
Ricardo Bastos
50emais
Quando somos jovens, acreditamos que a inteligência está em permanecer. Ficamos até o fim da festa. Até a última música. Até a última conversa. Até o último minuto. Como se sair antes significasse perder alguma coisa importante.
Com o tempo, descobrimos algo curioso. A vida não ensina apenas a chegar. Ensina, principalmente, a partir. Há pouco tempo, estava numa reunião de amigos. A conversa era boa, a comida excelente, o vinho honesto e as risadas generosas. Em determinado momento, olhei para o relógio e senti uma vontade de voltar para casa.
Não porque estivesse cansado das pessoas. Nem porque o encontro tivesse perdido a graça. Ao contrário. Era justamente porque a noite tinha sido boa. Levantei, agradeci e fui embora. No caminho de volta, pensei em quantas vezes a maturidade nos ensina essa pequena sabedoria.
Saber a hora de sair. Nem cedo demais. Nem tarde demais. Apenas no momento certo. Essa arte vale para quase tudo. Para as festas. Para os empregos. Para os debates. Para os grupos de mensagens. Para algumas amizades. Para certos hábitos.
Quando somos mais novos, confundimos permanência com coragem. Achamos que insistir é sempre uma virtude. Que aguentar mais um pouco demonstra força. Que abandonar algo é sinal de fraqueza. Mas a vida nunca é tão simples.
Há momentos em que permanecer exige coragem. E há momentos em que a verdadeira coragem está em partir. Conheci pessoas que ficaram anos em empregos que já não as faziam crescer. Outras permaneceram em relacionamentos esgotados porque acreditavam que desistir era fracassar. Algumas continuaram carregando mágoas antigas por décadas, como se abrir mão delas significasse perder uma batalha.
Talvez porque ninguém nos ensine a despedir. Aprendemos a conquistar, a acumular, a construir, a chegar. Mas quase nunca aprendemos a encerrar ciclos. Existe uma discreta elegância em quem sabe ir embora. Não faz escândalo. Não bate portas. Não precisa anunciar sua saída.
Apenas compreende que certas etapas terminam. E que o término não diminui a importância daquilo que foi vivido. Pelo contrário. Algumas experiências só preservam sua beleza porque terminaram na hora certa. Penso nisso quando recordo lugares que amei visitar. Se tivesse ficado mais alguns dias, talvez o encanto desaparecesse.
Penso nisso quando lembro de trabalhos importantes da minha vida. Chegou um momento em que partir permitiu que novas histórias começassem. Penso nisso até nas conversas. Há diálogos que se tornam discussões apenas porque ninguém teve o bom senso de encerrá-los antes.
A maturidade nos oferece um privilégio raro. Ela nos ensina que nem tudo precisa durar muito para ter valido a pena.Aliás, poucas coisas realmente importantes duram muito. As férias terminam. Os filhos crescem. Os pais envelhecem. As estações mudam. Os capítulos se encerram. E a vida continua seguindo adiante.
Talvez seja por isso que, hoje, admiro menos as pessoas que nunca desistem. E admiro mais aquelas que sabem reconhecer o momento exato de agradecer, guardar o que foi bom e seguir caminho. Porque existe arte em começar. Mas exige sabedoria para saber encerrar.
E algumas das melhores decisões da vida são tomadas exatamente quando nos levantamos, olhamos ao redor pela última vez e, em paz, vamos embora.
Leia também de Ricardo Bastos:
As coisas que não consertamos mais
Quando a tecnologia, criada para ajudar, causa constrangimento
O dia em que tive que ensinar meu filho a fazer um suco de laranja
O drama das muitas senhas: sem elas não existimos digitalmente
A gaveta que nunca mais fechou direito
Duas noites dentro de um álbum de fotografias
Quando o filho adulto volta para casa o ninho muda de tamanho
Quando ele aprende a arte de pedir ajuda
O dia em que descobri o prazer de desmarcar um compromisso
Tatiana Sampaio: cientista orgulho do Brasil
Sexo e folia: liberdade que chega aos 50 como um sopro de ar fresco
Casais que se amam. mas moram separados, um arranjo que cresce após os 50
Separação depois dos 50: quando o “nós” muda de lugar
BBB 2026: a arte de não levar a casa para dentro de casa
NOLT – um modismo para mascarar o envelhecimentoRomances virtuais falsos se multiplicam e acendem alerta para mulheres 50+
Celebrar o Ano Novo aos 50+ é assumir compromisso com aquilo que faz sentido
Natal depois dos 50, o que fica quando o resto se aquieta





