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História de 4 presos políticos: exposição imperdível

Por Maya Santana

O cartaz da exposição, com as fotos de e Maria Auxiliadora Barcellos

Chael Charles Schreier e Maria Auxiliadora Barcellos

Fui esta semana à abertura de uma exposição no Rio que recomendo muito. Quem puder não deve perder: “Arquivos da Ditadura”, que tem curadoria da professora da UFRJ e cineasta Anita Leandro, e de Leandro Pimentel. A exposição é pequena, mas extremamente impactante, porque reconstitui a vida de quatro jovens que sofreram na pele toda a brutalidade da tortura praticada durante o regime militar, instalado no Brasil através de um golpe, em 1964. O sonho desses três rapazes e uma moça de mudar o país transformou-se em algo muito, muito mais aterrador do que um pesadelo pode ser. Em setembro, também será lançado um documentário sobre o assunto, da professora Anita. Tanto o filme como a exposição são o resultado de uma parceria entre UFRJ e a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no âmbito do projeto “Marcas da Memória”.

Leia o artigo de Thais Lobo, publicado pelo Globo a Mais:

Quando foi apresentado às fotografias, Antônio Roberto Espinosa sequer lembrava dos registros. Daquele dia, a memória do então comandante nacional do grupo político VAR-Palmares, o mesmo em que atuou a presidente Dilma Rousseff, só guardara as horas sob o jugo de torturadores, primeiro no Dops da Guanabara e depois na Vila Militar do I Exército, no Rio. A documentação, reunida pela cineasta Anita Leandro, reconstrói o passado de prisão, exílio e morte de quatro presos políticos na ditadura militar: Espinosa, Maria Auxiliadora Barcellos, Chael Charles Schreier e Reinaldo Guarany.

— Eu não me lembrava dessas fotos que foram feitas num momento conturbado, no meio das torturas. Fomos presos às 21h30m e transportados para o Dops. Como já era tarde, o fotógrafo tinha ido embora e fomos levados de imediato para as câmaras de torturas. As fotos devem ter sido tiradas algumas horas depois — lembra Espinosa. — Às vezes você mesmo duvida da sua memória. Aconteceu mesmo? Não é um filme? Como aguentei aquilo? E de repente um documento prova para você mesmo que viveu a verdade dos fatos.

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Maria Auxiliadora, a Dora: trágico desfecho

As histórias dos quatro personagens são tema do documentário “Retratos de identificação”, a ser lançado no próximo 12 de setembro em parceria com Comissão de Anistia do Ministério da Justiça na exposição “Arquivos da ditadura”, em cartaz a partir desta quarta-feira no Centro Cultural da Justiça Federal. Filmado pela primeira vez, o acervo sob a guarda do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro trouxe à tona a noite do dia 21 de novembro de 1969, juntamente com os depoimentos dos sobreviventes. Naquele dia, Espinosa foi preso numa casa no Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio, com sua companheira Maria Auxiliadora, a Dôra, e Chael, estudante de medicina na Santa Casa de São Paulo até entrar para a luta armada. Os três foram levados para o Dops da Guanabara e depois para a Vila Militar do I Exército, onde acabaram barbaramente torturados. Chael morreu após uma noite de violência, evidenciada no próprio laudo de necrópsia do Hospital dos Servidores do Exército, o que fez de sua morte o primeiro caso de tortura documentado no regime militar.

Apesar das provas, o inquérito policial, assinado pelo então capitão do Exército Celso Lauria, sustentava que o jovem morrera em decorrência de ferimentos no combate que se deu no momento da prisão. Um documento encontrado por Anita, entretanto, reforça o laudo: uma fotografia feita na chegada ao Dops mostra Chael nu da cintura para cima sem qualquer ferimento. Na mesma sequência de fotos, Espinosa aparece já com a orelha sangrando, resultado dos chamados golpes “telefone” que sofreu nas primeiras horas de prisão.

— Foi uma pancadaria incessante no Dops. Voltei a vê-los por volta das 4h, quando nos colocaram num único camburão algemados para a transferência para a Vila Militar. Ali percebemos que o Chael não estava bem. Confuso, com dificuldade para falar — relembra Espinosa. — Não foi apenas a tortura que ele havia passado. Todo o tempo no aparelho ele foi submetido a um regime brutal. Ele era gordinho e com cerca de 130kg seria facilmente reconhecido. Era quase impossível ser clandestino. Ele comia duas folhas de alface por dia e só tomava água. Perdeu mais de 40kg em um mês. Com isso, estava fisicamente debilitado. Clique aqui para ler mais.

Veja a reportagem da Globonews sobre a exposição:

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