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Ainda dá tempo de viver novos e saborosos momentos

Por Maya Santana

James Taylor na capa do disco produzido por Paul McCartney e lançado pela Apple Records, gravadora dos Beatles

James Taylor na capa do disco produzido por Paul McCartney e lançado em 1968

Déa Januzzi –

De repente, me vi com 23 anos ao ouvir James Taylor cantando You´ve got a friend. Enviado por um amigo histórico, daqueles cuja amizade está ficando tão velha quanto nós, o vídeo me fez esquecer que tenho 63 anos. Como nos filmes das décadas de 1970, entrei na máquina do tempo ao ouvir James Taylor cantando “Você tem um amigo para iluminar até suas noites mais sombrias. Apenas chame meu nome e eu irei correndo”.

De repente, esqueci que tenho 63 anos. Me senti livre, sem amarras, sem obrigações, sem contas a pagar, sem crédito ou débito com a vida, sem juros nem correção monetária. Eu podia andar pelas ruas sem lenço e sem documento até chegar ao Saloon, o meu “Bar Don Juan”, para encontrar esse amigo e tomar campari com água tônica, e sonhar com o fim da ditadura que mostrava suas garras. Eu mergulhava em copos de menta e de blood mary, o coquetel de vodca com suco de tomate, uma forma instantânea de chegar ao paraíso.

A música de James Taylor me resgatou no tempo em que o inimigo era um só – o regime militar, com suas artimanhas de AI-5, censura e escuridão nos porões da tortura. Sem empunhar armas, sem subir o Araguaia para fazer guerrilha, a gente conversava e conversava e sonhava. De repente, a utopia dos anos 1970, palavra mágica e poderosa para acabar com os desmandos. Palavra esquecida no dicionário atual.

De repente, esqueci os meus 63 anos. Eu acabava de me formar em Jornalismo em plena ditadura militar. Meus sonhos estavam todos intocados. Também ouvia Beatles mas amava mais os Rolling Stones. Curtia Chico Buarque cantando “Quem é essa mulher que canta sempre esse estribilho? Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar”, em referência a Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel, que depois de ser preso e torturado, arranjaram um jeito de jogar o seu corpo no mar, sem deixar pistas.

De repente, esqueci as marcas que o tempo foi fincando em cada parte do meu corpo, dos olhos que já não enxergam mais tão bem. Fui correndo consultar o Almanaque dos anos 70 e descobri que até a autora Ana Maria Bahiana o escreveu há tempos, pois as letras são minúsculas, difíceis de ler para quem está envelhecendo.

A música de James Taylor lembrou-me que quase já não tenho mais amigos homens como antes, que fui selecionando até as amigas, que hoje são poucas, mas fiéis.

Corri para a casa de uma amiga histórica, que insiste em fazer parte da minha vida e eu da dela. Ela mora a poucos quarteirões da minha casa. E lembrei-me de que sem computador, sem watsApp, sem tablet ou celular, a gente se correspondia por bilhetes. Um caderno era o símbolo da amizade. Eu escrevia e ela respondia no mesmo caderno, repleto de festas, namoros, projetos e desejos. Duas das irmãs dessa amiga estavam presas por integrarem o movimento contra as forças militares e, muitas vezes, eu assisti aos policiais invadindo o apartamento da família dela para vasculhar livros, derrubar estantes, abrir gavetas à caça de alguma pista que pudesse comprometê-las.

Livro retrata a década de 70

Livro retrata a década de 70

A música You’ve got a friend me levou aos inconfundíveis anos 1970, resgatou minhas emoções. “Tudo o que você tem a fazer é me chamar e eu virei correndo para te encontrar novamente”, eu repetia a frase da música uma, duas, 20 vezes.

A guerra era outra. Com 23 anos, jovem ainda, achava também que ia mudar o mundo com minhas reportagens sobre as mulheres. Sentei nas escadarias da Igreja São José para protestar contra o assassinato da socialite mineira Ângela Diniz por Doca Sreet, em Búzios, no Rio. “Quem ama não mata”, era o grito de protesto e dos cartazes da época. Fui para a rua muitas vezes assinar o manifesto de um professor que pedia o fim da ditadura e depois foi preso, trocado por um embaixador e que nunca mais deu notícias nem mandou lembranças.

Lembrei-me de Rita Lee, com os Mutantes, numa banheira de espuma. A música me despertou dos 63 anos, mas tive que voltar à realidade de que meus ídolos também estão com os cabelos brancos. Muitos já chegaram aos 70, mas continuam trabalhando, compondo, cantando e dançando, para mostrar que essa geração aguenta o tranco, pois foi capaz de mudar comportamentos e hoje está propondo a revolução da velhice. Quer viver mais e ativamente. Afinal, foi a nossa geração que disse um basta à mesmice, ao anteontem das coisas.

James Taylor me acordou para um tempo de acampamentos organizados e selvagens, de natureza, de festas com luz negra para iluminar os tênis brancos. Obrigada, James Taylor, por me lembrar dos incríveis anos 1970, quando o poster de Che Guevara enfeitava a parede do meu quarto e provocava revolução no meu ser inquieto e rebelde, qualidades intocáveis da juventude.

Obrigada, amigo, por sacodir os meus 63 anos e lembrar que ainda dá tempo de “chamar alto o seu nome, quando aquele antigo vento norte começar a soprar”, como canta James Taylor. Ainda dá tempo de saber que tenho um amigo para tomar vinho, comer sushis, sashimis e, quem sabe, lembrar dos tempos da macrobiótica, que a nossa geração inaugurou com maestria. Assim como tomar banho de cachoeira e fazer sexo fora do casamento. Uma geração que virou tudo de pernas para o ar, que protestou contra a guerra do Vietnã, que instaurou a contracultura.

Ainda dá tempo de reeditar as boas lembranças, mas principalmente viver novos e saborosos momentos. Ainda dá tempo!

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1 Comentários

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lisa santana 2 de agosto de 2015 - 17:30

Déa,adorei vc ter trazido James taylor aqui. Adorei. No início dos anos 70 estava na flor da minha adolescência. Aos quatorze anos Conheci James taylor qdo não entendia patavinas de inglês – a não ser I love you – Vivia no fundo do meu quintal mas adorava ouvir e ver na capa de um disco de vinil, emprestado por uma amiga, a imagem daquele cantor belo e de voz acolhedora.Dançava, de cabelos ao vento, sem saber nadica do que dizia a letra e sem achar que precisava. A melodia entrava em mim, em meu corpo e naquele tempo, era o que bastava.Ele já foi meu mensageiro do amor. E vejo que ainda é. Bjs.

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