fbpx

A obsessão pela bunda

Por Maya Santana

As polêmicas camisetas que a Adidas estava vendendo nos Estados Unidos

Camisetas com conotação sexual vendidas pela Adidas nos EUA

Há alguns anos, eu ainda morava na Inglaterra, desembarquei em Lisboa para uma semana de férias. Mal saí do avião e entrei no aeroporto, fiquei chocada com os cartazes que vi: em todos eles, variando uma coisinha ou outra, havia uma bunda enorme em verde e amarelo convidando os portugueses a visitar o Brasil. Indignada, perguntei a um português se não achava a campanha de muito mau gosto, desrespeitoso com as brasileiras. E ele me disse sem meias palavras: Esta é a imagem que as brasileiras têm aqui. O tempo passou e a gente vê que nada mudou, porque a nossa imagem deformada lá fora é projetada de dentro do Brasil. Basta ver uma campanha recente da Ong Rio Eu Amo Eu Cuido. Agora, são as camisetas vendidas pela Adidas nos Estados Unidos.

Leia o artigo de Ruth Aquino, na Revista Época:

Até pouco tempo atrás, não se podia escrever bunda na imprensa. Ela não era vista com bons olhos. A bunda sim, mas a palavra não. Virava “bumbum’”ou, pior a meu ver, “traseiro”. Eu me recusava a escrever “nádegas”, palavra que contraria qualquer estética… Soa mal, é despida de carinho.

Aprecio uma bela bunda. De mulher ou de homem. Acompanho com os olhos e admiração genuína a moça que dança a caminho do mar, o rapaz que joga futevôlei com graça e virilidade. Observo a harmonia do corpo proporcional, a postura elegante, o andar sensual e, claro, essa observação é 3D, 2.0, de frente e de costas. Mas o fio dental ainda é uma das invenções mais vulgares de nossa praia.

Uma campanha mais do que equivocada

Uma campanha mais do que equivocada

Dito isso, acho vergonhoso o uso do glúteo feminino brasileiro como artigo turístico para atrair estrangeiros infelizes que sonham com o sexo tropical – às vezes pago, às vezes não. O Carnaval e a Copa do Mundo são chamarizes para bandos de homens de fora. A propaganda da bunda é um recurso empobrecedor, misógino e perigoso. O turismo sexual é uma tragédia no Brasil. Interrompe a infância e a inocência de milhares de brasileirinhas e, especialmente no Norte e Nordeste do país, é uma praga social de dimensões ainda desconhecidas e acobertadas. Muitas famílias exploram suas meninas-moças para colocar comida na mesa.

Na semana passada, causaram furor duas camisetas da Adidas, marca alemã de material esportivo e uma das patrocinadoras da Copa. Numa camiseta, o coração verde-amarelo foi transformado numa bunda de biquíni, de cabeça para baixo. Noutra, mais sutil, a moça de biquíni, com o Pão de Açúcar ao fundo, lançava o convite “looking to score”, que associa “fazer gols” a “se dar bem” e “pegar mulher”.

A resposta do Planalto à Adidas foi uterina. A Secretaria de Direitos Humanos publicou uma nota de repúdio à “confecção de camisetas com ilustrações de cunho sexual, associado às cores e aos símbolos do Brasil”. A presidente Dilma Rousseff publicou em seu perfil no Twitter: “O governo aumentará os esforços na prevenção da exploração sexual de crianças e adolescentes no #Carnaval e na #CopaDasCopas”.

A Embratur se insurgiu contra os alemães da Adidas. “Não aceitaremos que a Copa seja usada para práticas ilegais”, afirmou Flávio Dino, presidente da Embratur. “Exigimos que a Adidas ponha fim à comercialização desses produtos. Lembramos que no Brasil há leis duras para reprimir abusos sexuais, e as polícias atuarão nesses casos no território nacional.” Clique aqui para ler mais.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

três × um =