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“Quem disse mesmo que a terceira é a melhor idade?”

Por Maya Santana

Walcyr Carrasco, 65,

Walcyr Carrasco, 65, é novelista

Walcy Carrasco

Fiz 65 anos. No momento estou escrevendo com um holter atrelado a meu braço. O holter é um aparelho que mede a pressão a cada 15 minutos. Ficarei com ele 24 horas. Meu cardiologista terá um panorama de todos os picos de pressão do dia e da noite. Não sei como vou dormir com uma caixinha em minha barriga e meu braço sendo apertado automaticamente a intervalos. Não se horrorizem. Meu coração está perfeito. Ocorre que os remédios que usava havia 15 anos, para controlar a pressão, começaram a ter um efeito superlativo. Abaixavam tanto a pressão que eu me enchia de sal. Contraditório. Aconteceu um pouco antes de eu ir para Nova York concorrer ao Emmy. Dalmo, meu cardiologista, arriscou.

– Não será a tensão pelo prêmio?

– De jeito nenhum, sou zen. Ganhar ou perder não me afeta. Tudo um dia será pó.

Mentira. Quase desmaiei na hora da revelação e, quando recebi o prêmio, entrei em êxtase. Mas o mal já estava feito. O cardiologista me mandou fazer, urgente, esse procedimento com o holter. E outros exames. Para modular os remédios. Que voltaram a funcionar muito bem após meu retorno. Mas médico não acredita em paciente otimista. Se eu abdicar do holter, ele não concordará. Claro que, diferentemente do que pede o médico, não farei tudo o que faço normalmente. Terei um dia calmo, tranquilo, fora dos meus padrões. Jamais faria sexo atrelado a um holter, por exemplo. Tento ficar calmo, não brigar. Não quero que meu médico tenha uma má impressão de meu coração. Não é só isso. Tenho um exame oftalmológico nos próximos dias. Sofro de pressão no olho, o que significa pré-glaucoma ou o próprio. Uso um colírio à noite, outro ao despertar. O glaucoma é terrível, porque, se não tratado, cega ao longo dos anos. O exame consistirá numa série de torturas: uma foto de meu fundo de olho, com uma luz alucinante; um exame para determinar meu campo visual, com pontinhos brilhantes pulando sobre a tela. A cada um, deverei apertar uma campainha. Ou seja, o exame determina não só a saúde do olho, mas a agilidade. Tensão. Se der errado, terei um diagnóstico ruim.

Nenhum paciente quer fazer feio perante o médico. Bem, deixei exames para o ano que vem. Inclusive o da próstata, que todo homem deve realizar a partir de certa idade. Vocês sabem mais ou menos como é. O médico espeta o dedo e… só me pergunto: o que faz um formado em medicina decidir que sua vocação é a proctologia? Há um outro, a colonoscopia, com doses cavalares de purgante. Tudo isso porque até agora – devo dizer graças a Deus – não tenho nenhuma doença agressiva, nada que não se possa controlar. É pouco diante do que acontece com meus contemporâneos. Depois dos 60, notícias tristes fazem parte do cotidiano. Um amigo tem um ataque cardíaco. Outro uma doença dolorosa. Muitas pessoas morrem, outras somem. Vão morar longe, com filhos, parentes. Clique aqui para ler mais.

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2 Comentários

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Sueli 29 de março de 2017 - 12:46

Não, não é a melhor, mas ainda assim está vivo!

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“Quem disse mesmo que a terceira é a melhor idade?” | JETSS – SITES & BLOGS 28 de março de 2017 - 23:13

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