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Por que Drummond chamou BH de Triste Horizonte

Por Maya Santana

Serra do Curral vista do lado onde parece intacta

Maria Cristina Bahia Vidigal

Plagiando Gabriel Garcia Marquez – não sei se foi exatamente assim que aconteceu, mas é assim que eu me lembro do episódio do qual fui protagonista e que narro a seguir, a pedido da minha amiga Maya, contemporânea deste e de outros acontecimentos.

Em 1976, a ditadura militar imperava, as mudanças aceleradas sequer eram imaginadas e Belo Horizonte restava provinciana. Eu começava carreira no Estado de Minas. Domingo de sol, resolvemos, um pequeno grupo e duas companheiras da raça pastor alemão, subir a Serra do Curral, aventura cultivada desde os tempos do Colégio Estadual Central. A Serra ainda era nítida no horizonte ao sul da capital pacata; a trilha de subida permanecia marcada, denotando a presença intrépida de aventureiros recentes. Começamos a subida bem cedo, com as adversidades previsíveis – pedras, insetos, arbustos, mato.

Quase ao topo, talvez uma hora depois, um segurança(ou dois?) armado nos deu uma espécie de “alto lá”. Como assim, cara pálida, diria o meu amigo Airton Ribeiro, se lá estivesse, por que não podemos subir? “Isso aqui é da MBR, vocês estão invadindo propriedade privada”. O senhor está enganado, a Serra do Curral é da cidade, sempre subimos e descemos quando assim entendemos, foi o que retrucamos. “Pois agora não sobem mais”, decretou o segurança fardado de azul, que a minha memória reputa como um brutamontes.

Veja o que a mineração fez do lado de trás da Serra

Descemos, vencidos – afinal, os tempos eram duros e Milton Campos já tinha ensinado que, nas ditaduras, o pior é o guarda da esquina. Mas não totalmente vencidos. Indignada, fui para a redação do jornal e fiz a matéria, publicada com destaque no dia seguinte. Com uma carta, a matéria publicada foi enviada para o mineiro Carlos Drummond de Andrade, radicado no Rio.

Aí veio a bomba – alguns dias depois, o poeta fez um protesto violento em versos lindos e duros. Baseado nos fatos narrados na matéria, despedia-se de Belo Horizonte: “Não quero mais, não quero ver-te, meu triste horizonte e destroçado amor”. O adeus atormentado do poeta colocou em polvorosa políticos, autoridades e empresários; durante muito tempo, batemos com força na mineradora e na sua arrogância.

Ao fim e a cabo, nada mudou – a Serra continuou interditada e acabou destruída, comida pelas escavadeiras sedentas por minério. Foi-se a Serra, a empresa também desapareceu, engolida por uma outra, gigante.

O poeta escreveu o poema e nunca mais pôs os pés em BH

Ficou para sempre o lamento do poeta no poema Triste Horizonte:

“Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua, branda: Volta lá.
Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes das avenidas que levam ao amor, nos espelhos de luz e penumbra onde se projetam os puros jogos de viver. Anda! Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser.

Não o passado cor-de-cores fantásticas, Belo Horizonte sorrindo púber e núbil sensual sem malícia, lugar de ler os clássicos e amar as artes novas, lugar muito especial pela graça do clima e pelo gosto, que não tem preço, de falar mal do Governo no lendário Bar do Ponto.
Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro, inclusive Alagoas, “maravilha de milhares de brilhos vidrilhos”mariodeandrademente celebrada.

Não, Mário, Belo Horizonte não era uma tolice como as outras. Era uma provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas. Era um remanso, era um remansopara fugir às partes agitadas do Brasil, sorrindo do Rio de Janeiro e de São Paulo: tão prafrentex, as duas! e nós lá: macio-amesendados na calma e na verde brisa irônica…

Esquecer, quero esquecer é a brutal Belo Horizonte que se empavona sobre o corpo crucificado da primeira. Quero não saber da traição de seus santos. Eles a protegiam, agora protegem-se a si mesmos. São José, no centro mesmo da cidade, explora estacionamento de automóveis. São José dendroclasta não deixa de pé sequer um pé-de-pau onde amarrar o burrinho numa parada no caminho do Egito. São José vai entrar feio no comércio de imóveis, vendendo seus jardins reservados a Deus. São Pedro instala supermercado. Nossa Senhora das Dores, amizade da gente na Floresta, (vi crescer sua igreja à sombra do Padre Artur) abre caderneta de poupança, lojas de acessórios para carros, papelaria, aviário, pães-de-queijo

Terão endoidecido esses meus santos e a dolorida mãe de Deus? Ou foi em nome deles que pastores deixam de pastorear para faturar? Não escutem a voz de Jeremias (e é o Senhor que fala por sua boca de vergasta): “Eu vos introduzi numa terra fértil, e depois de lá entrardes a profanastes. Ai dos pastores que perdem e despedaçam o rebanho da minha pastagem! Eis que os visitarei para castigar a esperteza de seus desígnios”.

