
Márcia Lage
50emais
Recebi, por e-mail, este texto preocupante de uma amiga americana, insatisfeita com os caminhos que o país dela vem tomando. Começa assim:
“Estou a um passo do surto. Tudo me irrita. Quase todos me irritam. Estou farta do Trump. Estou farta das notícias. Estou farta das mídias sociais e do seu conteúdo esdrúxulo. Caminho num fio eletrificado, com cuidado para não elotrocutar ninguém. Chata. Reclamona. Impaciente. Pessimista. Desiludida. Cheia de medo.
Medo da Terceira Guerra Mundial, do blecaute climático, da Extrema Direita e dos loucos no poder; medo de ficar pobre, de ficar doente, de morrer a qualquer momento sem ter tido tempo de desfrutar da vida como eu queria.
Desejo paz. Desejo paz interna principalmente. Desejo aceitar sem revolta as coisas ruins que nos acontecem, por razões que fogem à nossa compreensão. Queria poder projetar um futuro de dez anos com conforto e segurança. Ter certeza de que pelo menos minha casa não seja conspurcada por esse século 21 que não avança. Que não chega na civilidade que minha geração de Woodstok tanto desejou.
Disseram que viria a era de Aquário e que tudo seria paz, amor e prosperidade. E o que vejo é a repetição das mesmas guerras contra as quais tanto lutamos. Se não é Vietnã é Gaza; é gente inocente sendo assassinada pela ganância dos poderosos. Ou morrendo pelas consequências do que causamos ao meio ambiente.
Tenho medo. Não é um bom sentimento para a velhice. Queria ter confiança em mim e nos governantes. Em mim, não confio. Posso explodir a qualquer momento. Não estou em posse de nenhum equilíbrio. Nenhuma serenidade. Quanto aos governantes, só tenho desconfiança e desprezo. É muito psicopata em cargos de poder.
Tomaram nossa liberdade, nossa espontaneidade, nossos direitos todos. Não temos mais a quem recorrer. Há máquinas no lugar de gente com respostas para o que elas querem. Não para as nossas perguntas.

Tento sorrir. Tento levantar da cama e meditar. Tento rezar. Tento resolver todos os pequenos problemas da melhor forma possível. Mas eles são gelatinosos, esponjosos, movediços, secretos, confusos. São cabeças de medusa com mil serpentes. Mato uma e vem outra. Que cansaço.
Que cansaço dessa sociedade do cansaço me esgotando pouco a pouco com sua falta de clareza, de empatia, de solidariedade, de respeito, de tolerância. Com seu excesso de violência e de competitividade.
Às vezes quero até morrer. Não por doença ou por suicídio, mas de uma forma rápida, indolor, sem aviso prévio e sem solução. Morrer antes que tudo piore, que a luta pela sobrevivência fique mais árdua e mais vã. Ao mesmo tempo, a vida me devolveu tão pouco do que fiz por ela, que desejo um pouco mais. Mas não disso que estamos vivendo.
Não dessa angústia, dessa falta de perspectiva, desse estupor diante das atrocidades e do atraso civilizatório. Tenho a impressão que regredimos. Ao invés de anjos, viramos bichos. Viramos feras nos atacando para viver. Tristes tempos. Talvez os piores de toda a minha vida.
Caminho para os 70 como quem caminha para o cadafalso. Com medo e tensão. Com pena e dor. Com o sentimento de que não precisava ter sido assim. Mas desejando, lá no fundo do coração, que o carrasco, na última hora, tenha um plano melhor para mim e que retire a corda do meu pescoço e me deixe respirar”.
Fiquei extremamente preocupada com minha amiga. E passei a monitorar seu estado de espírito, dando uma força, para que se recomponha. Todo dia lhe envio piadinhas sobre a reação brasileira às bravatas do presidente Donald Trump contra nós.
Ela voltou a rir. Na verdade, até gargalhou com a charge acima que enviei: Em terra de Zé Carioca, Pato Donald não se cria.
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