A militante acidental pelo direito das grisalhas

Por Maya Santana
Apesar da pressão , algumas mulheres assumem o grisalho

Apesar da pressão , algumas mulheres assumem o grisalho

Fazendo a minha ronda matinal pelos jornais e revistas em busca das notícias do dia me deparei com este artigo da jornalista Silvia Salek, com quem tive a alegria de trabalhar na redação da BBC Brasil, em Londres.  No artigo, Silvia comenta o verdadeiro assédio sofrido toda vez que vem ao Brasil, porque seus cabelos já estão mostrando as primeiras mechas brancas, embora tenha apenas 38 anos. As amigas, conhecidas e até as desconhecidas fazem todo tipo de pressão para que cubra com tinta as mechas grisalhas. Valentemente, ela resiste, como conta neste ótimo artigo, publicado no blog da Ruth, revista Época:

Nunca fiz o tipo militante, mas, quando vou ao Brasil, me sinto obrigada a sacar uma foice e um martelo em defesa da praticamente inexistente categoria das grisalhas. Aonde vou, me deparo com alguma amiga, parente, cabeleireira ou mesmo desconhecida querendo fazer a minha cabeça em uma espécie de missão evangelizadora.

Já ouvi de tudo. Tem o falso: “Mas no seu cabelo nem dá para notar” que, em seguida, se encaminha para uma conversa sobre as vantagens da henna. Tem o impaciente, quase sacando uma tinta da bolsa: “Mas você está muito nova para deixar o cabelo branco!” Tem o utilitário: “Anota aí, é o tonalizante 457 da marca X, perfeito para seu cabelo, sem amônia”. Tem o ‘mulherzinha’: ‘Mulher tem que se cuidar, parece desleixo’. E o revoltado, já quase me acusando de comer criancinhas: ‘Dá impressão de falta de higiene, tem aspecto de sujo…”

Silvia Salek, jornalista, há mais de uma década moradora de Londres

Silvia Salek, jornalista, há mais de uma década moradora de Londres

Sei que a intenção é ‘boa’, mas não entendo por que meus cabelos brancos causam tanta reação. Será que fazem as pessoas questionarem os seus próprios padrões? E não tenho para essa gente uma resposta daquelas bonitas, bem articuladas que, se viessem em vídeo, seriam compartilhadas por milhões. Nunca me olhei no espelho e, em um brado desafiador, declarei que meu cabelo não levaria um pingo de tinta em nome de alguma causa.

E até há causas dignas. Às vezes, saco uma da bolsa como que para repelir um mosquito. É quando me transformo em uma espécie de militante acidental. Tem o argumento da igualdade entre os sexos, por exemplo. Quem disse que o homem fica ‘charmoso’ e a mulher, ‘bagulho’? Tem a ‘pegada’ orgânica contra os produtos químicos das tintas que poluem corpos e oceanos. Tem a luta contra a discriminação da terceira idade. Tem a guerra contra a padronização consumista da beleza ou contra a invencível luta para mascarar os sinais do tempo. Mas, na verdade, não abraço nenhuma dessas causas. Os brancos foram simplesmente acontecendo na minha vida.

Não queria recorrer àquele Atlas que diz que tudo do ‘Primeiro Mundo’ é melhor – porque realmente não é assim -, mas, nesse caso, viver na Inglaterra ajuda (ou foi o que me ‘estragou’, diriam alguns). Estou longe da ‘patrulha da beleza’ com seu olhar de raio-X que detecta em milésimos de segundos ‘progressiva’ barata, ‘californiana’ mal-feita, modelo ultrapassado  de bolsa chique e mais uma penca de besteiras, tipo a diferença entre um Black Satin 219 ou um Black Brown 94.  Clique aqui para continuar a ler.


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4 Comentários

Marco Oliveira 9 de janeiro de 2017 - 05:23

Parei aqui por acaso, e extemporaneamente. Homem, 60 anos, geração contra-cultura, sempre gostei tanto do natural (já fiz campanha para minhas mulheres deixarem todos os pêlos intactos) como do retocado pela vaidade feminina, não pelo resultado visual, mas pelo espetáculo, admirável, que é a vaidade feminina, que ao contrário da masculina, raramente é narcísica, mas uma forma de expressão, de arte. Entre homens há poucas culturas que ainda são assim, de beleza masculina não narcísica. Eu infelizmente não sou. Tenho impressão que os italianos já o foram, há pouco tempo, mas hoje, no mundo ocidental e africano, só os negros. Talvez orientais a quem não conheço. Alberto da Costa e Silva, diplomata e africanista brasileiro, se declarou envergonhado de sua pobreza ocidental ao apresentar suas credenciais diplomáticas em países africanos a homens maravilhosamente vestidos. Eu, como acho também dele, não sou admirador da estampa masculina, mas sou, ou somos, admiradores da inteligência, a qual só se percebe pela linguagem, inclusive da apresentação pessoal. A elegia da “frugalidade”, inicialmente masculina e posteriormente feminina, é um preceito burguês de caráter produtivista do século 19, uma estética calvinista, tão boa quanto são as culinárias inglesa e norte-americana. Reprimir a auto-satisfação é tão estúpido, desculpe-me o termo, quanto obrigá-la a quem não a deseja, e cada um tem seus próprios motivos, variadíssimos, para escolher uma ou outra. Como apreciador da cultura pop sou grande admirador de vários tipos de moda, como as coisas fantásticas que adolescentes, especialmente japonesas, estão fazendo. Penso como Camille Paglia ou a declaradamente puta Gabriela Leite, que o feminismo tornou-se um tipo de fascismo, repressor, e, se o objetivo é repressão, o alvo preferencial é a mulher, já que os altos níveis de testosterona masculina só podem ser contidos pela castração, física ou, como atualmente, química, pela administração de estrogênios sintéticos, dos quais apenas se conhece, pouco, o BPA, Bis Phenol A. Qualquer pessoa deve poder ser como queira e acho que está já passada a hora das mulheres denunciarem seu próprio machismo. Silvia Salek me parece uma de tantas vitorianas, de tantas colonizadas brasileiras, não uma libertária. Já defendeu os direitos sexuais, de prazer das mulheres? Do que sei dela só defende a “frugalidade” sexual inglesa, gente reconhecidamente inepta e infeliz em sexo.

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Marco Oliveira 11 de janeiro de 2017 - 04:48

Só a conheço pela imprensa. Para evitar mal-entendidos.

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Maria das Dôres de Melo Tavares 20 de junho de 2014 - 23:55

Também sofro esse quase preconceito, por permanecer com meus cabelos grisalhos. Há aqueles que dizem¨cabelos brancos em homens é charme, em mulher é desleixo¨ .Tudo bem, Não abraço nenhuma causa,simplesmente não me incomodo.

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KISLA DELCY SCHMIDT DOS SANTOS 20 de junho de 2014 - 00:22

OI tenho 50 anos , nunca fiz nenhum tratamento químico no meu cabelo .Meu cabelo é longo, crespo e grisalho .Então você imagina a pressão que sofro. Jamais posso ter um cabelo assim não combina com a minha idade.Ora afinal o cabelo e meu eu faço o que quero .Não preciso agradar as pessoas. Hoje eu dou risadas, afinal palpite e o que mais ouço .Vou assumir os grisalhos ,levei tando anos para eles aparecerem porque agora tenho que esconder, afinal faz parte do processo de vivencia ,quando mais tempo vou viver mais vai aparecer .BJOS

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