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Cirandeira, 70, luta para erguer centro cultural

Por Maya Santana

A lendária Lia de Itamaracá é Patrimônio Vivo de Pernambucanas

A lendária Lia de Itamaracá é Patrimônio Vivo de Pernambuco

Lia de Itamaracá, cirandeira, “patrimônio vivo” de Pernambuco desde 2005, comparada por jornais estrangeiros a Cesária Évora e a Billy Holliday, assume, aos 70 anos, a tarefa de reconstruir o seu Centro Cultural, erguido na Praia do Jaguaribe, em 2006, e destruído pelas fortes tempestades de janeiro deste ano.  Sabe quanto Lia precisa para reerguer o centro, onde faz as rodas de ciranda que reúnem centenas de pessoas e atraem turistas de todos os lugares?  Ela precisa de 140 mil reais.

Para a cirandeira é uma quantia enorme de dinheiro.  Representa, porém, uma fração das cifras envolvidas nos infindáveis casos de corrupção no país; uma ínfima parte do que está sendo gasto na preparação dos estádios para a Copa do Mundo.  Não sou contra a copa. Mas as distorções são assustadoras.  Para arrecadar o que precisa, Lia vai lançar mão do que é chamado em inglês de “crowdfunding” – o mesmo que financiamento coletivo, feito através da internet.

A cirandeira é referência quando o assunto é o ritmo praieiro

A cirandeira é referência quando o assunto é o ritmo praieiro

Lia deveria ser eleita Patrimônio Brasileiro. Esta mulher alta (1’82 cm) e elegante já foi chamada de “diva da música negra” pelo New York Times. Embora com talento e voz para conquistar o mundo, ela decidiu permanecer para todo o sempre onde nasceu e foi criada, a ilha de Itamaracá. Cresceu trabalhando como servente de uma família rica. Em 1962, foi descoberta pela compositora Teca Calazans e virou um dos principais nomes da ciranda. Em 1978, gravou seu primeiro LP, Rainha da Ciranda, para, em seguida, desaparecer. Passou mais de 20 anos exercendo a função de merendeira numa escola pública da ilha.

Não fosse o então secretário de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna, Lia provavelmente continuaria esquecida. Foi ele, um eterno incentivador da cultura popular, quem resgatou a cirandeira. A  partir daí, ela gravou discos – : Eu sou Lia (2002) e Ciranda de todos os ritmos (2008) -, viajou por várias partes do Brasil e na Europa.  O internacionalmente famoso Naná Vasconcelos, percussionista,  diz que “Lia é a ciranda viva. É simples, mas tem uma lírica poética maravilhosa, com profundidade. Ela é sinônimo de resistência, e guarda uma africanidade muito forte.”

Apesar de tudo isso, dos infindáveis elogios, da amizade com gente famosa e das promessas da prefeitura, quase seis meses depois, ainda não apareceu ninguém para ajudar a septuagenária Lia de Itamaracá a construir um templo novo para sua arte.

Texto da Redação do 50emais, com base em reportagem da Folha de São Paulo.

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