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A delicada arte de falar da morte para crianças

Por Maya Santana

Ilustração do livro “A cadeira que queria ser sofá"

Ilustração do livro “A cadeira que queria ser sofá”

Muito bom este artigo – “Narrar a morte” – da jornalista e escritora Graça Ramos, postado no blog A Pequena Leitora, que O Globo publica. A autora comenta o surgimento de um grande número de livros infantis tratando de um tema que talvez seja o que mais incomoda o ser humano: a morte. Ao longo de seu texto bem alinhavado, Graça analisa e dá sua opinião sobre algumas das obras que considera mais interessantes.

Leia o artigo:

Fui surpreendida por uma série de livros que tratam da morte. Persistente e pertinente, o tema pontua a tradição literária infantil – é só lembrar quantos personagens dos contos de fadas são órfãos –, mas a coincidência de tantas narrativas articuladas em torno do assunto me fez pensar se as famílias contemporâneas estão deixando que livros respondam às perguntas feitas pelas crianças a respeito do morrer. Se, no passado, a morte era apenas referenciada dentro de narrativas de conteúdo mais amplo, deixando ao leitor o exercício da curiosidade sobre ela, agora parece que há uma necessidade geral de tentar exaurir o tema.

Mesmo sendo temáticas, as narrativas analisadas expõem dificuldades que muitos adultos podem ter ao explicar para uma criança a única experiência inevitável. Como no mundo real, onde cada família constrói uma versão sobre o que é o morrer, a ficção também apresenta cardápio variado de escolhas. Literariamente, algumas obras surpreendem pela vivacidade do discurso, mas de modo geral quase todos os livros avaliados padecem de um problema – que talvez reflita a própria questão dos autores sobre o que abordam – que é o da dificuldade de criar um clímax compatível com o desenrolar da trama.

"Em termos de ilustrações, o mais bonito dos livros examinados"

“Em termos de ilustrações, o mais bonito dos livros examinados”

Um dos textos assemelha-se a manual de autoajuda sobre como preparar crianças para superarem a “partida definitiva” do animal de estimação, sem se referir jamais à palavra morte. Outro apresenta curiosas e afetuosas narrativas centradas no jogo vida-morte, mas, no final, fantasia sobre um não-lugar maravilhoso, nas nuvens, onde impera o acolhimento. Há ainda a retomada de antiga história popular, com a construção de um final onde a morte aparece de maneira abrupta, como na vida real às vezes ocorre, mas que no texto ficou pouco elaborado. Em somente um dos livros, a morte é tratada como algo natural, parte do processo de existir e do deixar de ser, sem possibilidade para o além daqui. Porém, essa história transcorre muito apegada ao real, com reduzidas possibilidades imagéticas.

Abandono – O mais imaginativo dos livros que recebi é A cadeira que queria ser sofá e outros contos (Viajante do tempo), com texto verbal do brasileiro Clovis Levi e visual da portuguesa Ana Biscaia. São três contos que versam sobre o tema com os títulos “Espanto feliz”, “O piano de calda” e aquele que dá nome ao livro. No primeiro, um rei proíbe em seu reino o nascimento, a velhice e a morte. Ao abolir o tempo, a vida se torna insuportável até que ocorrem desobediências, o que me fez recordar o antológico As intermitências da morte, de José Saramago (Companhia das Letras). No segundo, o mais jovem membro de uma família de bombons vê partirem todos os seus familiares, sem consciência de que também o seu fim está próximo. E, no último, uma poltrona narra sua convivência de anos com a dona e aos poucos o leitor vai percebendo o abandono terminal de ambas, que se encontram nas nuvens. Clique aqui para ler mais.

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