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Adélia Prado chega aos 80 anos refletindo sobre o mundo

Por Maya Santana

A escritora e poetisa completa 80 anos neste domingo, dia 13 de dezembro

A escritora e poetisa completa 80 anos neste domingo, dia 13 de dezembro

Mariana Filgueiras, O Globo

No dia 9 de outubro de 1975, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica no “Jornal do Brasil” elogiando uma poeta de Divinópolis, professora, mãe de cinco filhos, cujos versos ainda inéditos acabavam de cair em suas mãos: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Era Adélia Prado, que naquele mesmo ano conseguiu publicar o primeiro livro, “Bagagem”. Desde então já lançou outros 15, teve livros traduzidos para o inglês e o espanhol e inspirou um sem-número de teses acadêmicas, trabalhos que costumam tatear a aproximação feminina e religiosa de sua obra.

Às vésperas de completar 80 anos, Adélia ganha nova antologia de sua obra poética na edição de luxo “Poesia reunida” (Record). Para celebrar a data do aniversário, em 13 de dezembro, O GLOBO propôs à poeta que algumas perguntas desta entrevista — na qual se mostra contrária ao movimento feminista que ganha força nas ruas nos últimos meses e, principalmente, contra o aborto — fossem inspiradas em seus próprios versos.

Dói-lhe a cabeça aos 80 anos?

Quando fiz o verso doía mais. Muitas coisas se amansam com a velhice.

A senhora ainda cavuca abacaxis apodrecidos/ como quem procura um veio são?

Cada vez mais. E não só abacaxis. Cavuco mais em mim mesma.

O que ainda vê embaixo da saia da poesia?

O mesmo que vi da primeira vez: sedução, uma promessa fortíssima e maravilhosa de que a vida não morre e o que chamamos beleza. É pálido reflexo das maravilhas que nos aguardam.

Novo livro da poetisa

Novo livro da poetisa

No seu armário há mais tempo ou traça?

O vestido que eu amava virou poesia. Me desfaço com mais facilidade dos meus apegos. Olhar as coisas poeticamente nos ajuda. Elas se vão, fica a poesia, que não morre.

Não é a primeira edição de sua obra completa. Em 1991, você não gostou muito, reagiu como se fosse uma “homenagem póstuma” em vida. E agora, como recebe essa edição?

A primeira coisa que uma obra completa me lembra é: somos mortais. Um copo de plástico dura mais que a mais longa vida. Diferentemente de 1991, quando esperneei um pouco, recebo agora a edição sem estridências, feliz e agradecida. Tem ainda um atenuante joia a meu favor, dois poemas novos. Assim escapo (Adélia preferiu não mostrá-los). Fica mais difícil me tornar veterana. Espero morrer caloura, como sempre me vejo.

Por que a poesia ainda é vista como um patinho feio entre os gêneros literários, principalmente pelas editoras?

A poesia como patinho feio é culpa da nossa “pátria educadora” e de longo tempo, onde a literatura é tratada como descartável. Faz parte do baixo clero das escolas, onde mal vicejam educação artística, religiosa e até educação física. Não merecem participar música, teatro, dança, nada que nos faça descobrir que somos humanos, necessitamos de beleza e transcendência, que precisamos de ar. Antes de nos preocuparmos com a multiplicação de feiras literárias e bienais, urge cuidarmos do feijão com arroz do estudo básico, que só acontece no primário bem feito. Ler, escrever, interpretar.

A senhora melhora quando chove?

Sim. Fico adolescente, ornada de tanajuras.

Navios ou caligrafia alheia: o que ainda lhe causa grande admiração?

Navios, aviões, não me canso de vê-los. Como é possível que naveguem e voem?

No poema “Deve ser amor” a senhora escreve que “É preciso fé/ até para cortar as unhas”.

Sem fé não se corta unhas, não se toma banho e não se peleja. No piquenique dificultoso da vida há muita beleza e alegria. O caminho é áspero e perigoso, com pousadas incríveis. Clique aqui para ler mais

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1 Comentários

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lisa santana 10 de dezembro de 2015 - 09:29

É bonito ver o tempo, a vida no rosto e nos poemas de Adélia Prado, por quem nutro profundo respeito e admiração. Grande Adélia. E concordo que a educação básica é a que se deveria dar primazia. Mas não gosto de pensar no governo decidindo pelo cidadão sobre qualquer questão concernente à livre liberdade de pensamento ou ação.A ditadura nos provou isto. Dê direito à boa educação e consciência e deixe que as pessoas, adultas, façam suas escolhas. Só assim, para mim, atingiremos a maioridade como adultos e seres humanos que somos.Por mais que doa. No mais, vida longa à Adélia! Quanto aos seus poemas, estes atravessarão o tempo.

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