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Quando decidiram entrar no processo de adoção, Simone Kaminski e Wilson Carlos Rossi já haviam ultrapassado os 50 anos. O casal, de Londrina (PR), optou por um caminho que muitos pretendentes ainda evitam: a adoção de adolescentes.
A história foi divulgada pela Associação Brasileira dos Magistrados da Infância e da Juventude (Abraminj) e tornou-se exemplo de uma mudança silenciosa que vem ocorrendo no país. Em vez de buscar apenas bebês, um número crescente de brasileiros maduros tem ampliado o olhar sobre o perfil das crianças e adolescentes disponíveis para adoção.
Projetos de longo prazo
Isso não nasceu de um impulso. Foi resultado de reflexão, preparação e disposição para construir vínculos sem idealizações. A experiência do casal ajuda a compreender uma transformação que acompanha o aumento da expectativa de vida e a mudança dos modelos familiares brasileiros.
Aos 50, 60 ou até mais anos, muitas pessoas continuam profissionalmente ativas, com boa saúde e projetos de longo prazo. Entre esses projetos, a parentalidade passou a ocupar um espaço que antes parecia restrito aos mais jovens.
Idade não é impedimento
Ao contrário do que muita gente imagina, a legislação brasileira não estabelece idade máxima para adoção. O Estatuto da Criança e do Adolescente determina apenas que o adotante tenha mais de 18 anos e seja pelo menos 16 anos mais velho que a criança ou adolescente a ser adotado.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), responsável pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), o foco da análise judicial não está na idade cronológica do pretendente, mas em sua capacidade de oferecer proteção, estabilidade e ambiente familiar adequado.
Maturidade é um diferencial
A avaliação envolve entrevistas, visitas domiciliares, análise documental e participação obrigatória em programas de preparação para a adoção. O objetivo é verificar se aquela pessoa ou família reúne condições para assumir uma responsabilidade .tão grande, uma vez que a adoção não é temporária. É uma relação de filiação definitiva, com os mesmos direitos e deveres existentes entre pais e filhos biológicos.
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Para profissionais que atuam na área da infância e juventude, a experiência de vida costuma ser um dos pontos fortes dos candidatos mais velhos. O juiz Sérgio Luiz Ribeiro de Souza, titular da 4ª Vara da Infância, Juventude e Idoso do Rio de Janeiro, tem destacado em entrevistas públicas a importância de analisar cada situação individualmente, sem preconceitos relacionados à idade dos adotantes.
Maior estabilidade
A Justiça procura avaliar fatores concretos, como saúde, estrutura familiar, estabilidade emocional e rede de apoio. Na prática, muitos pretendentes acima dos 50 anos chegam ao processo com vantagens importantes. Em geral, já enfrentaram desafios profissionais e pessoais, possuem maior estabilidade financeira e apresentam expectativas mais realistas sobre a parentalidade.
Não significa que a adoção seja mais fácil. Significa apenas que a maturidade pode contribuir para lidar com situações complexas que fazem parte da construção dos vínculos familiares.
O desafio das expectativas
Uma das maiores dificuldades do sistema brasileiro de adoção continua sendo o desencontro entre o perfil desejado pelos pretendentes e a realidade das crianças disponíveis. Historicamente, a maior procura concentra-se em bebês ou crianças muito pequenas. Entretanto, milhares de crianças e adolescentes aptos à adoção possuem idade mais avançada, fazem parte de grupos de irmãos ou apresentam necessidades específicas de saúde.
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Por isso, especialistas e grupos de apoio à adoção alertam para a importância de revisar expectativas. A chamada adoção tardia, termo utilizado para crianças maiores e adolescentes, ainda enfrenta resistência de parte dos pretendentes. No entanto, muitos candidatos maduros têm demonstrado maior abertura para essa possibilidade.Foi justamente esse movimento que permitiu histórias como a de Simone e Wilson.
A criança não precisa ser grata
Outro ponto frequentemente destacado pelos especialistas envolve a motivação para adotar. A psicologia da adoção vem alertando há anos para um risco comum: encarar a adoção como um gesto de caridade. Pesquisas publicadas na revista científica Psicologia: Ciência e Profissão mostram que a construção dos vínculos familiares depende da capacidade de reconhecer a criança como sujeito de direitos e não como alguém que precisa retribuir uma oportunidade recebida.
A criança adotada não assume uma dívida emocional. Ela passa a ocupar o lugar de filho. Isso significa que poderá manifestar medos, inseguranças, dificuldades de adaptação e conflitos, como ocorre em qualquer família. A expectativa de gratidão permanente costuma gerar frustrações e dificultar a construção de relações saudáveis.
O que a Justiça observa
Durante o processo de habilitação, psicólogos e assistentes sociais avaliam aspectos que vão muito além da situação financeira. A existência de rede de apoio, as condições de saúde, a disponibilidade para exercer a parentalidade e a compreensão das necessidades da criança fazem parte da análise.
O juiz Iberê Dias, que atua na área da infância e juventude, tem ressaltado em entrevistas que o processo busca garantir o melhor interesse da criança, princípio que orienta toda a legislação brasileira sobre adoção. Por essa razão, não existe aprovação automática. Cada caso é analisado individualmente.
Planejamento para o futuro
Para quem decide adotar depois dos 50 anos, especialistas recomendam uma reflexão cuidadosa sobre o futuro.Questões relacionadas à aposentadoria, saúde e organização familiar devem fazer parte do planejamento.
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Quem poderá ajudar em situações de emergência? Como ficará a rotina escolar? Existe uma rede de apoio capaz de oferecer suporte quando necessário? Essas perguntas não devem servir para desencorajar a adoção. Ao contrário. Elas ajudam a construir projetos familiares mais sólidos e sustentáveis.
Uma nova visão sobre família
A adoção depois dos 50 anos reflete mudanças profundas na sociedade brasileira. A ideia de que existe uma idade correta para constituir família perdeu força nas últimas décadas. Hoje, homens e mulheres chegam à maturidade com mais autonomia para definir seus próprios caminhos.
Alguns escolhem viajar, empreender ou iniciar uma nova carreira. Outros decidem assumir um dos compromissos mais transformadores da vida adulta: tornar-se pai ou mãe. A experiência de Simone Kaminski e Wilson Carlos Rossi mostra que essa escolha não depende apenas da idade. Depende da disposição para construir vínculos, acolher histórias diferentes da própria e assumir responsabilidades de longo prazo.
Na adoção, como costumam lembrar os especialistas, o que está em jogo não é a realização de um sonho adulto. É o direito de uma criança ou adolescente de ter uma família.





