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“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer”

Por Maya Santana

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural

Maya Santana, 50emais

Há poucos dias, publiquei aqui uma crônica da jornalista e escritora Marina Colasanti – Uma delicada reflexão do que significa chegar aos 80 anos – falando de suas oito décadas de vida. Volto à escritora para apresentar, a quem ainda não conhece, naturalmente, este lindo texto sobre a passagem do tempo e a nossa resignada aceitação do que a vido nos impõe. Marina Colasanti é uma escritora consagrada, que já publicou 50 livros.

Leia:

“Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.)

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7 Comentários

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Raquel Z. M. Silveira 2 de janeiro de 2019 - 02:20

Sou uma mulher que com meu temperamento nunca poderia viver nesta situação , moro em Florianópolis cidade linda e acolhedora . Tenho uma cása na de frente para o mar em uma praia linda ,minha cidade fica em uma ilha maravilhosa . Sou uma vovó com 80 anos tenho muita saúde vivo minha vida alegre e feliz somtenho falta de meu marido que faleceu a 30 anos evite hije sinto sua falta , éramos muito felizes . Vivo minha viva um dia após o outro , viajo bastante . Sou sua leitora assídua , um abraço co carinho !

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Ceci 2 de janeiro de 2018 - 09:53

Eu não me acostumo. ..Posso até aceitar por um determinado tempo. Mas assim que posso viro o barco..Estou indo virar o barco novamente neste 2018

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Vilma freire 2 de janeiro de 2018 - 09:33

Que texto mais verdadeiro !
Não deveríamos nos acostumar tanto !…

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Norma Fernandes 3 de novembro de 2017 - 16:47

Verdade….. a vontade é de deixar tudo pra trás, poder viver numa casinha com varanda e jardim, fazer uma horta e principalmente fazer meu artesanato – patchwork – mas não………. estou aqui nessa loucura de São Paulo, tentando ganhar o Cliente na “unha” ….. e pra que tudo isso ? Pra nada…….. ahhhhhhhh se eu pudesse deixar essa loucura de vida ………

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Mirian 29 de outubro de 2017 - 17:27

Sou eu aí no texto! Apenas eu!

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Rita 21 de outubro de 2017 - 21:33

Quantas verdades!!! Eu agora, depois dos 50… não “me acostumo” a mais naaaada que não me convenha!!! Tô chutando o pau da barraca!!!

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Cris Campos 16 de janeiro de 2018 - 23:14

Nem eu! Somos duas!

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