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Isabel Allende: “Eu me apaixonei novamente aos 75 anos”

Por Maya Santana

"Sim, aos 75 estou apaixonada pela terceira vez na minha vida"

“Sim, aos 75 estou apaixonada pela terceira vez na minha vida”

Maya Santana, 50emais

Cada um reage de uma maneira à chegada da idade. Alguns trancam-se em si mesmos e assim ficam até a derradeira hora. Outros, quem sabe mais sábios, privilegiados, se abrem para mundo. É o caso da escritora chilena Isabel Allende, sobrinha do presidente Salvador Allende, morto durante o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que instalou uma ditadura no país vizinho. Com mais de 20 livros publicados, entre eles Casa dos Espíritos e Paula (no qual conta a morte da filha),Isabel Allende está lançando mais uma obra, Além do Inverno. Ao mesmo tempo, aos 75 anos de vida,a escritora celebra a chegada de um novo amor. Nesta entrevista a Luz Sanchez Mellado, para o jornal El País, ela fala não só de seu novo livro, mas da sua vida pessoal, iluminada pelo surgimento de alguém, por quem está perdidamente enamorada.

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Há um ano e meio, quando foi a Madri apresentar seu penúltimo livro, O Amante Japonês, Isabel Allende dizia a quem quisesse escutá-la, com os olhos em brasa: “Estou aberta ao amor”. Tinha 73 anos e acabava de romper “triste mas civilizadamente” uma convivência de 28 anos com Willy, o gringo grande e amoroso de alguns de seus romances. No último domingo, Allende voltou a Madri com um novo livro na mão e um novo amor fazendo-a rir à toa. Além do Inverno, o título de sua nova obra, inspirado em uma frase de Camus, é uma homenagem à capacidade de alegria, esperança e reinvenção que as pessoas possuem por piores que sejam suas circunstâncias. “Não só os humanos, mas também os povos, as nações, o mundo tem dentro de si um verão invencível que pode acabar com qualquer inverno se lhe dermos a oportunidade e assumimos o risco”, diz ela. E quem a vê só pode acreditar nela.

Primorosamente vestida com um casaco amarelo e maquiada como quem vai a uma festa de casamento, Allende recebe na meia-luz de uma sala da vetusta Casa da América. “Esta luz é desumana. Vamos parecer macacos na foto”, brinca, com a desenvoltura que lhe conferem décadas de entrevistas em sua longa carreira de estrela global da literatura. Allende (Lima, 1942) despachou milhões de exemplares de seus 23 livros, de A Casa dos Espíritos até De Amor e de Sombra e Contos de Eva Luna e Paula, sua obra mais íntima e também a mais querida, mesmo que só pelo fato de que, graças a ela, sua falecida filha Paula continua viva na memória coletiva. “Ainda hoje, 23 anos depois, recebo cartas de pessoas doentes, ou que sofreram uma perda, ou que chamaram uma filha de Paula inspirados nela, e isso é muito mais do que alguém pode esperar de uma obra”, diz, com seus olhos aquosos mais úmidos que nunca.

Os protagonistas de seu novo romance, Lucía, Richard e Evelyn – dois sessentões e uma adolescente, são especialistas em perdas, dor e desterro. Imigrantes os três nos Estados Unidos, cada um fugindo de um derrota pessoal e coletiva, e unidos por um capricho do destino, descobrem seu verão interno redimidos uns pelo amor romântico e todos pela solidariedade com o próximo.

Allende, “estrangeira sempre, começando de novo em lugares diferentes a vida toda”, não se mostra desesperançada diante da “situação atual em que se fecham as fronteiras, porque acredito que são circunstâncias que vão mudar. Trump é um acidente e não vai durar muito. Pode causar muito estrago, mas não vai destruir o mundo que construímos nos últimos cem anos. Existem movimentos, sob a superfície, de gente jovem que está mudando as coisas. Vivi o suficiente para saber que tudo é um pêndulo e nada é eterno. Vivemos um inverno de Governos, de refugiados, de terrorismo, de medo, mas o verão invencível também está aí, e no final ganhará a tendência de mais solidariedade, mais democracia, mais liberdade, mais educação. As migrações não param com muros nem leis, mas resolvendo situações terríveis nos lugares de origem”.

