
Ricardo Bastos
Eu estava distraído dias desses, quando a campainha tocou. Demorei alguns segundos para entender o que era aquele som. Hoje, quase tudo chega por uma notificação no celular. Quando alguém toca a campainha, a primeira reação é imaginar que seja uma entrega.
Não era. Era uma visita. Abri a porta com uma mistura de surpresa e alegria. A pessoa estava passando pela minha rua e resolveu aparecer para um café. Simples assim. Enquanto colocava a água para ferver, pensei em como esse gesto, tão comum durante boa parte da vida, acabou se tornando uma exceção.
Houve um tempo em que as visitas faziam parte do nosso dia-a-dia. Amigos apareciam sem cerimônia. Parentes chegavam para uma conversa rápida que quase sempre se estendia por horas. Vizinhos tocavam a campainha para pedir alguma coisa e acabavam ficando mais um pouco.
Nem sempre era o momento ideal. A casa podia estar desarrumada, o almoço ainda no fogão ou a roupa no varal. Ainda assim, quase ninguém via nisso um problema. A porta se abria, o café era passado na hora e a conversa seguia o rumo que quisesse.
Hoje fazemos diferente. Antes de sair de casa, enviamos uma mensagem. Esperamos a resposta. Confirmamos o horário. Perguntamos se não vamos atrapalhar. A espontaneidade deu lugar à agenda. Claro que isso tem seu lado positivo. A vida ficou mais corrida, os compromissos se multiplicaram e respeitar o tempo do outro também é uma forma de cuidado.
Mas, no caminho, alguma coisa ficou para trás. As melhores lembranças quase nunca nasceram de encontros cuidadosamente planejados. Elas surgiram de visitas inesperadas, de um café improvisado, de uma conversa que ninguém imaginava ter e que acabou ocupando toda a tarde.
Curiosamente, a campainha continua tocando. Chegam encomendas, refeições, medicamentos, documentos. Tudo chega à porta com rapidez. As pessoas, nem tanto. Talvez porque tenhamos aprendido a organizar quase todos os momentos da vida. Até o afeto passou a depender de disponibilidade na agenda.
Não defendo a volta das visitas sem aviso como regra. Os tempos mudaram, e isso faz parte da vida. Mas confesso que, pensando bem, gostei de ouvir aquela campainha.
Ela me lembrou que algumas presenças não precisam de motivo especial. Basta a vontade de encontrar. Talvez seja isso que estejamos perdendo aos poucos: a liberdade de aparecer, sentar à mesa e conversar sem pressa, apenas porque sentimos falta um do outro.
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