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Adélia Prado: "Senhor, tende piedade de nós"

Por Maya Santana

A nossa grande poeta aos 78 anos de vida

A grande poeta,78, vive no interior de Minas – Fotos: Nélio Rodrigues


Déa Januzzi
Sabe aquela sensação de vazio insuportável? De descrença, de desamparo e de orfandade? De ser orfã adulta de pai, de mãe, de estado, de religião, de que a esperança foi pisoteada, de que a justiça se escondeu em algum lugar impossível de se achar? Sensação de desilusão, de que tudo que ela lutou para conquistar, esteja sofrendo da doença incurável do retrocesso, que há um clima de atraso, de anteonetem das coisas? Que não há mais exemplos a seguir, de que não há mais mestres nem ídolos, aqueles que a ensinaram valores humanos universais. Aquela sensação de que os jovens hoje estejam abraçando projetos de morte e não de vida? De que não há saída, para onde fugir?
Foi com esse sentimento que ela e mais duas amigas entraram na enorme fila, de dobrar quarteirões no teatro Sesiminas, no Bairro São Lucas, Região Leste de Belo Horizonte, para ver, ouvir, admirar a poesia de Adélia Prado, que estava lançando o novo livro: Miserere. Quer nome mais apropriado para o momento que estamos vivendo? Piedade. A tradução do latim para o português de miserere nobis é tende piedade de nós.
Teatro lotado, transbordando pelos corredores, com o mesmo tanto de gente do lado de fora, na esperança de conseguir um lugar, que Adélia Prado, de 78 anos, entrou no palco para o projeto Sempre um papo. Parece que ela estava lendo os pensamentos da plateia, pois pegou o microfone e falou da sua desilusão: “Ando triste, deprimida com a situação deste país. Sinto um peso, uma dificuldade de sair de casa, mas quando vejo tanta gente reunida para um sarau de poesia considero um milagre. Pois a poesia é serva da esperança.”
Citou um livro A tranparência do mau, que é uma espécie de profecia sinistra para o mundo e para o Brasil, pois “em todas as instâncias da experiência humana, seja na família, nas escolas, nas ruas, na política, nas instituições, no estado, na religião. o mau está de tal maneira difuso que ficou transparente, porque você não identifica mais uma coisa da outra. Tudo vale tudo e tudo vale nada. Pais, filhos, irmãos, amigos, conhecidos estão muito ansiosos, aflitos, por causa de uma ausência de valores. Então, somos compelidos a nos divertir, consumir, gastar, ir a festas, badalar, pois você não tem mais tempo para nada. A gente não difere mais a informação, os milhares de apelos. Ficou tudo igual e ruim. Estamos todos conectados, mas desinformados de nós mesmos. O mau se enraizou em todas as instâncias do conhecimento. Tudo está pulverizado. Os valores caíram ao rês do chão.”
Seu mais recente livro, Misererê, acaba de ser lançado

“Ando triste e deprimida com a situação do país”


A poeta comparou o momento atual, a um “vestíbulo do inferno. Fazer silêncio é muito perigoso. Vivemos tudo aquilo que pode nos desviar de nós mesmos, até na informação política e religiosa. E o sentido da vida se esvai, escoa, pois consumimos desde a proteína até a informação vazia”.
Em completo silêncio, a plateia escutava a poeta, quase pedindo miserere, miserere nobis, porque “só a poesia pressupõe silêncio, audição e permite o encontro do caminho da alma e da sensibilidade. Sentada do meu lado, uma mulher abaixou a cabeça para que as lágrimas brotassem, principalmente quando a poeta – que mora até hoje em Divinópolis, interior de Minas, – confessou: “Nessa transparência do mau, temos que viver ainda este ano a Copa do mundo e as eleições – fenômenos que convocam as massas para o esquecimento geral. Não há uma pergunta sequer sobre a nossa existência.”
Em permanente diálogo com Deus, Adélia assegurou que somente duas instâncias são capazes de mudar o rumo das massas em sofrimento: “A fé e a arte, pois eu posso gritar por meio dos meus versos miserere nobis. Nesses 38 poemas do novo livro mostro a adesão a algo mais poderoso, para que eu possa me sentir protegida.”
Sobre o envelhecer, Adélia Prado confessou o quanto “é difícil viver o tempo que nos foi concedido. De como as pessoas têm medo da velhice.” E contou o caso de uma atriz que não suportava ser velha. Certo dia, ela andava pelas ruas do Rio de Janeiro, quando foi abordada. “Velha, isso é um assalto!” Indignada, ela disse? “Assalto tudo bem, mas velha não”.
Os jovens, segundo a poeta, precisam “da nossa velhice para se afirmarem. Eles olham para os velhos do alto da prepotência. É justamente essa prepotência que distingue jovens e velhos”. E citou Nelson Rodrigues que ao ser indagado sobe a velhice, respondeu. “Cresçam e envelheçam”. Ela pede para ser velha em paz, para que os mais novos também fiquem em paz.”
Um poema do novo livro:
Vede como nossos filhos nos olham, / como nos lançam em rosto / uma conta que ignorávamos. / Não cariciosos, convertem em pura dor / a paixão que os gerou. / Por qual ilusão poderosa / nos veem assim tão maus, / a nós que, tal como eles, / buscamos a mesma mãe, / concha blindada a salvo de predadores.”

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0 Comentários

mary 16 de março de 2014 - 00:54

Déa amiga, perdi essa missa, mas concordo que sem a oração estamos perdidos. Preciso me achar mais estando com você.’Deus salve Adélia, Deus salve Déa,
Amém,
Mary

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Déa Januzzi 15 de março de 2014 - 01:43

Dirce, há muito quero intergir com você, obrigada por suas curtidas e comentáios no FB. Sei que você é especial e que preciso falar mais perto do seu coração. Obrigada

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Dirce Saleh 14 de março de 2014 - 15:53

Nossa Dea Januzzi que chance nos passa com suas palavras. Num dia como de hoje , dia da poesia, pensava em buscar algo de Adélia para homenagear meus amigos poetas.E ler o que vc escreve é sentir na fala de Adélia sua alma de grandeza mística. Assim vejo Adélia, assim leio sua obra e escutá é retificar nosso viver nesse mundo conturbado de busca, e aflição de viver E ela em sua fala, vc nos mostra bem seu pensamento , aqui : “Em permanente diálogo com Deus, Adélia assegurou que somente duas instâncias são capazes de mudar o rumo das massas em sofrimento: “A fé e a arte, pois eu posso gritar por meio dos meus versos miserere nobis.” Assim , amiga, está o valor da poesia neste dia que a glorificamos rsrsrsrsrs!!!!!Parabéns, viu? Valeu muito ficar na fila para ouvir Adélia Prado, pois pegamos uma boa rebarba com vc .Obrigada Dirce Saléh

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lisa santana 14 de março de 2014 - 03:08

Que Triste! Que triste! Que triste!
Mas existe a fé e a arte.
Mas existe a fé e a arte
Mas existe a fé e a arte.
Mas existe a fé e a arte
Mas existe a fé e a arte…

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