
Ricardo Bastos
Há mulheres que chegam ao 8 de março com flores nas mãos. Outras chegam com boletins de ocorrência, medidas protetivas, medo no bolso e um nome preso na garganta.
No Brasil, foram registrados 1.459 feminicídios em 2024, segundo o Ministério da Justiça. Na semana que passou, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou 1.568 vítimas em 2025, alta de 4,7% em relação ao ano anterior.
No mundo, a ONU informou que 85 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023, e 51,1 mil dessas mortes foram cometidas por parceiros íntimos ou familiares, o equivalente a uma mulher ou menina assassinada a cada 10 minutos.
E então chega o calendário, com sua delicadeza de papel, dizendo que é dia de celebrar.
Celebrar o quê, para quem vive olhando duas vezes para trás antes de entrar em casa? Para quem aprendeu a transformar rota em estratégia, silêncio em defesa, desconfiança em instinto. Para quem sabe que o perigo, muitas vezes, não mora na esquina escura, mas na sala, na cozinha, no quarto, no lugar onde a vida deveria repousar.
O 8 de março nasceu como uma data de luta. Nunca foi apenas sobre homenagens, frases bonitas e vitrines cor de rosa. É uma data para lembrar que direitos não caem do céu, são arrancados da indiferença. E há uma indiferença antiga quando o assunto é a vida das mulheres. Ela aparece quando a denúncia não é levada a sério. Quando a ameaça vira rotina. Quando a vítima precisa provar, mais de uma vez, que está em risco. Quando a sociedade pergunta por que ela não saiu, mas raramente pergunta por que ele matou.
Elas têm pouco a comemorar porque o mundo ainda lhes cobra coragem para fazer o que deveria ser simples, viver. Viver sem pedir licença. Viver sem negociar a própria segurança. Viver sem transformar amor em sobrevivência.
No Brasil, cada número do feminicídio tem rosto, tem história, tem filhos, tem mãe, tem colegas de trabalho, tem cadeira vazia à mesa.
Nenhuma estatística dorme fria numa planilha. Toda estatística já teve voz. Já teve pressa. Já teve planos para a semana seguinte. Já teve uma conversa interrompida no meio.
E talvez seja isso que mais doa no 8 de março. A distância brutal entre o discurso e a realidade. Entre a homenagem e a ausência. Entre o laço no presente e o luto que não passa. Há algo de cruel em comemorar conquistas enquanto tantas mulheres ainda precisam lutar pelo direito elementar de voltar para casa vivas.
Mas esta não é uma data para desistir. É uma data para encarar a verdade. E a verdade é que o feminicídio não nasce do nada. Ele é o fim de uma escada de violências que muita gente preferiu não ver. O insulto tolerado. O controle disfarçado de cuidado. O ciúme tratado como prova de amor. A ameaça relativizada. A agressão escondida entre quatro paredes. O silêncio da vizinhança. A lentidão do Estado. A omissão coletiva.
Por isso, em muitos lares, 8 de março não é dia de festa. É dia de memória. Dia de indignação. Dia de dizer os nomes que o medo tentou apagar. Dia de lembrar que uma sociedade só pode se considerar justa quando a vida das mulheres deixa de ser contada entre ausências.
Elas têm pouco a comemorar no 8 de março porque ainda lhes falta o básico. Segurança. Respeito. escuta. proteção. Justiça.
E, ainda assim, seguem.
Seguem criando filhos, sustentando casas, ocupando escolas, hospitais, repartições, ruas, sindicatos, universidades, conselhos, movimentos. Seguem refazendo o país todos os dias, mesmo quando o país falha com elas. Seguem sendo a coluna vertebral de muitas famílias e, ao mesmo tempo, as primeiras a serem deixadas sozinhas quando a violência bate à porta.
Talvez o verdadeiro sentido desse 8 de março esteja justamente aí. Menos no parabéns, mais no compromisso. Menos na celebração vazia, mais na coragem de mudar estruturas. Menos nas flores de ocasião, mais na construção de redes de proteção, políticas públicas, investigação séria, acolhimento, prevenção e justiça.
Porque não basta dizer que toda mulher merece viver. É preciso garantir que viva.
E enquanto houver mulheres enterradas antes do tempo, mães chorando filhas, crianças crescendo com a lembrança da violência, o 8 de março continuará sendo, antes de tudo, um grito. Um grito contra a naturalização da barbárie. Um grito contra a cultura que educa homens para o domínio e mulheres para o medo. Um grito para que nenhuma vida feminina seja tratada como detalhe.
Que nesse 8 de março a gente tenha menos pressa para homenagear e mais coragem para transformar!
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