A extraordinária Lélia Salgado, por Déa Januzzi

Por Maya Santana
Lélia e o marido famoso são como carne e unha: um se confunde com o outro

Lélia, 66, vive em Paris com o marido Sebastião Salgado, 70

Não perguntem à arquiteta e urbanista Lélia Wadick Salgado, de 66 anos, se ela é mulher do fotógrafo Sebastião Salgado, de 70. Pois ela responderá prontamente: “Ele é que é meu marido”. Nem tentem usar o velho jargão “atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.” Lélia não gosta, porque os dois estão juntos há 51 anos, um ao lado do outro, desde a ideia e as conversas iniciais dos projetos, passando pelo planejamento, elaboração de textos, livros, catálogos e viagens, até o momento consagrado em que Tião, como ela o chama, revela em cliques o dom e o talento de ser quem ele é. Curadora de todas as exposições do marido, ela admite que hoje“a gente não sabe mais quem é quem e quem inventou o que. A gente se ajuda mutuamente.”

Como definiu um ambientalista e amigo chegado do casal. “Mulheres como Lélia não estão por de trás, mas ao lado, como uma parelha que sonha e realiza junto. Como os pássaros que não voam com uma asa só.”

Simples no vestir e no tratar as pessoas, essa mulher que mora em Paris com o marido e os filhos alça voos altos com Sebastião Salgado, pousa junto com ele em terras intocadas e até faz ninho para que ele se recolha quando precisa, como aconteceu depois da realização de Êxodus. De 1994 a 1999, ele viajou para várias partes do mundo e viu coisas que o deixaram muito triste. Sebastião Salgado caiu em depressão depois de sofrer uma carga psicológica brutal ao retratar o trânsito dos refugiados – e chegou até a pensar em abandonar a fotografia, tamanha a descrença no ser humano e nas coisas horríveis que ele é capaz de fazer.

O casal tem dois filhos e vive em Paris há mais de três décadas

Lélia e Sebastião são como carne e unha: um se confunde com o outro

Neste momento, Lélia fez com que o pássaro abatido ressurgisse das cinzas, com uma nova ideia. A de recuperar os mais de 700 hectares da Fazenda Bulcão, em Aimorés, no Vale do Rio Doce, Minas Gerais, onde o marido nasceu e passou a infância. Foram plantadas mais de 2 milhões de árvores. Não só houve a regeneração de todo o ecossistema, mas Sebastião Salgado também se recuperou, floresceu e voou para o projeto Genesis que lhe custou oito anos de trabalho e um longo percurso de 850 mil quilômetros a pé, para descobrir autênticos santuários praticamente intocados – e reafirmar a sua crença no ser humano.

Conhecer essa mulher incomum é um aprendizado. Ela e Sebastião Salgado têm dois filhos: Juliano, de 40 anos, que mora em Berlim, e acaba de receber o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cannes, com o longa-metragem, de 100 minutos sobre o trabalho do pai, intitulado Sal da Terra. O segundo, Rodrigo, de 34 anos, é artista plástico, músico e ensinou Lélia a ser mãe de um filho com síndrome de Down.

Ela confessa que teve até de fazer terapia, “para conseguir manter a cabeça em cima do pescoço. É muito difícil ter um filho que não vai ser igual à maioria. E que a gente nem sabe o que ele vai ser. Mas o que estava destinado a ser uma catástrofe virou uma dádiva,” confessa essa capixaba que nasceu em Vitória, mas vive em Paris desde 1969.

Com os filhos, na Filadélfia, em1993; e o casamento com Sebastião, em 1967

Com os filhos e o marido,em1993; e o casamento, em 1967

Lélia gosta de cozinhar e ri quando dizem que o melhor restaurante de Paris é a casa do casal, onde os dois recebem amigos de todo o mundo. O prato que ela mais gosta de fazer é perna de cordeiro. Mas se define como uma mulher simples. “Não sou nada sofisticada”. Enquanto fala, ela pede licença, retira uma lixa da bolsa e começa a retocar as unhas sem esmalte. “Não uso esmalte porque sou alérgica e as minhas unhas são muito quebradiças.”

Lélia parou de fumar há cinco anos, por causa de uma tosse crônica, mas não se importa de que fumem do lado dela. Ninguém imaginaria que essa mulher que é presidente do Instituto Terra, em Aimorés, diretora da empresa do casal, ainda consegue viajar pelo mundo para fazer a curadoria das exposições.

Uma das atitudes que Lélia mais detesta é ver mulheres sendo tratadas com falta de respeito. E tirou do seu vocabulário a palavra homem para definir o ser humano. Não gosta quando dizem assim: “O homem é o maior produtor de lixo do planeta”. Então, ela pergunta: “E as mulheres não são? Até porque essa palavra homem não quer dizer nem 50% da população masculina. A gente não diz homem para uma criança, mas menino ou menina. Nem para um masculino mais velho que vira senhor. Para mim, ser humano engloba os dois gêneros, todas as idades e todas as raças”.