Allende começa a contar, radiante, como esse novo verão chegou a sua vida. Quando se separou de seu companheiro, retirou-se para uma casinha na Califórnia com seu computador e seu cão, decidida a viver sozinha pelo resto de seus dias. “Um senhor de Nova York me escutou no rádio de seu carro, a caminho de Boston. Mandou um email ao meu escritório, e outro, e mais outro. No terceiro, respondi eu mesma porque veio com um buquê de flores. Cinco meses depois de receber diariamente um email de bom-dia e outro de boa-noite, aproveitei uma viagem de trabalho para conhecê-lo. Então, em cinco minutos, tudo aconteceu, e agora ele está vendendo o que tem para vir morar comigo. Ou seja, essas coisas existem, são milagres que acontecem. Sim, aos 75 estou apaixonada pela terceira vez na minha vida, não há amor sem risco”, relata, sem poder e talvez nem querer esconder uma risada, entre boba e cúmplice, diante da cara, entre cúmplice e boba, de sua interlocutora.

Assim, ao mesmo tempo corajosa e resistente, mostra-se Allende especialista em retratar mulheres extraordinárias que, segundo ela, são cópias do natural mais do que fábulas. “Venho de uma rede delas, trabalho com elas, estou cercada por elas, não preciso inventar nada”, diz a escritora já imune aos sobressaltos.

“Sempre estou alerta, aberta ao mistério da vida, às coisas maravilhosas que a gente espera, e às trágicas que a gente não deseja. O pior já passou. Quando me separei de Willy, que amei muitíssimo, as pessoas me davam pêsames, como se dissessem ‘coitada dessa senhora idosa que vai ficar sozinha’. E eu pensava: ‘isso não é nem 10% do que passei quando Paula morreu’. Nada mais me abala.”

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12 Comentários

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Lourdes Simões 8 de maio de 2019 - 20:53

Adoro tudo que escreve e tambem esse que está vindo…que sabedoria…qdo leio o que vc escreve e fala, me orgulho ainda mais de ser mulher…parabens!

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Ívina 5 de fevereiro de 2019 - 08:56

“Nada mais me abala.” Te entendo profundamente! Ótima entrevista. Fiquei curiosa para ler o seu novo livro.

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Regina Márcia Vilela de Morais 4 de fevereiro de 2019 - 20:08

Adorei o filme Casa dos Espíritos e gostaria de ler algum livro de Isabel Allende. Farei isso. Obrigada

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ELISABETH GLORIA CABRAL DE OLIVEIRA 7 de outubro de 2018 - 09:02

Maravilhosa!! Adoro!!!

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Lúcia Goulart 29 de abril de 2018 - 17:57

Isabel “amiga querida”
Meu nome é Lúcia e sem um mínimo de inveja, pois sou uma pessoa do bem e acho que toda pessoa deveria amar e ser amada gostaria tbem de me apaixonar de novo, estou com 70 anos.
Torço pela sua felicidade. Deus a proteja.
Beijos desta que ama o amor.

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Fátima Salomeh 29 de abril de 2018 - 14:13

Sempre foi minha escritora favorita. Agora entende a razão.

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Malu 8 de abril de 2018 - 00:18

Estou apaixonada por alguem especial, EU mesmo! Depois de sair do casamento que tem facetas de prisão, descobri o quanto meu amor por mim é absolutamente necessário. Eu me basto! NÃO NÃO NÃO não preciso nem quero outro mortal para encher meu saco, controlar a minha vida como se eu fosse propriedade dele.

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Sandra 29 de abril de 2018 - 14:06

Saiba que existem relacionamentos leves. O ideal é dar laço e não nó.

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Edilene Rozendo 2 de abril de 2018 - 12:34

Ahhhh! ! ! Quem me dera encontrar um amor , a essa altura de minha vida. Estou aberta e pronta pra amar de novo. Kkkll

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Nenez 8 de junho de 2017 - 20:52

Adoro seus livros! Vou ler mais este!!!!

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Maria Auristella 2 de abril de 2018 - 17:48

Adoro os seus livros,as suas entrevistas e a
sua sinceridade: viver a vida, muito realizada aos
Setenta e cinco anos!!!

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Isabel Allende: “Eu me apaixonei novamente aos 75 anos” | JETSS – SITES & BLOGS 7 de junho de 2017 - 19:46

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