
Miriam Moura
50emais
Há poucos dias, em São Paulo, tive a oportunidade de vivenciar uma experiência tão gratificante como reveladora. Um amigo havia me alertado para não deixar de ir ao Instituto Tomie Ohtake ver “Glissant”. Reservei a manhã de domingo para visitar a exposição “A terra, o fogo, a água e os ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant”.
Não exagero ao dizer que foi quase uma espécie de “epifania” artística, tal o impacto que provocou em mim. Segundo o Houaiss, epifania significa “apreensão intuitiva da realidade por algo geralmente simples e inesperado”.
Mas acredito que vocês, querido e querida leitores, devem estar perguntando o que seria um “museu da errância”? Na verdade, são fragmentos da visão do martinicano Édouard Glissant (1928-2011) para o museu do Século 21, que não chegou a ser concretizado.

Poeta, filósofo e romancista, Glissant pensava o espaço de um museu como um arquipélago: “um espaço de rupturas, apagamentos e reinvenções sem síntese forçada”. Simplesmente amei essa ideia e acho que pode ser também uma metáfora de vida. O que é a vida humana senão uma sucessão de rupturas, apagamentos e reinvenções? A provocação em forma de pergunta é minha, resultado de uma das várias sinapses induzidas pela bem-sucedida curadoria da expografia em cartaz em São Paulo.
Assinada por Anna Roman e Paulo Miyada, a exposição dá vida ao pensamento do poeta Glissant, ao imaginar como seria esse Museu da Errância, “em múltiplas camadas e conexões inesperadas entre obras, documentos e paisagens”. As duas ideias-chave que permeiam todo o trajeto da exposição, conceito central da pesquisa de vida inteira do poeta-escritor são “a palavra da paisagem” e “a paisagem da palavra”, criadas a partir da concepção de Glissant de “parole du paysage”. Para ele, a paisagem não é apenas cenário externo, “mas força ativa que molda memórias, gestos e linguagens”.
Além de trabalhos artísticos de obras do acervo pessoal de Glissant, há diversos depoimentos e conversas em vídeos que valem muito ser ouvidos com atenção, pois revelam a riqueza do pensamento desse intelectual incrível.

Uma das frases de Glissant que instiga reflexão mais profunda em tempos de desinformação e alta polarização: “Eu falo com você na sua língua, mas é na minha que entendo você”.
Há na frase acima um oceano de possibilidades para ruídos de comunicação, incompreensões, mal-entendidos, desinformação, rupturas, reconstrução, negociação, afastamentos. É uma fração do imenso legado desse pensador que eu não conhecia, mas já é uma voz em que passarei a prestar muita atenção e dedicar horas de leitura e estudo. Segundo ele próprio ensinou, “a poesia pode ser uma espécie de filosofia da maneira como pensamos”.
Em entrevista ao curador, historiador de arte e diretor artístico da Serpentine Gallery, de Londres, Hans Ulrich Obrist, (registrada no livro “Conversas do Arquipélago”, editora Cobogó), Édouard Glissant aborda o tema da utopia, entre muitos outros.

“Utopia não é um objetivo nem uma meta. Tampouco é um sonho. A utopia é o que nos faz falta no mundo. Nossa utopia é uma busca por interconexão e totalidade, mas de forma que não deixemos de fora nenhum componente do mundo quando pensamos ‘mundo’. Assim, no mundo de hoje, a utopia nunca está completa. É aquilo que falta”.
Gostaria de concluir a coluna com uma defesa-convite por um mundo sinônimo de utopia que seja inclusiva, com interconexão e totalidade, como sonhou Édouard Glissant.

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