Fujo da ignóbil visão de tendas obstruindo as alamedas do Senhor. Tento fugir da própria cidade, reconfortar-me em seu austero píncaro serrano. De lá verei uma longínqua, purificada Belo Horizonte sem escutar o rumor dos negócios abafando a litania dos fieis. Lá o imenso azul desenha ainda as mensagens de esperança nos homens pacificados – os doces mineiros que teimam em existir no caos e no tráfico. Em vão tento a escalada. Cassetetes e revólveres me barram a subida que era alegria dominical de minha gente. Proibido escalar.

Proibido sentir o ar de liberdade destes cimos, proibido viver a selvagem intimidade destas pedras que se vão desfazendo em forma de dinheiro. Esta serra tem dono. Não mais a natureza a governa. Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade. Desiste ou leva bala. Encurralados todos, a Serra do Curral, os moradores cá embaixo.

Jeremias me avisa: “Foi assolada toda a serra; de improviso derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões. Vi os montes, e eis que tremiam. E todos os outeiros estremeciam. Olhei terra, e eis que estava vazia, sem nada nada nada”.
Sossega minha saudade. Não me cicies outra vez o impróprio convite. Não quero mais, não quero ver-te, meu Triste Horizonte e destroçado amor”.

Maria Cristina Bahia Vidigal é jornalista e Relações Públicas, com especialização em gestão e planejamento de Comunicação

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12 Comentários

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wilmar lima 11 de dezembro de 2017 - 12:15

Mas acho que nao é a devastação da Serra do Curral que levou nosso poeta a residir no Rio de Janeiro. E o esgoto que jorra em plenas praias do Rio de Janeiro. Gosto Muito do poelta mas ele já estava residindo há muito tempo no Rio de Janeiro

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Gustavo Hoffay 8 de novembro de 2017 - 14:20

Precisamos de menos palavras, menos versos e mais ações.

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Ilsa 14 de janeiro de 2013 - 13:03

Meu namorado me contou essa história. Completa.

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Anaelena 17 de novembro de 2012 - 02:15

Cristina, gostei demais do seu texto. Parabéns. Além disso, você cita o nosso querido Airton e sua matéria me levou a reler Drummond. Obrigada, viu? Beijo grandão e até o reveillon em Tiradentes.

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Beth Cataldo 16 de novembro de 2012 - 19:30

Maria Cristina e Maya,

O Triste Horizonte de Drummond causa uma dor profunda em todos que amamos a cidade e os seres especiais que a habitam. Em boa hora, é resgatada a história que deu origem ao poema indignado para nos lembrarmos que a degradação continua – sem trégras e sem amarras. Deter a ruína da moldura de nossas vidas é obrigação de todos nós. O texto da Maria Cristina nos ajuda a lembrar dessa missão.

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lisa Santana 16 de novembro de 2012 - 02:46

“Faz escuro, mas eu canto”, como poetou Thiago de Melo. É preciso falar, falar, falar daquilo que nos incomoda e dói. Vai que tem alguém nos ouvindo.

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ana maria 15 de novembro de 2012 - 13:49

Muito inspirados, o poeta e a jornalista

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MOEMA 15 de novembro de 2012 - 13:47

Excelente informação! Minha saudade converge à de Drummond…mas anseio em vê-la novamente!

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maria josé 15 de novembro de 2012 - 11:51

Divina e fantástica matéria, Maya.Não na sua posição de achar que vai mudar alguma coisa.
O ser humano que tem poder em mãos, quase na sua totalidade é insensível, ( Para não di-
zer outra coisa ). Mas, na beleza de expressão, na sua magnitude, traz algo lá de dentro e
faz com que a gente tenha dúbio sentimento: de um lado, a vontade de vomitar, mas de ou_
tro, a saudade. Uma vontade de passar a borracha e apagar tudo de ruim que restou. Parabéns a Maria Cristina.

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Isaura Clemens Rosa 14 de novembro de 2012 - 21:47

Muito boa matéria. Mas de que adianta. Acabam com as matas, os morros por dinheiro. Superfaturam obras e a natureza é que sofre. Aqui em Brasília, para ampliar a EPTG, simplismente detonaram uma floresta de eucalipito a beira da rodovia. Não plantaram novas ávores. Agora ninguém está aguentando o calor. E a ampliaçõ da rodovia não adiantou nada, porque o engarrafamento continua e o calor também. A capital Federal está insuportável.

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Rogerio Perez 14 de novembro de 2012 - 21:28

Maria Cristina Bahia não perdeu a garra e a emoção de repórter e nem a indignação. Foram anos duros e quase sempre, como dizem os donos do mundo, “nós perdemos”. Os marginais (?) sempre repetem: “Perdeu, mano”. Mas sobrou a lembrança daqueles momentos de lutas mas felizes. Parabéns Cristina e Maya, também a todos que denunciaram e tentaram defender a Serra do Curral e a capital mineira e às Minas gerais. Gracias a todos, RP

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Déa Januzzi 14 de novembro de 2012 - 20:57

Lindo, parabénsa à grande repórter e escritora. Ah, que saudades desse doce tempo. Bjs

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