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Aos 60, um coração bateu mais de 3 trilhões de vezes

Por Maya Santana

Deve ser por amor que o coração mata 2 vezes mais que todos os tipos de câncer

Deve ser por amor que o coração mata 2 vezes mais que todos os tipos de câncer

Marcus Vinícius Bolívar Malachias

Parece incrível, mas o coração, o motor da vida, bate em média 100 mil vezes por dia. Para se ter uma ideia, aos 60 anos de idade, esse amigo do peito já bateu mais de 3 trilhões de vezes! Não é surpresa que os males desse órgão sejam a primeira causa de mortes na população adulta e, em especial, na terceira idade. Deve ser por amor demais que o coração mata 2 vezes mais que todos os tipos de câncer juntas, 3 vezes mais que os acidentes e 6 vezes mais que todas as formas de infecção.

Ah, velho coração que tantas histórias guarda. Quantas vezes bateu acelerado com a chegada da carta da pessoa amada, com o afagar de mãos no escuro do cinema e no primeiro beijo roubado depois da matinê? Hoje ninguém escreve mais cartas, muitas salas de cinema desapareceram, mas com os beijos de amor ninguém vai conseguir acabar. Esse coração também disparou com o nascimento dos filhos, dos sobrinhos, depois dos netos e agora dos bisnetos. E foi bastante forte para resistir a tantas perdas de entes queridos!

Dr. Marcus Vinícius Malachias

Dr. Marcus Vinícius Malachias

Com o tempo e com todas essas emoções, muitas alterações ocorrem nesse velho motor. Os médicos tem nomes complexos para explicar o que acontece no coração com o passar dos anos. Chamam de disfunção diastólica quando a elasticidade do músculo cardíaco já não é a mesma dos tempos da faculdade. Chamam de bloqueios as pequenas falhas na parte elétrica do órgão, de sopros, quando o desgaste ocorre em suas válvulas e aparecem sons característicos ao exame, e de arritmias, quando a sua melodia resolve sair do compasso e podem surgir palpitações para nos fazer sentir que ele existe.

Uma dor forte em aperto no peito deve alertar para o grande risco da angina ou do infarto, necessitando de assistência médica imediata. E quando esse músculo mágico perde a sua força de contração e o coração se dilata, surge a insuficiência cardíaca, causando cansaço, falta de ar doença e grande preocupação. Mas há também os suspiros de emoção da angústia, revelando a razão de utilizarmos o símbolo do coração para representar a vida, o amor e os sentimentos.

Muitos desses sintomas surgem como alarmes para nos lembrarmos que o coração também precisa de reparos. Afinal, são tantos os agressores do coração: hipertensão, diabetes, tabagismo, colesterol elevado, sedentarismo, aumento de peso, estresse, envelhecimento… Ufa, que máquina fantástica é essa, capaz de resistir a tudo isso. Mas é bom não abusar de sua resistência e visitar o médico regularmente.

É curioso pensar que o coração começa a bater com poucas semanas de fecundação, ainda no útero materno, e nos acompanha até os nossos últimos suspiros, indo muitas vezes até além do nosso fim, pois pode ser transplantado levando vida a outra pessoa. Quantas lindas palavras surgiram a partir dele: cor, coragem, acordar, recordar, cordialidade e até acordes, a combinação de notas que fazem a harmonia de todas as músicas que existem.

E se é com alegria que celebramos as primeiras batidas de um coração anunciando a chegada de uma nova vida, é com tristeza e comoção que recebemos a notícia de que após trilhões de pulsações, um coração encerra a sua melodia. Mas há quem, como eu, que acredita que a música do coração nunca se cala, pois quando isso acontece perde uma só letra e se transforma em oração.

Marcus Vinícius Bolívar Malachias, 53 anos, é cardiologista, doutor em cardiologia pela USP e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

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3 Comentários

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Carmen Lins 17 de agosto de 2017 - 21:05

Textos assim são bálsamos para o nosso “coração” que sofre tanto com a crueldade da vida, como a que o mundo acaba de assistir – o atentado terrorista em Barcelona.

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lisa santana 16 de agosto de 2014 - 23:32

Sim Nenez, também gostei. Uma coisa que aprendi com a antroposofia é que um coração só toma seu lugar e forma última ( ele inclina no peito) aos 14 anos, quando o menino(a) já é quase um adulto. E tem uma expressão sobre a qual o doutor não mencionou, que é “saber de cor” = saber de coração e que eu acho linda!

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nenezrick 15 de agosto de 2014 - 23:06

Que texto bonito e esclarecedor!

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