A mulher madura

Por Maya Santana
Atriz grega que se tornou política Melina Mercouri

Atriz grega que se tornou política Melina Mercouri

Escolhi a foto de Melina Mercouri para ilustrar esta crônica de Affonso Romano de Sant’Anna sobre a mulher que já passou da mocidade. Melina, que ele cita no texto, foi uma atriz, cantora e ativista política grega. Foi deputada e, em 1981, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Cultura na Grécia. Tinha uma beleza estonteante. Morreu em 1994, em Nova York, aos 74 anos de idade.

Leia a crônica:

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
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1 Comentários

MARA RENEE BUZAHR FONTES BARRETO 31 de março de 2014 - 19:47

Linda página!! Me identifiquei demais com s as reportagens e entrevistas, de um assunto que é voltado para mulheres amadurecidas .

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