
Ricardo Bastos
50emais
Outro dia, minha cafeteira parou de funcionar. Não era uma máquina sofisticada. Fazia café honestamente todas as manhãs havia anos. Apertei o botão. Nada. Tirei da tomada. Esperei. Tentei de novo. Nada.
Levei-a a uma assistência técnica. O rapaz olhou, examinou por alguns segundos e deu o diagnóstico: “Não compensa consertar.” Achei curioso. Ele não disse que não tinha conserto. Voltei para casa pensando nessa diferença.
Durante boa parte da vida, fomos educados para consertar as coisas. Sapatos ganhavam sola nova. Guarda-chuvas voltavam a abrir. Relógios eram desmontados peça por peça. Liquidificadores atravessavam décadas fazendo barulho na cozinha.
Havia oficinas. Havia especialistas. Havia paciência. Hoje, quase tudo se tornou descartável. Quebrou? Troca. Substitui. Desgastou? Compra outro. O raciocínio parece eficiente. Talvez seja mesmo. Mas às vezes fico pensando se essa lógica escapou dos objetos e entrou silenciosamente na maneira como passamos a lidar com a própria vida.
Não consertamos mais amizades. Não consertamos mais desentendimentos. Não consertamos mais relações. Ao primeiro ruído, bloqueamos. Ao primeiro desconforto, nos afastamos. Ao primeiro defeito, procuramos uma versão mais nova.
É claro que existem relações que realmente terminam. Existem limites que precisam ser respeitados. Existem situações que merecem distância. Mas nem tudo precisa ser descartado. Algumas coisas merecem manutenção.
Na semana passada, encontrei um amigo que não via havia anos. A razão do afastamento era tão pequena que nenhum dos dois conseguia mais lembrar exatamente o motivo. Durante anos carregamos uma distância construída sobre um mal-entendido que provavelmente poderia ter sido resolvido numa conversa de quinze minutos.
Quinze minutos. Menos tempo do que gastamos escolhendo um filme numa plataforma de streaming. A vida moderna parece ter desenvolvido uma impaciência com imperfeições. Queremos celulares sem travamentos. Corpos sem rugas. Casamentos sem conflitos. Amizades sem divergências. Filhos sem rebeldia. Pais sem imperfeições.
Mas quem sabe o valor das coisas esteja justamente naquilo que sobrevive aos desgastes. Olho para algumas peças antigas da minha casa e percebo que elas carregam marcas do tempo. Pequenos riscos. Desgastes. Cicatrizes. E continuam bonitas. Talvez até mais bonitas. Porque contam histórias.
O mesmo acontece com as pessoas. As relações mais importantes da nossa vida raramente são as mais perfeitas. São as que resistiram às fases difíceis. As que atravessaram desencontros. As que sobreviveram a erros, pedidos de desculpas e recomeços.
Consertar exige uma virtude que anda meio fora de moda: Paciência. Paciência para ouvir. Paciência para explicar. Paciência para esperar. Paciência para reconhecer que nem tudo precisa funcionar perfeitamente para continuar tendo valor.
A cafeteira acabou sendo substituída. O rapaz da assistência técnica tinha razão. Financeiramente, não compensava o conserto. Mas, desde aquele dia, fiquei pensando em quantas coisas importantes da vida ainda compensam. E talvez a resposta seja simples. As melhores quase sempre compensam.
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