
Ricardo Bastos
50emais
Encontrei uma amiga que não via havia alguns meses. Abraço, dois beijos, aquelas perguntas que usamos para colocar a conversa em dia. “E você, está bem?” “Estou.” Continuamos falando. Ela perguntou dos meus filhos, eu perguntei dos dela. Falamos do preço das coisas, de uma viagem que não aconteceu, de conhecidos em comum. Rimos de uma história antiga. Depois nos despedimos.
Só mais tarde pensei naquela resposta. “Estou.” Não havia nada de errado nela. Talvez estivesse mesmo. Mas percebi como nos acostumamos a fazer perguntas cujas respostas quase nunca estamos preparados para ouvir. “Tudo bem?” virou cumprimento.
Perguntamos enquanto olhamos o celular, fechamos a porta do carro, esperamos o elevador ou procuramos a chave dentro da bolsa. E quem responde também aprendeu o ritual. “Tudo.” A vida adulta nos treina para parecer capazes.
Depois dos 50, então, carregamos uma espécie de currículo invisível de sobrevivência. Já enfrentamos perdas, separações, doenças na família, dificuldades financeiras, filhos crescendo, pais envelhecendo, mudanças no trabalho e algumas despedidas que ninguém viu.
Sobrevivemos a tanta coisa que, em determinado momento, os outros passam a acreditar que sobreviveremos a qualquer coisa. Nós também. Talvez por isso seja tão difícil dizer uma frase simples: “Não estou bem.”
Não estou falando da tristeza de uma tarde ruim. Nem quero transformar todo silêncio em sinal de perigo. O sofrimento humano não cabe em diagnósticos improvisados, e ninguém deveria sair examinando amigos e parentes como se tivesse recebido um diploma de psicologia pela internet.
Falo de outra coisa. Da nossa dificuldade de admitir fragilidade. Há pessoas que sabem pedir dinheiro emprestado, mas não sabem pedir companhia. Outras contam em detalhes uma dor no joelho e escondem durante meses uma angústia que não conseguem explicar.
Há quem continue trabalhando, cuidando da casa, fazendo supermercado, respondendo mensagens e comparecendo aos aniversários enquanto trava batalhas que ninguém conhece. Por fora, a vida segue funcionando. Talvez seja essa a parte que mais confunde.
Imaginamos que o sofrimento sempre chega fazendo barulho. Nem sempre. Setembro ganhou a cor amarela para lembrar da prevenção ao suicídio. O dia 10 é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a própria campanha chama atenção para algo: falar sobre sofrimento e procurar ajuda não deveriam ser motivos de vergonha.
Não precisamos transformar cada conversa em sessão de terapia. Amigo não substitui psicólogo, família não substitui psiquiatra e boa vontade não substitui atendimento profissional quando ele é necessário. Mas podemos fazer uma coisa muito mais simples. Podemos perguntar de verdade. “Como você está?”
E permanecer ali alguns segundos depois da pergunta. Sem completar a resposta pelo outro. Sem correr para contar uma experiência parecida. Sem dizer que vai passar, que é preciso ter fé, pensar positivo ou lembrar que existem pessoas em situação pior.
Às vezes, escutar é resistir à tentação de consertar. Também podemos aprender a responder de verdade. “Hoje não estou bem.” Talvez a maturidade não esteja apenas em suportar melhor os pesos da vida. Pode estar também em reconhecer quando um deles ficou pesado demais para carregar sozinho.
Desde aquele encontro, tenho tentado prestar mais atenção às perguntas que faço. Porque descobri que “você está bem?” pode ser apenas uma gentileza automática. Mas pode ser também uma porta, se tivermos tempo para esperar que alguém decida abri-la.
Nota de serviço: Quem estiver em sofrimento pode procurar uma Unidade Básica de Saúde, CAPS, UPA, pronto-socorro ou outro serviço da rede de saúde. O Centro de Valorização da Vida, CVV, oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situação de risco imediato, a orientação do Ministério da Saúde é buscar atendimento de emergência, inclusive pelo SAMU, no 192.
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