
Ricardo Bastos
50emais
Outro dia, um rapaz me pediu um conselho. Não era meu filho, nem sobrinho, nem alguém da família. Era um colega mais jovem, atravessando uma dúvida profissional. Depois de alguns minutos de conversa, perguntou: “Se fosse você, o que faria?”
A pergunta ficou ecoando dentro de mim por mais tempo do que deveria. Talvez porque tenha me feito perceber uma coisa curiosa. Durante boa parte da vida, somos nós que fazemos as perguntas. Procuramos pais, professores, chefes e amigos mais experientes.
Depois, quase sem perceber, algo muda. Um dia somos nós que passamos a responder. Não há cerimônia, aviso ou diploma de experiência. Simplesmente alguém nos procura, senta diante de nós e espera uma palavra que ajude.
Então percebemos que acumulamos algo que não estava exatamente nos planos: tempo vivido. Mas existe uma ironia nisso tudo. Quanto mais a vida passa, menos certezas carregamos. Aos trinta, eu achava que sabia quase tudo. Hoje, desconfio até das perguntas.
A experiência não nos transforma em donos da verdade. Ela nos torna pessoas mais cuidadosas. Aprendemos que cada escolha tem um preço, que quase toda decisão envolve perdas e ganhos e que aquilo que funcionou para nós pode não servir para outra pessoa.
Por isso os conselhos mudam com a idade. Os jovens costumam aconselhar com entusiasmo. Os mais velhos, com prudência. Não porque saibam mais sobre tudo, mas porque já conhecem atalhos e, principalmente, alguns buracos.
Lembro dos conselhos que recebi do meu pai. Na época, muitos pareciam exagerados. Alguns ignorei com a arrogância natural de quem ainda não caiu o suficiente. Outros só fui compreender décadas depois, quando a vida traduziu o que ele tentava dizer.
Talvez os bons conselhos tenham esse defeito: chegam antes da nossa capacidade de entendê-los. Hoje não me lembro das frases exatas que meu pai dizia. Mas me lembro da intenção. Ele não queria controlar meu caminho. Queria apenas iluminar a estrada.
Talvez seja isso que fazemos quando aconselhamos alguém. Não entregamos respostas prontas. Oferecemos luz. Uma pequena lanterna para quem atravessa um trecho escuro. O restante da caminhada continua pertencendo a quem fez a pergunta.
Quando o rapaz terminou de falar, ficou esperando minha resposta. Pensei alguns segundos e disse: “Não sei o que você deve fazer. Mas posso contar o que aprendi quando passei por algo parecido.” Ele sorriu. E eu entendi que talvez ali estivesse o melhor conselho possível.
Os cabelos embranquecem, as certezas encolhem e, sem perceber, nos tornamos aquilo que um dia também procuramos: alguém disposto a ouvir e a dividir um pouco da estrada percorrida.
A maturidade não nos dá sabedoria suficiente para viver pelos outros. Mas talvez nos dê experiência para caminhar ao lado deles por alguns quilômetros. No fim, aconselhar não é decidir por alguém. É dividir um pouco da estrada já percorrida.
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