A escritora e jornalista Déa Januzzi com Lélia

A escritora e jornalista Déa Januzzi com Lélia

Encantada com essa mulher, aprendo que para ela “amizade é a melhor coisa que existe: que amigo é aquele que te aceita como você é e o contrário também. É aquele que a gente pode ficar longe muito tempo e quando volta a se encontrar ainda fala a mesma linguagem”. Sobre o casamento que já dura 51 anos, ela diz que “é construído todos os dias, porque tanto eu como ele, temos defeitos e qualidades.” Mas garante que eles são sócios em tudo, “até nas ideias”.

Envelhecer para ela é “natural. Só o tempo está passando, mas a gente continua igual. Só não envelhece quem morre antes.” E olha que Lélia vive viajando! Hoje, ela está em Belo Horizonte, no fim de semana em Foz do Iguaçu, depois dá uma chegadinha em Paris, monta a exposição ora no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre ou pode estar em Estocolmo daqui a algumas horas e voltar para Aimorés, no interior de Minas, onde recebeu o título de cidadã honorária da cidade. Tudo, tudo em homenagem ao planeta. Se as fotos de Sebastião Salgado, como ela mesma define, são “uma orgia da beleza”. Lélia é parte da natureza humana preservada, em toda a sua plenitude!


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10 Comentários

djeison 12 de março de 2017 - 22:21

que louco isso ne

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MaGrace Simão 1 de setembro de 2014 - 16:59

Eu não uso mais a expressão “SER HUMANO”. Como somos animais, uso sempre, espécie humana. Eu não conhecia Lélia, só o Sebastião. Assisti a uma entrevista no Roda Viva da TV Cultura e até passei um comentário. Foi uma dos melhores a que assisti no canal. Mas pela entrevista daqui, é é um exemplo para essa espécie humana, que às vezes provoca a sensação de que está se deteriorando. Salva-se um ou outro, como Lélia e a jornalista Déa, com seu texto primoroso e sensível.

MaGrace Simão

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nenezrick 13 de agosto de 2014 - 22:39

muito interessante!

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lisa santana 9 de junho de 2014 - 16:17

Bingo, Déa!!! Adoro os dois! Acho-os o exemplo acabado de seres humanos adultos. Raro, né?
Adorei!!!

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Beatriz Lima 8 de junho de 2014 - 01:33

Déa, deve ter sido uma delícia conhecer Lélia. Uma mulher, simples assim, que contribuiu e partilha o trabalho fabuloso do marido. Do meu lado, fiquei surpresa desta mulher ficar tanto tempo longe de seus olhos, Déa.Você e Lélia fazem parte de um mundo que gosto demais, onde as mulheres não têm que se preocupar com o sucesso do companheiro. Pode fazer o que quiser, até mesmo ser a mestre de cerimônia, a inspiração, a relações públicas, e artista escondida atrás da lente do grande Sebastião Salgado. Grande Lélia. Parabéns Déa pela entrevista.

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sirlene pereira dos santos gonçalves 8 de junho de 2014 - 00:49

Fico feliz de saber que esse lindo casal caminha lado a lado tantos anos,eu nasce em Mutum são cidades vizinhas, foi um imenso prazer ler esse artigo simples mas com conteúdo grandioso e verdadeiro como as fotografia de Sebastião Salgado “Parabéns.

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Dirce Saleh 7 de junho de 2014 - 18:50

Uffffffff!!! Déa Januzzi, deixou me de cabeça oca… Aqui não cabe mais nada de belo….Hoje.
Lélia, melhor chamá-la assim, não corremos o risco de cometer” gaffe” extraordinária!!!
Seu texto tem partes que nos engasgamos, espetacular, amiga.
Tem muito para retirarmos para nossa vivência. Os conceitos que ela tem formado, se algumas vezes as duras penas, valeram Podemos fazer uma antologia de vanguarda. Pois dicionário seriam definições .E conceitos são concepções internas…Vivenciadas.
Não é atoa que adoro” te “ler rsrsrsrs Você faz furos de reportagem e essa matéria , arrasou. Parabéns…Tiro o chapéu e não te chamo de” mulher”,menina rs! Bjs Dirce Saléh

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Liliane Tanure 6 de junho de 2014 - 22:48

Dea,

tão lindo como o jeito de ser e de pensar da Lélia, assim é o seu texto (como sempre).
Parabéns!!! Bjs

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mary 6 de junho de 2014 - 21:44

Pessoas são espelho, estes são mais que isto, nos provocam o bem, o bem fazer. E você Déa, tem a sensibilidade de pinçar estas pessoas. Quando todo mundo fala apenas do Tião, você vem e nos mostra a Lélia, seu humano tão grandioso quanto o marido.

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Alda Cordeiro Cunha 6 de junho de 2014 - 16:11

Déa Januzzi, também te felicito pela reportagem maravilhosa sobre Lélia Salgado. Tinha assistido um programa referente ao Sebastião (que eu já admirava muito pelo seu trabalho) agora então sabendo que mulher fantástica que ele tem e que você soube tão bem descrever.

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