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Agonorexia é um termo novo, ainda fora dos livros e das classificações oficiais, usado por médicos para descrever um fenômeno que vem aparecendo com mais frequência no consultório: uma falta de fome exagerada, provocada principalmente por medicamentos injetáveis usados para obesidade e diabetes, os chamados agonistas de GLP-1 (e combinações como GLP-1 e GIP).
A palavra agonorexia entrou no radar do público há alguns dias, em um quadro da CBN, o “Saúde em Foco”, em que o médico e jornalista Luis Fernando Correia conversou com o endocrinologista Clayton Macedo sobre o assunto.
A ideia por trás do neologismo é simples: quando a medicação “desliga” o apetite de um jeito tão intenso que a pessoa passa a comer pouco demais, sem perceber o risco, o emagrecimento deixa de ser tratamento e vira alerta.
Por que o tema explodiu
É importante não confundir as coisas. Agonorexia não é um diagnóstico formal, nem substitui avaliação médica. E também não é sinônimo de anorexia nervosa, que envolve critérios psiquiátricos específicos. O termo funciona mais como um rótulo clínico para chamar atenção para um efeito adverso: supressão de apetite em excesso.
Os agonistas de GLP-1 ganharam protagonismo no tratamento da obesidade e do diabetes, e a Organização Mundial da Saúde publicou, em dezembro de 2025, sua primeira diretriz global sobre o uso dessas terapias para obesidade em adultos, com recomendações condicionais e reforço de que o tratamento deve ser de longo prazo, combinado com mudanças de estilo de vida.
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Em paralelo, o uso com objetivo apenas estético e o acesso a versões irregulares do medicamento colocaram o tema na pauta das entidades médicas. A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica(ABESO) publicou carta aberta contra o uso para fins estéticos e sem acompanhamento, e Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e ABESO alertaram contra versões manipuladas e alternativas, além de riscos de compra fora de canais regulares.
Mais danoso após os 50
Quem passou dos 50 já conhece uma regra do corpo que a juventude costuma ignorar: o que se perde rápido nem sempre é só gordura.
Estudos e análises sobre perda de peso medicamentosa mostram que, junto com a redução de gordura, pode haver redução de massa magra, e isso importa para força, equilíbrio e autonomia. Um artigo de revisão no The Lancet Diabetes & Endocrinology discute esse ponto e cita faixas de perda de massa livre de gordura que podem representar uma parte relevante do peso total perdido, dependendo do contexto e do acompanhamento.
Em geriatria e endocrinologia, a preocupação é direta: menos apetite pode significar menos proteína, menos energia e menos estímulo para preservar músculo, acelerando fragilidade. Uma revisão sobre riscos do uso de GLP-1 em adultos mais velhos chama atenção para o cenário de “sarcopenia” e para o risco de ciclos de perda e reganho de peso afetarem músculo e gordura de forma desfavorável.
Sinais de alerta
Ninguém precisa “sentir fome o tempo todo” para estar bem. O alerta começa quando a ausência de apetite vira rotina e traz consequências. Na prática clínica descrita na CBN e em textos médicos de divulgação, sinais comuns incluem:
- pular refeições com frequência, esquecer de comer
- aversão a alimentos ou repulsa por comida
- perda de peso rápida, com queda de energia
- tontura, fraqueza, constipação, desidratação
- redução de força, piora de disposição para atividades do dia a dia
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Para o público 50+, vale somar um ponto: se a pessoa percebe que está ficando mais “mole”, com menos firmeza nas pernas e menos resistência para tarefas simples, isso pode ser sinal de perda de massa muscular, não apenas “emagrecimento bem-sucedido”.
OMS, Anvisa e sociedades médicas
A OMS reconhece o papel das terapias com GLP-1 no tratamento da obesidade em adultos, mas coloca a ênfase no cuidado integrado e na avaliação de riscos.
No Brasil, a Anvisa publicou alerta reforçando que as “canetas emagrecedoras” devem ser usadas conforme indicações aprovadas em bula, com prescrição e acompanhamento, e chamou atenção para risco de doenças como pancreatite, por uso indevido.
Do lado das entidades médicas, ABESO, SBEM e SBD têm sido firmes em dois recados: não usar para fins estéticos sem critério e não recorrer a versões irregulares, manipuladas ou compradas fora de farmácias autorizadas, por risco de falsificação, contaminação e falta de comprovação.
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