
Ricardo Bastos
50emais
É preciso empurrá-la devagar, levantar um pouco do lado esquerdo e depois insistir com delicadeza, como quem convence uma criança teimosa a dormir. Qualquer visita percebe. Qualquer marceneiro resolveria em meia hora.
E, no entanto, ela continua assim.
Durante muito tempo achei que aquilo era desleixo. Um pequeno fracasso doméstico me observando todos os dias entre os talheres e os panos de prato.
Até perceber que a gaveta envelheceu conosco.
A vida adulta começa com uma obsessão curiosa pela perfeição. Queremos a casa impecável, os móveis intactos, as contas em ordem, os filhos comportados, os planos funcionando como previsto. Gastamos anos apertando parafusos invisíveis da existência.
Depois de certa idade, alguma coisa muda.
Não de uma vez. Não dramaticamente. Apenas começamos a aceitar pequenas imperfeições sem transformá-las em tragédia.
A cadeira ganha um risco. A toalha favorita desbota. O carro faz um barulho misterioso que nunca vira oficina. O relógio antigo para de funcionar, mas continua no mesmo lugar da estante porque já deixou de marcar horas para marcar lembranças.
Talvez amadurecer seja isso: aprender a distinguir o que realmente precisa de reparo do que apenas adquiriu história.
Minha mãe tinha um armário assim. A porta fechava torta desde que me entendo por gente. Meu pai prometia consertar no fim de semana. Nunca consertava. Hoje, entendo que o armário daquele jeiro já fazia parte da família.
Curioso como algumas coisas só envelhecem quando tentamos substituí-las.
Há também uma espécie de cansaço honesto na maturidade. Não aquele cansaço triste, mas aquele que, finalmente, nos livra da ilusão de controlar tudo. Descobrimos que certas rachaduras não ameaçam a estrutura da vida.
Ao contrário. São elas que humanizam a casa.
Outro dia, enquanto tentava fechar a gaveta rebelde, pensei em quantas versões de nós mesmos passaram por aquela cozinha. Os filhos pequenos correndo pela casa, as contas apertadas do começo da vida, os almoços de domingo, as discussões bobas, os silêncios difíceis, as noites felizes.
A gaveta viu tudo. E talvez seja por isso que nunca mais tivemos coragem de trocá-la.
Porque alguns objetos deixam de ser objetos. Tornam-se testemunhas.
Hoje, quando ela emperra, já não sinto irritação. Sinto quase ternura. Como acontece com nossos joelhos, nossas fotografias antigas e certos amigos que repetem as mesmas histórias.
A verdade é que passamos metade da vida querendo renovar tudo.
Até descobrir que algumas coisas merecem apenas continuar conosco, exatamente como são.
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