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‘Nunca relacionei o ritual de espalhar as cinzas de uma pessoa a um momento de solenidade e tristeza.”
É o que escreve Martha Medeiros neste artigo, uma reflexão sobre os sentimentos que nos invadem na hora de nos despedirmos para sempre de quem amamos.
No caso, ela comenta a cerimônia para espargir as cinzas da cremação de um ente amado.
“Não teve a pompa de um funeral. Foi uma despedida íntima e alegre, matinal, ensolarada. Não se ouvia sinos, órgão de igreja, soluços furtivos, apenas o som dos pássaros que continuaram cantando, alheios à cena. Nenhuma plateia além de duas pessoas. Nem mesmo a morte foi convidada”, escreve a jornalista e escritora.
Leia o texto completo:
No livro “Tudo que eu queria te dizer”, que lancei em 2007, há uma carta fictícia de uma mãe para seus três filhos, em que ela dá instruções sobre onde eles deverão jogar as cinzas depois que ela for cremada. Uma gaiatice: ela deseja ser espalhada em algumas cidades onde foi feliz, promovendo assim uma pequena viagem para os filhos que “nunca levantaram a bunda da cadeira do escritório, parece até que dormem de gravata”. Ela os intima a viver um pouco, nem que ela precise morrer para isso.
Ao contrário dos sepultamentos, nunca relacionei o ritual de espalhar as cinzas de uma pessoa a um momento de solenidade e tristeza, ao contrário, sempre simpatizei com sua possibilidade de humor — quem assistiu ao filme “O grande Lebowski”, dos irmãos Coen, lembrará da cena final. Muitos anos atrás, eu era frequentadora assídua de um restaurante em Porto Alegre, onde dei infinitas gargalhadas entre amores e amizades, e era lá, em sua calçada, que eu dizia que minhas cinzas deveriam ser jogadas.
O restaurante morreu antes de mim, e sigo à procura de um lugar que me represente. Hoje em dia, a exemplo da personagem do meu livro, gosto da ideia de ser dispersada a prestações, aqui e acolá, a fim de celebrar a vida em movimento.
Eis que agora passei pela experiência inédita de soltar as cinzas de alguém. Ao contrário da ficção, em que tudo pode, só nos é permitido jogar cinzas de cremação em ambientes largamente abertos e respeitando o regulamento local, razão pela qual muitos familiares escolhem o mar, rios e montanhas para o ato. Também me pareceu o mais correto a fazer, e a emoção foi integral — do riso ao choro, sem estardalhaço ou drama.
Não estávamos em um filme, mas a paisagem era de cinema. Não teve a pompa de um funeral. Foi uma despedida íntima e alegre, matinal, ensolarada. Não se ouvia sinos, órgão de igreja, soluços furtivos, apenas o som dos pássaros que continuaram cantando, alheios à cena. Nenhuma plateia além de duas pessoas. Nem mesmo a morte foi convidada.
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Do pó viemos, ao pó voltaremos, muitos pensam nessa hora. Mas não há dogma, preceito, frase feita que resuma ou justifique esta escolha. Cada um obedece a sua religião, ou o que o coração manda. É uma cerimônia de libertação, nós que passamos a vida inteira confinados em apartamentos e regras, que gastamos tanta energia para estar onde nos esperam, fazer o que nos determinam.
Devolvemos quem a gente ama à liberdade absoluta. Sei que tudo é apenas simbólico, que não há mais ninguém ali, que são apenas restos do que se foi, mas a relevância da história está sempre no significado que damos a ela. Ter feito parte deste epílogo tão pleno de vida foi a página mais bonita que jamais escrevi.
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