fbpx

As muitas idades da alma

Por Maya Santana

"Iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas"

“Iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”

Lúcia Azevedo, Senhoras & Senhores

Vivemos todos em dois tempos: o tempo cronológico, e o tempo da alma, o tempo subjetivo.

O tempo cronológico é um só, e caminha em uma só direção: do passado para o futuro, inexoravelmente. Mas o tempo da alma circula; vai para trás, para frente, para os lados..

De manhã, acordando de uma noite mal dormida, tenho cem anos. Mais tarde, depois de um bom café, já remocei um pouco. Minha jovem vizinha comenta comigo no elevador que uma senhora amiga dela tem muita dificuldade com o computador, coitada, não é como “nós”! Pronto, já fiquei com quarenta anos. E um pouco culpada, pela falta de solidariedade com a senhora do computador.

Ouço uma música do “meu tempo”; tenho quinze anos. Brinco com a minha neta: oito anos. Um rapaz de cinquenta me pede um conselho: volto a ter uns sábios sessenta..

E assim vamos, dia a dia, passeando por todas essas idades. Ainda bem!

Mas não é fácil acostumar com a idade cronológica, em parte devido a essa grande variação nas idades da alma..

A pessoa que nos olha do espelho pode ter uma quantidade enorme de rugas e papadas e manchas num dia, e no outro ser uma jovem alegre e disposta. Fica difícil entender que a idade cronológica é sempre a mesma. Como assim? Eu ontem estava muito mais velha que hoje!

Há dez anos atrás eu estava mais velha do que hoje!

Geralmente a gente sente a idade da alma “por dentro”: quando eu tinha dez anos, queria chegar logo aos quinze; “por dentro” eu já tinha quinze, e as constrições da minha parca idade me incomodavam demais!

Depois, quando fui chegando aos cinquenta, “por dentro” ainda era uma moça de trinta – e o número cinquenta me parecia incrivelmente excessivo!

Reconhecer que a alma tem muitas idades, poder passear por todas elas, pode nos libertar, dar bom humor e sabedoria para lidar com as limitações da idade cronológica.

Torna a vida muito mais rica e divertida, e pode nos ajudar a fazer como Mario Quintana:

“E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente …
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.”

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





9 Comentários

Gislayne Matos 23 de outubro de 2015 - 17:14

Texto excepcional. Mais verdadeiro impossível

Responder
lisa santana 29 de setembro de 2015 - 23:10

Que delícia de texto! Libertador.

Responder
maria de nazare barros piana 25 de setembro de 2015 - 22:23

Amei cada palavra descrita com tanta simplicidade e ao mesmo tempo, com sabedoria. Me senti viajando no tempo da saudade que insisti em permanecer. ..
Hoje aos quase 5.1 me siinto como se tivesse 30.
Amanhã pode ser que mude de idéia…ou as circunstâncias dirão se meu tempo cronológico está em harmonia com meu eu interior.
Enfim, cada momento exige de nós uma reação.
Que seja sempre uma resposta positiva…

Responder
olga sérvulo 23 de setembro de 2015 - 20:00

Que texto lindo, este. Verdadeiro demais!

Responder
Fabio Andriani 23 de setembro de 2015 - 11:18

Bem vinda esta reflexão tão bem escrita!
Um passo a frente…
Será apenas a força do hábito é que prende nossa liberdade na fluidez da ação na relação social com os jovens, adultos e outras pessoas de meia idade?
Hábitos são difíceis de mudar, mas também enfrentamos o preconceito geral.
A luta pela liberdade de viver vem deste criança.
Bora la!!!

Responder
Gilsa Lima 23 de setembro de 2015 - 07:26

Amei o texto, perfeito!!

Responder
Heliana Marques 22 de setembro de 2015 - 20:36

Lindo texto. Como é bom nos enxergarmos nele … dá uma paz!!!

Responder
IVONI OLIVA 22 de setembro de 2015 - 14:53

Muitas vezes me sinto assim, fora da minha idade cronológica, inclusive qdo estou no convívio com pessoas mais novas. Até parece que fico renovada e esqueço das marcas do tempo.

Responder
Magda 22 de setembro de 2015 - 12:51

Sábias palavras, incrível como pode descrever com muita sabedoria e simplicidade. É como me sinto , agora entendi como sou, sou normal .

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais