiro mês, confessa, sentia-se quase como uma barata tonta.

— Tem que ter um pouco de cara de pau, sim, para começar. Só que o jeito do Jean Marie faz tudo valer a pena. Desde o início, todos se sentem muito à vontade. Ele costuma dizer que qualquer um pode dançar. É maravilhoso ouvir isso de uma pessoa como ele.

A sensação “barata tonta” é compartilhada por muitos adultos que começam a fazer aulas de clássico. Uma das maiores dificuldades nessa fase da vida, dizem os professores, é decorar os nomes dos passos e, assim, conseguir memorizar as sequências. Vem daí a sensação de se estar um tanto perdido no começo. Clique aqui para ler mais.

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1 Comentários

Aulas de balé clássico atraem gente que já chegou aos 80 anos | JETSS – SITES & BLOGS 5 de março de 2017 - 16:16

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