
Ricardo Bastos
50emais
Outro dia, durante um almoço, alguém fez um comentário com o qual eu discordava bastante. Em outros tempos, provavelmente teria interrompido a conversa, apresentado meus argumentos e passado os minutos seguintes tentando demonstrar por que aquela opinião não fazia sentido.
Dessa vez, continuei almoçando. A pessoa percebeu meu silêncio e perguntou se eu não ia responder. Disse que não. Ela pareceu surpresa. Eu também fiquei um pouco, porque durante muitos anos deixar uma provocação passar me dava a estranha sensação de ter perdido uma discussão que nem sequer havia começado.
Não sei exatamente quando isso mudou. Talvez tenha acontecido aos poucos, depois de muitas conversas que terminaram sem convencer ninguém. Discussões no trabalho, em família, entre amigos, no trânsito, em restaurantes. Algumas importantes. Outras que, poucas horas depois, já não mereciam nem ser lembradas.
Discordar faz parte da convivência. E ainda bem. Algumas das melhores conversas que tive começaram com alguém dizendo que eu estava errado. Ouvir uma opinião diferente pode nos obrigar a rever certezas, procurar argumentos melhores e, eventualmente, reconhecer que o outro tinha razão.
O problema começa quando a conversa deixa de ser uma troca. Um fala enquanto o outro prepara a resposta. Depois trocam de posição. Ninguém escuta muito, ninguém muda de ideia e os argumentos vão ficando mais duros à medida que desaparece qualquer possibilidade de entendimento.
Com o tempo, comecei a reconhecer essas conversas mais cedo. Há discussões em que duas pessoas tentam compreender uma à outra. Em outras, cada uma procura apenas uma oportunidade para vencer. As primeiras ainda me interessam. Para as segundas, confesso que tenho cada vez menos disposição.
Talvez isso tenha alguma relação com a idade. Quando somos mais jovens, parece haver tempo de sobra para defender todas as nossas convicções. Com o tempo, começamos a perceber que uma discussão não consome apenas os minutos em que acontece. Às vezes, ela nos acompanha pelo resto do dia.
Isso não significa que eu tenha aprendido a ficar calado. Continuo entrando em discussões desnecessárias, respondendo ao que poderia ignorar e lembrando, horas depois, daquela resposta perfeita que deveria ter dado. A idade pode melhorar o discernimento, mas não faz milagres.
Também desconfio da ideia de que evitar conflitos seja sempre sinal de maturidade. Há silêncios confortáveis demais. Diante de uma injustiça, de uma humilhação, de um preconceito ou de algo que fere aquilo em que acreditamos, não responder pode ser apenas uma maneira conveniente de não nos incomodarmos.
Escolher melhor as brigas, portanto, não significa desistir delas. Talvez signifique exatamente o contrário. É deixar de gastar energia com disputas pequenas para conservar disposição diante daquilo que realmente merece ser enfrentado.
Foi nisso que pensei naquele almoço. Eu poderia ter respondido. Conhecia o assunto, tinha argumentos e sabia exatamente o que diria. Mas também conhecia aquela pessoa e já conseguia imaginar onde estaríamos depois de meia hora de discussão. Provavelmente no mesmo lugar.
Continuei almoçando e o assunto mudou. Ninguém venceu, ninguém perdeu e, alguns minutos depois, estávamos descontraidamente falando de outra coisa. Curiosamente, minha opinião continuava exatamente onde estava, mesmo sem ter sido anunciada.
Talvez essa seja uma das liberdades que chegam com o tempo. Descobrir que não precisamos corrigir todas as pessoas, responder a todas as provocações nem defender cada opinião como se nossa identidade dependesse dela.
Há discussões das quais vale a pena sair. E há outras nas quais ainda precisamos ter coragem de entrar. A dificuldade, em qualquer idade, continua sendo saber a diferença.
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