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O Brasil moderno está em guerra com o Brasil atrasado

Por Maya Santana

O Brasil é, senão o mais injusto, um dos países mais injustos do mundo. É inaceitável

O Brasil é, senão o mais injusto, um dos países mais injustos do mundo. É inaceitável

Maya Santana, 50emais

Quase nunca falo de política nem de políticos aqui. É intencional. Abro pouquíssimas exceções. Essa é uma delas. Eu me sinto compelida a postar este texto de Ricardo Rangel por refletir com bastante propriedade a maneira como vejo o Brasil. O título original dado ao artigo em seu blog é Gettysburg e você logo verá a razão. “Nossa legislação trabalhista, baseada num código fascista que supõe que todo trabalhador é idiota e todo empresário é canalha, torna o emprego tão caro e burocrático, que metade de nossos trabalhadores fica na informalidade, sem os direitos mais básicos. A Justiça do Trabalho, jabuticaba que só existe no Brasil, sempre atulhada de processos, custa mais caro do que as causas que julga” – diz ele.

Leia:

O Brasil moderno está em guerra com o Brasil arcaico há tempos, e nem sempre fica claro quem são os mocinhos e quem são os bandidos

O capitalismo é um sistema em que empresas privadas são responsáveis por realizar a atividade econômica em regime de livre concorrência. Trata-se de coisa desconhecida no Brasil: o que temos aqui é uma mescla de capitalismo de Estado — quando o Estado é o principal agente econômico — e capitalismo de compadrio — quando o governo favorece deliberadamente empresas privadas que rapinam a coisa pública (como as empreiteiras, que vimos, ou os “campeões nacionais”, que ainda veremos).

O Brasil é também um país patrimonialista: não há limites claros entre o público e o privado, basta observar a sem-cerimônia com que Sarney, Collor, Jucá, Padilha, Temer etc. se apropriam da coisa pública. É uma praga que assola todos os níveis do serviço público, não apenas o topo, e é assim desde o descobrimento.

Pagamos impostos equivalentes a 36% de toda a riqueza gerada no país. É uma das maiores cargas tributárias do mundo, mas não basta: o governo precisa obter mais 10% do PIB por meio de endividamento. Apesar desse custo, o capitalismo de Estado, o compadrio e o patrimonialismo geram a corrupção, a incompetência e a ineficiência que fazem que nada funcione como deveria no Estado brasileiro.

Um quarteto nefasto: José Sarney, Romero Jucá, Renan Calheiros (quando ainda não havia feito implante de cabelo) e Fernando Collor de Melo

Um quarteto nefasto: O ex-presidente José Sarney, Romero Jucá, Renan Calheiros (quando ainda não havia feito implante de cabelo) e o ex-presidente de triste memoria Fernando Collor de Melo

A polícia e a Justiça não desvendam crimes graves, mas lotam as cadeias com portadores de trouxinhas de maconha ou de vidros de desinfetante: há 250 mil presos (40% da população carcerária), todos pobres, aguardando julgamento. Do lado de fora, temos uma das maiores taxas de homicídio do mundo e traficantes controlam enormes territórios aonde a lei não chega.

O sistema de saúde pretende oferecer tudo, inclusive cirurgias caríssimas no exterior, e acaba por não oferecer quase nada, de forma que os ricos e a classe média contratam planos privados, e os pobres morrem nas filas dos hospitais.

Nossas escolas formam analfabetos funcionais, até porque, como metade das residências não tem esgoto, grande parte de nossas crianças, sempre doente, é incapaz de aprender. A esquerda deveria lutar pela educação, pois só ela distribui renda, e a direita deveria fazer o mesmo, senão por solidariedade, porque precisa de mão de obra para suas empresas e mercado consumidor para seus produtos — mas ninguém dá muita bola para o assunto.

A Previdência é insustentável, não só porque a expectativa de vida vem crescendo e o crescimento vegetativo, caindo, mas também porque encerra um cipoal de privilégios, em especial para altos funcionários públicos, e fraudes.

Nossa legislação trabalhista, baseada num código fascista que supõe que todo trabalhador é idiota e todo empresário é canalha, torna o emprego tão caro e burocrático, que metade de nossos trabalhadores fica na informalidade, sem os direitos mais básicos. A Justiça do Trabalho, jabuticaba que só existe no Brasil, sempre atulhada de processos, custa mais caro do que as causas que julga.

O Brasil é, senão o mais injusto, um dos países mais injustos do mundo. É inaceitável.

Precisamos reestatizar o Estado, que foi privatizado, e privatizar as estatais. Temos que reduzir o Estado, não só para que não seja tão caro, ineficiente e corrupto, mas para que possa focar no que interessa: segurança, saúde, educação, saneamento.

Precisamos reformular o sistema de segurança. Temos que ter um sistema de saúde com propósitos realistas, que possam ser atingidos. É imperativo fazer uma revolução na educação e levar saneamento a todas as residências. É preciso acabar com os privilégios da Previdência e torná-la sustentável. Há que modernizar a legislação trabalhista.

Tudo isso é, ou deveria ser, óbvio, mas há muita gente contra: um sistema que tem muitos privilégios tem muitos privilegiados, e eles são poderosos. O Brasil moderno está em guerra com o Brasil arcaico há tempos, e nem sempre fica claro quem são os mocinhos e quem são os bandidos: todos trazemos dentro de nós, uns mais, outros menos, resquícios do Brasil atrasado, o do jeitinho, dos favores, dos privilégios — basta ver a quantidade de pessoas decentes que se opõem às reformas.

O STF é uma metáfora do Brasil, de suas contradições e de seu dilema, e também oscila entre o avanço e o atraso. Na semana passada, três de seus ministros perderam o pudor e alinharam-se claramente a favor do atraso e contra aquela que, a despeito de alguns excessos, é a mais importante das iniciativas em prol do avanço: a Lava-Jato. Em breve, os demais ministros esclarecerão se o Supremo como um todo é também a favor do atraso.

Há 150 anos, os EUA travavam uma guerra — literal — entre o avanço e o atraso. A Batalha de Gettysburg, a mais sangrenta da Guerra Civil americana, é considerada por muitos o momento da virada, o instante em que a América moderna finalmente começa a derrotar a América arcaica e escravocrata. É ao fim dessa batalha que Lincoln conclama os americanos a garantir que “o governo do povo, para o povo e pelo povo não desaparecerá da face da terra”.

Falta-nos um Lincoln, mas não devemos nos enganar: o que vivemos hoje é nossa Gettysburg. (Fonte: O Globo)

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1 Comentários

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Tinda Costa 12 de maio de 2017 - 14:16

Brilhante! Claro e preciso!

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