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A cara do Rio que amo é Zuenir Ventura

Por Maya Santana

Zuenir Ventura (no Arpuador),  homenageou o Rio com um lindo conto

Zuenir Ventura (no Arpuador), homenageou o Rio com um lindo conto

Como todo brasileiro, sou apaixonada pela beleza do Rio.  Moro perto do mar e, toda manhã, caminhando pelo calçadão, tenho o privilégio de contemplá-lo de perto, ver o vai e vem contínuo das ondas, me extasiar com o cenário espetacular.  Encantamento total. Hoje, sexta-feira, a cidade está completando 548 anos. O jornal O Globo pediu a quatro jornalistas-escritores que escrevessem um conto sobre o Rio. Dos quatro, escolhi um, “Tamoios no Arpoador”, do tão querido Zuenir Ventura, para publicar aqui, porque acho Zuenir a cara do Rio que adoro.  Eis o conto, uma leitura deliciosa:

“Aconteceu neste verão. Convidado a escrever sobre um canto do Rio, escolhi o  Arpoador, porque de lá se costuma desfrutar deslumbrantes entardeceres. Os  termômetros marcavam quase 40º, com a sensação térmica beirando os 50º. Sentado  nas pedras, apreciava o sol refletir com tal intensidade sobre o mar espelhado  que devo ter experimentado aquela ilusão ótica que no deserto se chama miragem.  A gente entra num clima onírico e acredita ver o que não existe. De repente,  senti uma urgência febril de dividir aquele espetáculo mágico com alguns  personagens que cantaram e encantaram o Rio. A primeira aparição foi de Millôr,  que veio correndo pela areia, como sempre fazia. Passou pelo largo que agora  leva o seu nome, subiu até onde eu estava e repetiu uma de suas geniais  definições: “O pôr do sol é de quem olha”. Em seguida, foi a vez de Tom e  Vinicius, que atravessaram o Parque Garota de Ipanema carregando o violão.  Tinham acabado de acordar, após uma longa noite de boemia. Finalmente, vindo de  Copacabana, chegou Oscar Niemeyer, trazendo nos olhos as curvas das mulheres e  dos morros cariocas com que fez sua arquitetura.

O Rio tem cenários de extraordinária beleza

O Rio tem cenários de extraordinária beleza: Vista do Pão de Açúcar

Como não podia deixar de ser, a conversa girou em torno dessa cidade solar,  sensual, exibida que nasceu para ser musa. Falou-se principalmente do narcisismo  de quem desde pequena se habituou aos elogios. Era ainda uma criança quando um  de seus adoradores, o primeiro governador-geral Tomé de Souza, se desmanchou: “Tudo é graça o que dela se pode dizer”. Alguém lembrou que até os religiosos  lançaram sobre ela olhares profanos: “É a mais airosa e amena baía que há em  todo o Brasil”, suspirou o padre Anchieta, inteiramente catequizado. Seu colega  da Companhia de Jesus, o padre Fernão Cardim, sentiu o mesmo: “É coisa  fermosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil”.

Estimulado pela exuberância sensorial daquela tarde, resolvi corrigir  Vinicius, que dizia que ser carioca é um estado de espírito. Acho que é mais.  Não se trata apenas de alma, mas de corpo e alma. Ama-se a cidade com todos os  sentidos, a começar pelos olhos. Olha que coisa mais linda uma garota de Ipanema  a caminho do mar. Ela vai se molhar e se estender nas areias para dourar seu  copo quase nu. Segundo Tom, que transformou em música tudo isso, esse rito  hedonista, quase erótico, é uma herança de nossos antepassados tamoios, que nos  ensinaram a curtir a água, o corpo, a música e a dança.

O sol já estava sendo rendido no seu plantão diário, e os banhistas noturnos  começavam a estender suas cangas na areia para o mais novo modismo deste verão:  o banho de lua. Foi quando chegou Cazuza para fazer parte do show. Antes de dar  um mergulho, cantou: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”.

Nunca me senti tão tamoio quanto nesse fim de tarde, início de noite nas  pedras mágicas do Arpoador. Fonte: O Globo

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1 Comentários

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Déa Januzzi 1 de março de 2013 - 16:13

Perfeito!!!!!!

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